Contra A Parede
1 Contra a Parede
Contra a parede
Somente você e seu punho
O primeiro dói. Você abre a mão, estica os dedos e sente a dor se espalhando por seus nervos. Você se refaz, mas o segundo também dói. E o terceiro. E o quarto. A dor nunca vai embora, ela permanece ali, grudada a sua pele, recepcionando os nós dos dedos que vão de encontro ao concreto da parede. Você não para, você não pode parar. Precisa de paz.
A música. Você não a ouve realmente. É só mais um som sem importância, como o barulho dos carros na rua ou sua própria respiração ofegante. Apesar disso, a música é útil. Ela deixa sua mente vazia, te dá forças para continuar. Uma, duas, três vezes. De novo e de novo. Mais socos na parede.
Você sente sua mão arder e então para por um momento. Vermelho. Os socos arrancaram sua pele. Há vermelho na parede também. Uma linha pequena, mas completamente visível em meio ao branco. Um choque de realidade? Vontade de parar? Não mesmo.
Seu coração bate mais forte. Os socos se tornam mais rápidos. Mais e mais. Mais força, mais impacto, mais dor, mais vermelho. É isso que você quer. Desesperadamente, você tenta apagar o branco do concreto e substituí-lo pelo vermelho do seu sangue. O machucado arde, mas por que você iria ligar?
Quanto tempo passa? A música repete sem parar, já não dá para saber se está na primeira ou na vigésima quinta execução. Sua mente está vazia, seu objetivo foi alcançado. Você não pensa. Você não sente. Nada além da dor, da ardência. Paz por poucos momentos.
Então você para e descansa. Horas, dias depois, você olha para suas mãos. Algumas regiões estão roxas, outras em um tom de bege, poucas somente amareladas. Dói mexer os dedos. Dói segurar a caneta e anotar o que o professor escreve na lousa, mas você não se importa. Porque você gosta daquela dor, ela é bem vinda.
As pessoas dizem que você é louco, que deveria parar, afinal isso só vai te machucar e a mais ninguém. Ninguém será atingido pela dor causada pelos socos além de você mesmo. Mas quem disse que essa dor é para mais alguém? Essa dor é sua, somente sua. Sua rota de fuga, sua válvula de escape.
O som produzido pelo encontro da sua pele e do concreto da parede funciona como remédio. Um medicamento que apaga suas lembranças, deleta as imagens, as palavras que você não quer lembrar, que não quer voltar a ouvir.
As pessoas falam que isso é loucura. Mas se elas fizessem o mesmo, talvez entendessem. A paz em cada soca, a amnésia na dor. Você sabe que se machuca, você sabe que seu comportamento machuca e preocupa os outros. Mas você não pode parar.
Pois não será um gole de um remédio natural ou palavras de conforto que farão com que a dor em seu interior suma. Não. Para consertar tudo o que está quebrado por dentro, você tem que se destruir ainda mais. É ruim? Sim. É doloroso? Sim. Marca? Profundamente, mesmo que depois de alguns dias não exista mais nenhuma marca em suas mãos.
Acima de tudo, os socos trazem paz. Uma paz que você precisa e que você só encontra naqueles breves momentos em que só existe você.
Você contra a parede.
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