Dizem que falar uma mentira um milhão de vezes a torna realidade, porem apesar de já terem falado essa frase milhões de vezes através da historia, ela não se tornou verdade, eu sou uma prova disso, sempre fui e sempre serei um cara normal com mentiras normais, mentiras estas que nunca se tornaram reais, sou como qualquer um que passa por você na rua, senta ao seu lado no ônibus ou conversa mansamente contigo na fila de algum banco. Entretanto eu percebi um segredo nem tão secreto, não que isso me torne melhor, já que eu não procurei a verdade, a verdade me encontrou.

Era um sábado, talvez domingo não que o dia realmente importe afinal a única coisa que importa é que isso aconteceu, mas agora você se pergunta o que aconteceu comigo afinal? Aconteceu que eu encontrei nesse dia encontrei uma garota. Eu estava lá naquele parque onde mães levavam suas crianças para correr e gastar a energia que tinham de sobra, eu estava sentado em um banco aleatória em uma mão estava o livro enquanto em outra pousava um celular pelo qual eu falava com meus amigos.

Tudo estava normal ate que a tal garotinha parou a minha frente, me observando, geralmente meu humor não bom o suficiente para lidar com crianças, por isso continuei a ler, sem dar atenção a estranha, mesmo assim ela continuava a me olhar.

– Perdida garotinha? — disse por fim derrotado

– Eu? — ela perguntou confusa — eu não estou perdida! Diferente de você

Fechei o livro irritado

– bem garotinha, para sua surpresa também não estou perdido, onde afinal estão seus pais?

– quem é você? — me questionou a menina sem responder minha pergunta, minha cota de ser um bom moço acabará de acabar.

– eu sou um cara que estava lendo um bom livro antes de ser brutalmente interrompido — respondo com sarcasmo.

– não seu bobo, não estou te perguntando o que faz, está perguntando quem é você, mas pelo que vejo você ainda não sabe — ao ver minha indagação sorri — não se preocupe você descobrirá mais cedo do que imagina, ai nos encontraremos novamente.

Ao dizer essas palavras correu como uma moleca pega ao roubar um doce, tentei chamá-la tentei entender o que havia acabado de acontecer, porem algo entorpece meus sentidos, era como se estivesse tudo estranhamente certo, com essa sensação me levanto e também vou embora.

Muitos em meu lugar teriam seguido suas vidas como se nada tivesse acontecido, entretanto essas pessoas nunca viram aquele olhar calmo como o céu antes da tempestade e nem ouviram sua voz sem hesitações ou falhas e ainda assim estranhamente infantil, havia algo errado, garotas de sete anos não falam ou olham daquele jeito.

Caminhando para casa pensei e repensei em suas palavras, palavras estas que calaram fundo em mim, nunca aquelas arvores se fecharam sobre mim daquele jeito, o ar estava abafado anunciava chuva, sorrio, pelo menos chegarei em casa antes dela.

A água quente que envolve meu corpo enquanto tomo banho ajuda meus músculos a relaxarem o que permite que minha mente se abra, porem isso não trouxe o familiar bem-estar, em seu lugar venho uma nova sensação, era como se eu estivesse a porta de um quarto e atrás da porta tivesse algo novo e magnífico, entretanto minha covardia não me deixava abri-la, não me deixava descobrir o que havia ali.

Cansado e sem paciência fui me deitar, não queria mais pensar em nada, queria apenas descanso, porem para minha total infelicidade minha mente tinha outro planos.

Naquela noite eu sonhei com o frio, não o simples frio como o do gelo e sim o verdadeiro frio, aquele que não gela apenas mente, também gela o espírito e o coração, sonhei com a porta de negro aço que apesar de não possuir maçaneta abriu-se por mim revelando o que havia alem dela, e apesar dela só mostrar terra morta eu a atravessei com medo, pois não havia outro lugar para ir.

Entrei naquela terra maldita, terra renegada e profana, terra de solo negro e morto, esquecida pelo estrela da manha e por seu pai. O céu era negro e morto, ali não havia lugar para bons sentimentos ou pensamentos nobres, um péssimo agouro me acertou naquele momento, mas não se compara ao medo que senti quando eles apareceram.

