Contos do Olimpo

1 Hefesto e Afrodite


Contos do Olimpo

Hefesto e Afrodite

~ Ω ~

Quando foi prometida por Hera para seu outro filho Afrodite ficara ultrajada. Ela não tinha nada haver com a briga entre filho e mãe, filho este que diziam ser horrível para fazer a rainha dos deuses joga-lo sem piedade do Monte Olimpo. Mas quando Zeus aceitou a sugestão da mulher e o pedido do filho, por ela ser constantemente assediada pelos deuses, não teve como negar. Hefesto nunca aparecera de fato no Olimpo, preferia a ilha onde crescera do que o palácio que seu pai, o poderoso Zeus mandara construir para ele. Da primeira vez que o vira quando abrira a cabeça de Zeus para que Atena saísse de lá pensará “Ele precisa de ajuda”, mas esse pensamento se dissipou ao ver Ares. Agora estava fadada a casar-se com o deus das forjas, mesmo preferindo o irmão deste. Não que pensava casar-se com Ares, ora ela era a deusa do amor e o amor era algo muito mais que uma atração física, muitas coisas envolviam o amor verdadeiro.

Quando finalmente viu seu marido pensou que ele deveria fazer a barba e tomar banho mais vezes, pois era óbvio o desleixo consigo mesmo. Porém, Afrodite viu a beleza por baixo do desleixo. Os olhos castanhos com reflexos dourados chamaram sua atenção, os músculos expostos pela toga; ombros largos e uma postura ereta. Afrodite notou os lábios cheios em meio a barba escura cheia e emaranhada, o cabelo grande cacheado e escuro, a pele bronzeada. O rosto tinha um nariz que nada combinava com o queixo forte ou o formato da face, mas não era tão bizarro como as ninfas fizeram parecer. Hefesto apenas precisava de cuidados especiais em beleza. Havia o fato de ser manco, uma ferida em sua perna causada pela queda. A deusa não aprovara a atitude de Hera na ocasião e não aprovava agora. Olhou para a rainha dos deuses que tinha um olhar de desaprovação para o filho, já Zeus sorria orgulhoso por seu filho ter finalmente aceitado seu pedido para entrar no Conselho dos deuses.

Afrodite achou que deveria sorrir, se o seu futuro marido a estivesse olhando. Mas os olhos do deus caíram sobre Atena assim que passou pela a porta do palácio.

Alguns boatos diziam que Hefesto tentara conquistar a deusa que jurara pelo o Estige ser virgem para sempre – pela sua longa vida eterna – assim que sairá da cabeça do pai, mas ele fora recusado.

Afrodite irritou-se por Hefesto não estar a olhando. Não fora ele que exigira a mãe casar-se com a deusa mais bela do Olimpo? Porque infernos estava olhando para a distraída Atena, que ocupava-se em conversar com sua irmã também casta? Duas loucas na opinião da deusa do amor, negar-se aos desejos e a felicidade, ao amor. Afrodite e Atena não tinham desavenças a não ser sobre essa escolha impensável de ser virgem para todo o sempre. Os deuses gregos estavam sempre quebrando algum juramento feito perante o Estige, Atena não seria a primeira – e nem a última – mas, a deusa da sabedoria era teimosa como o pai.

Quando Hefesto fitou a deusa com quem ia casar-se, sentiu um gosto amargo na boca, gosto de fuligem. Estava sentindo-se vingativo quando exigira se casar com a deusa mais linda do Olimpo, para jogar na cara da mãe que o jogara do Olimpo por não ter nascido segundo os padrões de beleza da rainha dos deuses. Olhando agora para Afrodite, estava considerando sair dali e voltar para sua ilha, mas se fizesse isso iriam rir a custa dele pela a eternidade. Ele não conhecia Afrodite, mas era a deusa mais perigosa do Olimpo para ele. Pois o amor não era algo que Hefesto conhecera ou sentira em todos esses séculos. O deus preferia suas criações, não sabia lidar com deuses ou mortais, as criações que criava eram mais fáceis de se compreender ou concertar quando esta precisava.

Naquele longo momento que observou-a enquanto estava entretido com seus pensamentos, lhe pareceu que Afrodite se agradou por ser olhada por tanto tempo por ele.

A festa que se seguiu após Zeus abençoar o casamento dos dois durou muito para o gosto do deus que gostava do retilintar do martelo no ferro e o silêncio da ilha, mas sua mulher divertia-se com tudo aquilo e dançava pelo o longo salão com Ares. Isso o irritou. Ele não podia dançar com sua perna e emburrado e amargo ficou sentado fitando os casais, até Atena rodopiava com Zeus.

