Contos nunca contados
9 Fim
Ela apaga o cigarro com calma, seu rosto não denuncia qualquer sentimento. Duro como mármore, para mim era triste ver aquele rosto outrora sorridente me olhando sem expressão, estou sentado à frente dela, também possuo um cigarro em minha mão, só que ele apenas queima, não é fumado, a camisa dela se abria de modo convidativo, provavelmente porque sua dona não se importará em arrumar, ela tem certeza que eu sei que não estou sendo convidado a nada.
Observo com o canto do olho a sala onde estávamos eu estou sentado na poltrona ela no sofá, ela segura malas, eu um cigarro, ela está bem vestida e eu não, ela não planeja beber, já eu planejo entrar em um bar e só sair dali quando um liquido destilado ou fermentado tivesse substituído meu sangue, naquele exato momento as únicas coisas que temos em comum é que não gostaríamos de estar naquela sala e o fato de não estamos felizes.
A sala era decorada por quadros que retratavam paisagens, momento ou prédios, ela decorou a sala, tinha bom gosto, diferente de mim. Acho que deve ser mais uma diferença entre nós, ela me encara e eu me remexo desconcertado na poltrona, poltrona essa que parecia confortável demais para aquele momento, um erro, aquele momento merecia uma cadeira de bar, ou um banco de praça, não o conforto de uma poltrona, aquilo estava errado.
Olho para os olhos castanhos que talvez pela luz, ou pela ilusão de óptica criada pelo medo os olhos dela pareciam perolas negras, cintilantes, acusadores e perigosos, sua boca que um dia fora sorridente e atrativa agora era quase uma linha branca, olhamos ao mesmo tempo para o cigarro em minha mão, ela fumara três enquanto aquele queimava pacificamente entre meus dedos que não se moviam, porque deixei-o ali? Não sei, me pareceu o suficiente, não queria fumá-lo, queria apenas sentir seu cheiro e reviver as lembranças que ele trazia.
– Você não deveria fazer isso — um eu mais jovem e mais atrapalhado falava para uma versão mais nova da mulher que no presente está sentada em um sofá. Ela olha fuma um cigarro da marca do que hoje está em minhas mãos, ela levanta a cabeça e olha confusa para mim — fumar ainda vai matar você.
– este é seu melhor jeito de puxar assunto com uma garota? Serio mesmo? — ela me encara com um misto de pena e incredulidade — criticando o estilo de vida dela antes mesmo de saber o nome.
Eu nada disse, continuei quieto sentindo meu rosto corar, então ela sorrio para mim, foi a primeira vez que a vi sorrindo, queria que aquele momento tivesse durado a eternidade, ela puxou um trago profundo, e em um ato de profunda zombaria para com minhas palavras ela soltou a fumaça por entre os dentes sorridentes e então deu os ombros.
– Minha mãe fala a mesma coisa — disse atirando o cigarro longe onde talvez algum mendigo passa se e pegasse, e então ainda sorrindo por entre os lábios vermelho fogo deu um tapinha ao lado de onde estava sentada, fui e me sentei ainda encabulado e sem acreditar na minha sorte — mas o que importa? Todos vamos morrer um dia né?!
Sabia que tinha dado sorte por ela ter perdoado um inicio tão ruim, por isso resolvi mudar de assunto, assunto que para minha surpresa ela gostou tanto que rendeu ate o telefone dela, e depois disso venho uma grande quantidade de barzinhos para no fim, apos bastante tempo oficializarmos nossa relação em um quarto com temática arábica (que ficou em pouco tempo cheio da fumaça de nossos cigarros) e após isso rimos ao nos dar conta que o hotel se chamado Le France.
Naquele mesmo mês conheci os pais dela, pessoas adoráveis que positivamente não irei mais ver, sem duvidas não iria ver nenhum dos dois quando ela passasse por aquela porta, pois eu ia esquecelos assim como esquecia a filha deles.
Lembro-me também do dia em que eu os conheci, o problema, sabia eu era o pai, sempre é o pai afinal, ele me encarou sentado na poltrona durante segundos a fio e quando eu achei que ele tinha virado pedra ou dormido de olhos abertos ele se levantou e vagarosamente caminhou em minha direção, ele é alto, bem mais alto do que eu e naquele instante seus cabelos brancos não passavam nenhum sinal de fragilidade, ele parou a minha frente e me olhou fundo nos olhos.
– Se você fizer mal a minha filha...
– Eu amo sua filha — eu o interrompi, palavras fluíam da minha boca com naturalidade ele suspirou e naquele momento pareceu velho.
– Todos dizem isso — falou ele se inflando novamente — se você a trair ou faze algo parecido, juro que irei...
– Senhor, poupe suas ameaças. Nunca farei isso — apertamos as mãos e viramos amigos.
Devo admitir que se alguém sentado numa poltrona começou nosso namoro, me parecia justo que comigo sentado numa poltrona ele terminasse, saboreei com ironia aquela piada de mau gosto.
Sinto meus olhos arderem, quando foi que tudo começou a dar errado? Sem duvidas foi no dia em que Rafael surgiu em nossas vidas, mas naquele momento eu não me preocupei, ele era apenas um anota de rodapé, um detalhe da empresa, o cara que fazia uma piadinha engraçada, ou que fazia algo que chamava atenção, como eu iria imaginar?