Eles surgiram do nada, eu caminhava perdido há algum tempo quando um medo se instalou em meu estomago e foi estão tomando espaço o clímax foi atingido quando esse medo me paralisou, isso aconteceu no momento que eu os vi, usavam mascaras e mantos negros que lhes davam aspecto terrível, mas o mais horrível era que eu reconhecia a mascara, era meu rosto.

– Olhem — disse um deles quando pararam de me rodear e montaram a minha volta um circulo — mais um que pensa ser "ele" — apontou para a mascara — mais um que pensa ser único e independente.

– todos riram de mim e ficaram rindo e rindo sem parar quanto tempo fiquei os ouvido ali sem reação? Céus como hei de saber se Morpheus odeia relógios? Começo a chorar, eu poderia lutar e fingir, mas não sentia vontade só queria me perder novamente naquela terra morta que tantas vezes eu vira sobre tantos disfarces.

– Parem! Eu sou o verdadeiro vocês não são nada alem de meu cérebro me pregando uma peça. Eu sei quem eu sou! Eu sou eu mesmo... Me deixem em paz... Em paz...

Como resposta um deles ergueu a voz alem da minha.

– Vocês sabem por que a criança chora ao nascer? O bebe chora, pois é um inocente em um baile de mascaras assustadoras porem nós humanos nos adaptamos a tudo e conforme viramos adolescentes e adultos criamos nossas mascaras, fazemos isso por medo, por proteção entre outros motivos que são vários e todos justos e legítimos, o problema é que usamos essa mascara por tanto tempo que esquecemos o que somos por baixo delas, mas a verdade nunca morre ou é perdida, ela fica lá... Esperando ser encontrada, porem quando nos acomodamos e desistimos de buscá-la...

A esse ponto eu já havia parado de chorar e estava com meus outros eus parado olhando e enquanto o discurso continuava todos aqueles rostos me era espelhos. Lembrei-me de quando tudo era difícil, quando eu não me olhava no espelho para não ver meu próprio olhar de desaprovação, ali seja lá onde eu estivesse não havia essa opção de não olhar.

– se não a buscarmos ela vem ate nós, a verdade é uma dama de modos requintados que quando esquecida e não procurada aparece — ele riu para mim — algo como "se Maomé não vai a montanha a montanha vai a Maomé" existem formas mais agradáveis, porem a mais pratica forma de ela aparecer é retirando a mascara.

Apos estas palavras todos tiraram as mascaras, se mostrando como realmente eram, haviam rostos horríveis demais para serem encarados, porem eu os aceitava, haviam também rostos que me traziam grande paz, outros me traziam força e outras virtudes ou pecados, com um sorriso entendei que também estava mascarado e com vontade a retirei de mim aliviado.

Eu não podia ver meu rosto, mas se visse perceberia que eu era igual a todos ali, pois assim como eles eram eu, eu também era eles, eles sorriram para mim e com um aceno de aprovação abriram a roda e pelo meio deles passou a estranha velha garota que ao chegar me estendeu a mão a segurei e me levantei, não mais chorava, na verdade sorria havia entendido finalmente, caminhamos em direção ao portal em alegre silencio e ao chegarmos aonde todos começou vire-me sorridente para ela.

– Finalmente entendi sua pergunta, e já tenho sua resposta

– eu sei disso, e você possui sua resposta, não era para mim, eu falei que nos veríamos quando entendesse — ela disse sorridente soltando minha mão, nos abraçamos em despedida ela ficou ali parada e eu sabia que continuaria ali para me dar apoio quando precisasse.

Caminhei pelo portal que agora não mais representava medo, apenas um silencioso alerta do que se escondia naquele lugar, lugar onde juro ter visto com o canto do olho uma flor brotar enquanto eu partia.

Acordei confuso, seu eu sonhei ou foi real não interessa, o que importa é o que eu entendi enquanto olhava um canto aleatório da parede azul céu.

A melhor parte do baile de mascaras é quando elas são tiradas