Contos não cantados
4 Noite de núpcias
Notas iniciais
“Bem, sei que não é glamuroso como Valaskjálf, mas é o que eu tenho”
A cabana de Loki não era mais que uma casota no meio do bosque, com dois cômodos separados por uma porta e uma cortina. Não era muito diferente da minha casa em Vanaheim, onde eu e minhas nove irmãs dividíamos um quarto, enquanto meu pai dormia com alguns dos nossos animais na sala. Asgard não havia me mimado tanto assim.
Eu não sabia o que fazer. Trouxera uma trouxa com alguns pertences mínimos, mas a maioria das minhas roupas me foi tirada pelo resto das servas de Frigga. Teria que costurar algumas novas agora. Ainda vestia meu vestido de noiva.
Devo ter ficado parada de pé por muito tempo, porque Loki rolou um barril do canto da cozinha até a mesa, e trouxe também dois chifres ocos.
“Acho que merecemos celebrar o nosso casamento propriamente” ele anunciou, enchendo os dois chifres com cerveja.
“Você nunca esteve mais certo”
Brindamos à nossa desgraça com um sköl! e viramos a bebida de uma só vez.
Repetimos o processo mais vezes do que eu gostaria de admitir, e não demorou muito para termos acabado com quase o barril inteiro.
A esta altura eu sentia tudo rodar, como se a própria Yggdrasil estivesse a dar voltas sobre si mesma. Loki por outro lado havia caído algumas vezes do banco enquanto se levantava para encher nossos copos, e acabara por decidir se deitar no chão ao meu lado, com as mãos na barriga.
A noite já era escura, e só os sons dos animais selvagens interrompiam nossos soluços embriagados e nossas falas sem sentido.
“Sabe, Sigyn” Loki disse com a voz arrastada, virando para mim e tocando de leve na minha mão “Está muito bonita essa noite”
Eu ri, brincando com meu copo.
“Só está a dizer isso porque está bêbado”
“Não, eu estive pensando nisso a noite toda, você está linda. A cerveja só me deu vontade de te dizer”
“Bem, eu agradeço. Você não está nada mau também”
“Ha, eu nunca estou” ele respondeu, satisfeito consigo mesmo, e gesticulando para o resto de seu corpo “Quem é que resistiria a tudo isso?”
Sua resposta arrogante me fez gargalhar, e Loki também se permitiu um risinho. Ele segurou a minha mão de verdade agora.
“Vá, me ajude a levantar, ou desça até aqui comigo. Quero ficar mais perto de você, querida”
Eu não tinha forças para levantá-lo, e se tentasse, provavelmente iria cair em cima da mesa, ou em cima dele, então decidi encurtar o caminho e deitei-me ao seu lado no chão, com menos elegância do que gostaria, mas isso só pareceu divertir mais o meu marido.
“Esta cerveja é das más. Eu estou vendo três de você” ele disse “Nada mau, sinceramente”
“Você está muito galante”
“Um homem não pode ser romântico na sua noite de núpcias?”
Ele acariciou o meu rosto, e nos beijamos de novo. Eu tinha que me acostumar com aquilo, mas toda vez que acontecia sentia uma onda de fogo tomar conta do meu corpo, como um incêndio florestal. Nós nos entrelaçamos cada vez mais, pernas e braços num nó que eu não sabia como havia surgido. Mas eu ainda hesitei quando Loki fez menção de desatar os nós de meu vestido, e me afastei.
“Eu nunca fiz nada disso” confessei “Minhas irmãs me contam o que os maridos gostam de fazer com elas, eu sei que dói”
“Não dói se fizer direito” Loki respondeu, brincando com uma mecha de meu cabelo “Eu te intimido, Sigyn? Mesmo já me conhecendo tão bem?”
Assenti. Num instante, ele mudou de aparência, se tornando uma mulher. Mantinha o cabelo, e o formato do rosto, mas as roupas agora lhe ficavam largas.
