Contos ensanguentados - Uma aventura RPG
1 Capítulo 1 - Diário vermelho
Notas iniciais
Armar acampamento não é das partes mais divertidas de se viajar, mas antes de fazê-lo é preciso um reconhecimento do ambiente, se assegurar de sua tranquilidade e passividade. Como já sou um viajante experiente, todo o tipo de surpresas já me aconteceram nessa atividade aparentemente sossegada.
Mas o que encontrei desta vez foi sim uma novidade. Um livro grosso, de capa aveludada. Suas páginas pareciam secas, e tomei muito cuidado ao remover-lhe do chão. A capa dura estava coberta por uma fina camada de poeira. Sua borda continha respingos de sangue, então logo percebi do que se tratava.
Seria desrespeitoso? Bem ninguém estava ali para me julgar,
Abri com cuidado, as páginas estavam um pouco coladas devido a viscosidade do fluído. Percebi de imediato que algumas delas estavam faltando.
A princípio não tinha nada relevante, um diário de viagem que guardava os sonhos de um jovem aventureiro.
“Estou avançando por entre as cidades, o famoso festival chegará nesta estação. Mas não tenho pressa, já estou na estrada faz tempo, e de vez enquanto encontro uma oportunidade para usar meu florete. Por ouro, por hospitalidade, por uma cama, o importante é me manter ativo, para que minhas habilidades não acabem enferrujando até lá. ”
“Nessa última cidade não foi diferente. Não era grande, mas muito violenta, as estradas estavam lotadas de salteadores, o que tornou o acesso ainda menos convidativo, creio que esteja quebrando a economia da cidade. ”
“ Uma espécie de líder me procurou noite passada, soube do estrago que havia feito em uma das estradas, e me ofereceu um trabalho para que limpasse as outras vias. Um trabalho fácil, nada que eu já não tivesse feito gratuitamente. Que mal tem aceitar uns trocados? Na verdade a recompensa é bastante valiosa, 5 moedas de ouro para cada cabeça, para acabar com uns 60 cobolds, moleza.”
“Contrataram-me um parceiro, no começo não gostei da ideia de dividir o dinheiro, mas confesso que detesto trabalhar sozinho. Ele até que é um cara legal, um pouco tímido, mas uma boa companhia. ”
Virei-lhe a pagina e as folhas caíram ao chão. Tentei recuperar a ordem sem sucesso. A partir de aqui as páginas começaram a apresentar manchas de sangue seco que se misturavam com a tinta da caneta. As palavras foram desfiguradas, deixando mais difíceis de se decifrar.
“Já fazem dois dias que estou aqui, sem ver sombra de água ou alimento. Estou fugindo sem descanso, não durmo desde então. Estão sempre a minha volta, posso ouvir seu linguajar obsceno. Estão rindo de mim nesse momento. Rezo que venham acabar de vez com meu sofrimento”
“ No começo foi tranquilo, e por isso demoramos para descobrir que havia algo errado. Já havíamos exterminado uns 40 deles, só no primeiro acesso. Então nos deparamos com uma emboscada organizada. Havia incontáveis criaturas, cada vez aumentando. Fomos cercados. Pedras e mais pedras atravessavam nosso campo de visão, a maioria passava em falso, mas as que acertavam batiam violentas em nossos corpos. Alguns estavam armados de lanças e pequenas espadas de má qualidade. Avançavam em nossa direção...”
Frases perdidas e incoerentes começavam a aparecer. A caligrafia ficou grande e trêmula. Logo agora que já estava completamente envolvido com a história
“...meu parceiro estava muito assustado, vendo que não podíamos vencer. E então me ocorreu na hora, que devia ser esse mesmo o objetivo do contratante. ”
“ Morreríamos matando o máximo de cobolds possível, e então cairíamos, sem pagamento. ”
“Naquele instante só conseguia pensar que não deixaria barato para aquele homem perverso. Fúria me tomou os olhos, e um a um os pequenos corpinhos iam caindo ao chão. Pouco mais de cinco criaturinhas ainda resistiam, uma delas parecia comandar os outro. Pensei naquele instante que a batalha já estava ganha. ”
Ansioso recolhendo as páginas, deixei cair o cantil de água que por pouco não destruiu os relatos finais.
“Olhei para trás e meu parceiro sorria, aquela foi à ultima visão que tive dele em vida. E então uma lança atravessou-lhe perfeitamente ao meio da testa.”
Isso foi perturbador, pensei comigo.
“ Aquilo foi perturbador. Os cobolds se aproveitaram da minha distração e rasgaram fundo minha barriga. O gosto férrico me tocava os lábios e o sangue enchia meus olhos. Derrubei cada um dos pequenos e corri ao corpo de meu companheiro, sem poder ouvir suas últimas palavras. ”
“Eu já não tinha mais recursos, poções ou balsamos, e mesmo que tivesse duvido que poderiam ser úteis. ”
Corri a mão pelos cabelos continuando à leitura. Meus olhos não conseguiam mais desvencilhar das páginas.
“Estou ferido e exausto, arrastando seu corpo pesado à dois dias. Não sei o que farei com ele, nem mesmo onde está sua família. Mas não o deixarei aqui, apodrecendo em meio a esquecidão. ”
“Mais deles surgiram, e há ainda muito mais deles pela floresta. Escuto suas vozes finas e agitadas o tempo todo. Não querem me matar, estão se divertindo enquanto me assistem morrer”
Esta última página estava completamente mergulhada em vermelho.
Observei as redondezas. Se tinha alguma certeza era de que aquele local não era seguro. A noite já começava a cair, e era difícil definir o qual seria a opção menos perigosa. Adormecer ali mesmo ou seguir adiante no escuro? Nenhuma das alternativas me pareciam válidas.
Encontrei o diário caído perto de um arbusto, não havia nenhum corpo por perto, apenas rastros. Marcas de unhas cravadas no chão, eu deveria segui-las? De qualquer forma não há nada mais que possa ser feito.
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