Contos do desconhecido...
7 David
Notas iniciais
Estava tudo escuro. A minha cabeça parecia dar voltas. O que tinha acontecido? Não me conseguia lembrar. Sentia algo debaixo de mim que não estava habituado a sentir. Não parecia ser o chão a que estava acostumado… Espera aí! Se não estava deitado no chão, onde estaria?! Abri os olhos e apanhei o maior susto da minha vida! Em cima de mim, em vez de encontrar a cor do céu, encontrei branco. BRANCO! Por cima de mim! Um branco que ocupava o que estava em cima de mim! Dei um salto e acabei por apanhar outro susto — O ambiente era totalmente diferente do que estava habituado! Em vez do céu e do chão com a mesma cor, estava um monte de coisas que eu não conseguia descrever… E o lugar onde tinha estado deitado era um pouco mais alto que o resto, e também era, na sua maioria, branco. O que estava a acontecer?
Nunca tinha estado tão assustado, era muita coisa nova! A minha curiosidade estava entrar em parafuso! O que fazer?
Dei um olhar por onde me encontrava, havia ali muita coisa estranha de diferentes formatos… E foi então que me deparei com mais alguém. Era uma pessoa, e, estranhamente, usava as mesmas roupas que eu e tinha a minha altura. Era claramente do género masculino e parecia-me familiar… Pensei em cumprimentar:
-Olá! – Disse enquanto acenava.
Ele cumprimentou-me da mesma maneira. Decidi perguntar-lhe onde estávamos:
-Sabes por acaso onde estamos?
Ele perguntou exatamente a mesma coisa. Então também não devia saber onde estávamos. Que chatice! Pensava que ele me podia explicar tudo aquilo! Bem ao menos devia saber quem ele era:
-Como te chamas?
E outra vez ele disse exatamente o mesmo. Fiquei a olhar para ele, três vezes seguidas que tinha feito exatamente o que eu fazia… Seria apenas coincidência, ou ele estaria a imitar-me? Era melhor testá-lo…
Levantei o braço, e, como que automaticamente, ele também o levantou. Tinha razão. Estava-me a imitar.
-Porque me imitas?
Foi algo inútil, pois ele repetiu as mesmas coisas, mas havia algo de estranho…
-Eu só quero saber onde estou…
A outra pessoa disse a mesma coisa mas foi então que me dei conta de um facto. A outra pessoa não falava, ou melhor falava mas as suas palavras não se ouviam, apenas movia os lábios de maneira idêntica á minha. O que se estava a passar?
Aproximei-me e reparei que atrás dele estava um local exatamente igual ao meu. Depois de alguma inspeção deduzi que era como se fosse a mesma sala mas de uma perspetiva diferente, então ele na verdade era…
Estendi a mão e toquei nele. Senti algo diferente. Não conseguia descrever mas não era algo vivo… Ele também tinha estendido a mão. O natural era elas se tocarem, mas não. Parecia que havia alguma coisa a bloquear-nos o caminho…
-O que é isto? – Murmurei.
-Isso é um espelho.
Fiquei totalmente paralisado. Uma nova voz tinha aparecido e interrompido os meus pensamentos. Espelho? Então isto era um espelho? Virei-me para ver de quem era a voz e deparei-me com um homem todo desajeitado. Camisa branca e calças pretas e um cabelo todo desalinhado. Nunca tinha visto aquele homem. Fiquei parado a olhar para ele e depois apontei para a coisa que ele tinha chamado de espelho:
-Então para que serve este espelho?
-Este espelho reflete tudo o que está na sua direção, ficando no sentido oposto ao que ele está a refletir. – O dedo dele apontou para a pessoa – Aquele ali és tu, é assim que as pessoas te vêm.
Fiquei parado a olhar para a pessoa que, pelos vistos, era eu. Então era assim que as pessoas me viam… Mas como é que aquilo conseguia refletir as coisas? E afinal onde estava? Tinha tantas perguntas!
Como se tivesse lido os meus pensamentos, o homem propôs um convite:
-Aposto que deves ter muitas perguntas! Vem comigo.
Ele saiu da sala e eu acabei por o seguir, sem dizer mais nada. Quem afinal era aquele homem? E porque estava aqui?
Segui o homem misterioso por vários locais, cada um apresentado coisas que nunca vira: Havia algo que estava preso ao céu branco e dele saía uma luz diferente, uma luz amarela e fascinante! Havia, também, umas coisas que quando ele mexia se abriam para outros locais, as opções eram infinitas!
Estava totalmente maravilhado! Aquilo parecia um mundo totalmente diferente do que estava habituado! Mas aquela viagem pelo extraordinário acabou, pois chegou um momento onde ele parou e então se sentou. Mas não se sentou no chão e sim em algo que parecia muito mais convidativo e confortável… Quando ele estava sentado também pediu que me sentasse numa coisa igual, que se encontrava á frente dele. Assim fiz, e deparei-me com algo fofo e confortável debaixo de mim. Parecia até o local onde estava deitado antes de acordar. O homem clareou a voz e disse com um sorriso:
-Tu estás sentado num sofá. É mais confortável que o chão, certo?
Acenei afirmativamente com a cabeça, e fiquei a observar o local onde estava sentado. Então chamava-se sofá…
-Aposto que tens muitas perguntas, e provavelmente não te conseguirei responder metade, mas posso-te dizer que o local onde te encontras agora chama-se casa.
-Casa… — Repeti para mim mesmo. A palavra deixava-me com um sentimento que não conhecia mas que parecia ser algo acolhedor… Mas então, quer dizer que não estava no mundo de sempre?
Tal como antes, foi como se tivesse lido a minha mente pois respondeu-me logo de seguida:
-Não te preocupes, ainda estás no mundo onde vives. Isto é apenas um lugar no mundo ao qual tu já estás habituado…
-Então como vim aqui parar? – Tudo o que me lembrava era de ter sentido algo que me tinha deixado mal, não me lembrava de mais nada…
-Encontrei-te deitado no chão e então trouxe-te aqui, na esperança que melhorasses.
A minha mente estava confusa. Tinha ainda tantas perguntas… Mas não me vinha nenhuma á mente devido ao sobre carregamento da minha cabeça. Nem sabia o que fazer… Mais uma vez, (eram três agora) como se tivesse lido os meus pensamentos, o homem disse então:
-Mas todos estes acontecimentos devem-te ter deixado cansado… Porque não descansas um pouco? Podes ficar cá um tempo! O que achas da ideia?
Fiquei fascinado com a ideia! Eu já tinha decidido ser um Caminhante mas essa ideia já a tinha deixado para o lado. Ali tinha tudo o que queria! Tanta coisa para descobrir, seria ótimo poder revistar aquilo tudo!
Levantei-me com um salto e disse em voz alta:
—Eu aceito a proposta! Ah e já agora o meu nome é David, e o seu?
Ele olhou-me com um sorriso na cara:
-Podes me chamar de Judas.
Não sei porquê mas aquele nome deu-me arrepios, por falar nisso como é que eu sabia que aquela sensação se chamava arrepio? E também a pouco eu tinha dito que me tinha assustado… Como se conhecesse aqueles sentimentos? E porque ele disse que eu estava cansado? O que era afinal estar cansado? E afinal o que era aquela casa, que era como se já a tivesse visto em algum lugar? Tal como pensava, aquela casa e o seu habitante guardavam muitos segredos… E eu iria descobri-los!
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