“Fica mais tranquila se eu estou assim?” perguntou-me em voz baixa “Posso estar contigo nesta forma, é igualmente divertido, eu te garanto”
A sua forma feminina era tão atraente e cativante quanto a masculina. Eu gaguejei, e disse que não.
Loki então se transformou em Thor, a enorme barriga do deus trovão se pondo entre nós. Ele deu dois tapas nela, e imitando a voz grave dele, perguntou-me:
“E que tal agora, hein? Garanto que dormirei em cinco minutos, é por isso que Sif é tão infeliz…”
Eu ri, e empurrei seu rosto barbudo. Ele voltou ao seu estado normal.
“Não é a sua forma, é só você” eu expliquei “Ainda não me acostumei com estar tão próxima de você”
“Oh, não se preocupe, todo o encanto vai acabar amanhã quando me vir de ressaca”
Rimos de novo, e voltei a me aproximar dele. Loki beijou meu rosto, e meu pescoço, e eu deixei. Não podia negar que aquilo era o que eu estava sonhando em fazer havia meses, e para minha felicidade, ele parecia igualmente desejoso.
“Eu não sei o que fazer” sussurrei, quando ele me deu trégua em seus carinhos.
“Deixa que eu te guio” ele sussurrou de volta “Mas primeiro, temos que conseguir chegar na cama”
“Devíamos ter bebido menos”
“Tarde demais”
No dia seguinte, saímos para caminhar ao crepúsculo. Ninguém perguntou por nós, então passamos a tarde preguiçosamente deitados na cama, esperando os efeitos da bebedeira da noite anterior passarem. Eventualmente tivemos fome, e Loki quis sair para caçar, mas me trouxe junto para que eu conhecesse o território.
Nunca tinha me aventurado por aqueles lados antes, e a variedade das árvores e plantas me deixou fascinada. Colhi várias e as prendi em minha saia, para separá-las em potinhos quando voltasse para casa. Eram excelentes ingredientes para poções.
Verdade seja dita, a natureza ao redor da casa de Loki – não, nossa casa – era muito menos mágica do que nos bosques do aesir. A vegetação era mais escura, seca, e retorcida, e os animais que passavam por nós, mais selvagens. Não me incomodava. Era como em Vanaheim.
Eventualmente, Loki apanhou alguns coelhos com sua lança, e os jogou no saco que trazia. Perto da árvore onde encontramos os coelhos, entretanto, estava um enorme ninho, caído no chão. Os ovos estavam milagrosamente intactos, mas tinham uma aparência esverdeada, com estranhas manchas e um odor fétido.
“São ovos de águias gigantes” eu disse.
“Ficaram muito tempo no Sol. Ou alguma doença os apanhou. Nada vai sair daí”
Eu assenti, e estava pronta para seguir em frente quando Loki deu uma gargalhada.
“O que foi?”
“Eu tive uma ideia” ele respondeu.
Nada de bom vinha depois desta frase.
Foi assim que acabamos a noite escondidos atrás de arbustos à porta do Valaskjálf, ovos podres em nossas mãos.
“Shh, olha, lá vem Týr” eu disse, cutucando Loki “Quer fazer as honras?”
Assim que o deus maneta saiu pelo portão, eu me abaixei, e Loki arremessou o ovo, que o atingiu nas costas. Týr se virou para procurar de onde tinha vindo o projétil, mas Loki fez uma ilusão para nos cobrir. Ele teve de tapar a minha boca para que eu não risse.
Não ousamos atirar ovos em Thor. Mesmo Loki tinha algum senso de autopreservação.
O próximo a passar por nós foi Hodr. Loki ergueu o braço, animado, mas eu o interrompi.
“Arremessar num cego é covardia”
“Ele é um aesir, ele aguenta!” respondeu meu marido, e jogou na mesma.
Depois de eu ter acertado um ovo nos cabelos de Sif, tivemos de sair correndo da deusa enfurecida, antes que ela chamasse o marido.
“Essa é a vingança que me prometeu?” perguntei, ofegante.
“Não” disse Loki “Isto foi só por diversão”
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