– Amor — disse ela agarrada comigo enquanto assistíamos um programa humorísticos que não tinha graça — sabe o Rafael?
– Sim querida, o que tem ele?
– Sabia que ele mora aqui perto?
– Ah é? — eu disse meio distraído — que legal
Eu deveria ter notado algo de errado quando as notas sobre ele se tornavam maiores e mais numerosas com o passar do tempo.
– O Rafael anda tão triste — ela falou certa noite enquanto jantávamos, eles trabalhavam juntos há um ano e devo confessar que naquela época eu já sentia um pouco de raiva daquele nome, mas não demonstrava, teria sido mais um erro para a lista? — ele terminou com a namorada e agora anda tão sozinho — eu então a beijei
– Ainda bem que não tenho esse problema — e acariciando seu rosto completei — ele logo encontra alguém para tirar ele da solidão, não se preocupe.
– Sem duvidas vai — disse ela pensativa
Quanto tempo se passou? Muito difícil precisar, tudo sobre o assunto me é muito vago e impreciso, dias são semanas e semanas meses dentro de minha cabeça, mas acho quase certo afirmar que foi no terceiro mês depois dessa conversa que ele apareceu na porta de minha casa pela primeira e única vez.
Eu estava sentado no mesmo lugar onde estou hoje, fumava um cigarro atrás do outro, Dominique estava demorando, não atendia minhas ligações nem me ligava, eu estava genuinamente preocupado, ela era sempre pontual e se orgulhava disso, eu apesar da preocupação sabia que naquele momento não adiantava ligar para ninguém, geraria uma preocupação desnecessária, o que eu tinha de fazer era sentar e esperar.
Havia acabado de terminar o sétimo cigarro quando a campanha tocou, eu não sabia quem seria, mas sem duvidas eu não tinha cabeça para atender ninguém naquela hora da noite, mas para minha surpresa ela estava parada na frente da porta. E ao seu lado estava Rafael.
– Precisamos conversar — ela falou sem me olhar nos olhos, minhas pernas bambearam.
– Tudo bem, entrem — eu falei me encostando na porta arrasado.
– Não — disse Rafael friamente, ele tinha mais ou menos o meu tamanho, cabelos negros e um olhar que provavelmente era calmo, apesar de naquele instante ele estar bem nervoso — prefiro ficar aqui fora, o assunto que nos trás aqui não é para ser discutido com chá e biscoitos.
"Vá se fuder idiota" eu quis dizer, mas não disse, apenas olhei para Dominique que ainda não me olhava.
– Muito bem — minha voz saiu mais fraco do que eu gostaria — então o que te trás a minha casa?
– Eu e Dominique estamos juntas — ele disse e para ilustra colocou o braço em volta da cintura dela de forma dominadora.
Balancei a cabeça de forma afirmativa, minha cabeça pesava e arriscava pender para baixo, tudo o que consegui fazer foi um grunhido baixo e ressonante.
– É isso que você quer? — eu encarei ela novamente.
– Nosso relacionamento não estava indo bem, é melhor assim — ela falou firme apesar de não me olhar nos olhos.
Rafael sorriu com uma boca cheia de dentes.
– Ela vem busca as coisas daqui a uns dias, mas ela vem comigo está noite, para minha casa — e estendeu a mão — foi um prazer te conhecer, ela falou muito bem de ti,
Olhei para mão dele, se eu tivesse cuspido nela teria sido uma ótima resposta, se tivesse socado sua cara estaria em meu direito, porem a idéia de ter contado físico com ele me enojava, e em suma não sentia vontade de fazer ou falar mais nada. Apenas me virei e fechei a porta.
Caminhei ate a geladeira, peguei uma bebida e acendi um cigarro, me sentei na poltrona, não abri a cerveja, e não fumei o cigarro apenas fiquei ali sentido nada, e me sentindo mal por não sentir nada, apenas repetia para mim "vai demorar, para esquecê-la, os amores de verdade são difíceis de esquecer, mas uma hora conseguirei" e naquela noite esse foi meu mantra.
Uma buzina me trouxe de volta ao presente e a realidade, ele havia chegado.
– Então... — ela falou baixo — é isso...
Ela começou a andar em direção a porta, no passar ao meu lado parou e me olhou, talvez pensasse em como havíamos sido felizes, talvez pensasse em nossas caminhadas, bebedeiras, delírios, sonhos e desejos, mas na verdade, creio eu que ela só procurava a melhor forma de dizer que tudo acabará que estava indo embora para sempre.
– Adeus... — ela falou e continuou caminhando, não fiz menção de me levantar ou virar-me para trás, ela parou na porta, senti sua respiração parar por um instante, mesmo assim não me virei não a veria partir.
– Feche a porta quando sair — foi tudo que meu autocontrole me permitiu dizer.
Eu ouvi a porta se fechar com um ruído familiar, então ouvi as vozes e uma porta de carro também fechar-se e o carro partir, por fim ouvi o silencio a minha volta, permaneci naquela posição durante algum tempo, então levei o cigarro aos lábios e dei uma longa tragada, quando senti meus pulmões totalmente cheios de fumaça, uma voz distante disse dentro de minha cabeça:
"fumar vai matar você
– Minha mãe fala a mesma coisa — responde uma também distante voz"
Soltei o ar por entre os dentes e uma lagrima solitária escorreu do meu olho, ela não saiu pela tristeza do momento, saiu, pois eu percebi que já havia começado a esquecer.
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