Afrodite notou a amargura e irritação de seu marido, mas não sabia se era por não poder dançar com ela ou por não gostar de festas – tinha ainda a possibilidade de Hefesto estar com ciúmes de Ares. Por mais que quisesse continuar sua dança com o deus da guerra ela o deixou para sentar-se com Hefesto, o que não agradou o deus que jogava insinuações ao irmão. Querendo ou não Afrodite era casada agora com Hefesto, deveria honrar esse compromisso e tentar amar o deus que claramente não conhecia esse sentimento e nunca o teve.

Hefesto surpreendeu-se quando Afrodite delicadamente sentou-se ao seu lado e pegou uma uva do prato que compartilhavam. Eles mal trocaram duas frases inteiras além dos votos matrimoniais. Hefesto pensou em dizer algo, como por exemplo, um elogio; talvez elogiar o vestido dela que caia graciosa e perfeitamente no corpo da deusa ou o cabelo que caia em cachos platinados e ficavam dourados a medida que ia ao topo da cabeça. Mas para ele, elogiar algo em alguém significava que em algum momento aquilo não estava bonito, lindo ou perfeito. E tudo em Afrodite era perfeito aos seus olhos. Graças a Zeus Afrodite quebrara o silencio entre eles; uma voz melodiosa que fez os nervos de Hefesto se acalmarem e se agitarem nervosamente ao mesmo tempo.

– Divertindo-se marido? – a deusa perguntou antes de comer a uva que rodava habilidosa e graciosamente entre os dedos.

– A comida esta boa. – Hefesto soltou depois de pensar por um tempo e acrescentou mais baixo – A companhia melhor.

O deus foi recompensado com um sorriso deslumbrante de Afrodite, que apreciará o elogio e a voz do marido: poderosa e levemente rouca. Afrodite decidiu-se por continuar com perguntas despreocupadas e fáceis fitando Hefesto sem desviar o olhar, já o deus das forjas não conseguia fitar os olhos da deusa, preferia se concentrar em algum ponto do rosto que não mudasse tanto. Os olhos multicolor de Afrodite provocavam reações estranhas nele.

Na noite de núpcias Hefesto não a tocara ou consumara o ato, simplesmente dissera a ela: — Se não quiser, não faça-o. Dito isso, sairá para o lugar preferido dele, que Afrodite descobrira depois de um mês que era o lugar ao qual Hefesto corria para ficar escondido e longe dela; sua ilha. Afrodite só suportou até aí, decidira-se tomar uma atitude urgente, não gostava de não ser tocada pelo o marido, não era uma deusa casta – e não compreendia como alguém poderia ser. Quando Hefesto dignou-se a aparecer cedo para jantar com ela, ela tentou se aproximar. Com a breve conversa que tiveram durante o jantar, Afrodite percebera que o deus sentia-se intimidado por ela. Ficava tenso quando ela aproximava-se ou dirigia-se a ele. Quando Hefesto levantou-se para ir para o quarto, Afrodite disse descontraída.

– Dormira comigo hoje, nada de voltar para ilha alegando ter alguma encomenda para terminar. Tomará banho, e bem banhado! – ordenará.

Hefesto ficara chocado e pasmo com a ordenança da deusa, mas não contestara a ordem impregnada com magia que turvara seus pensamentos e só sairá quando estava esfregando-se já dentro da banheira. Resmungou, praguejou e relaxou na enorme banheira. Hefesto tocara sua perna ferida, um ferimento causado por sua própria mãe. De fato era grotesco demais, para que sua própria mãe o jogasse de sua casa. Esse pensamento o atormentava dia após dia. A nudez lhe era vergonhoso e estar com Afrodite era impensável. A deusa era perfeita, como ele poderia sonhar em estar com ela? Mas sonhava. E era um direito exclusivo seu agora, por estarem casados. Ligados pelos laços eternos de um casamento que de certa forma ela não tivera como recusar ou impor sua opinião. A culpa fez com que saísse da banheira, desajeitado equilibrando-se numa perna para vestir-se.

De fato, um banho era refrescante. Não se lembrava muito desse ato mortal rotineiro quando estava em sua forja, com o calor do fogo e suas criações, com o fogo crepitando ou o gelo fazendo chiar o metal batido e retorcido. Hefesto andava sem ajuda, mas lentamente. Nunca se olhara andando – não era possível isso – mas tinha para si que era algo engraçado e digno de pena para um deus. Irritado pelos pensamentos sobre si enquanto andava com certa dificuldade para o quarto, encaminhou seus pensamentos para a deusa que o esperava. Não entendia o por quê de Afrodite estar com ele se preferia seu irmão, o relacionamento deles era mais que conhecido. Porém, ela estava com ele e isso inflamou algo em seu peito. Detestava o irmão da mesma mãe em todos os aspectos, e ter algo que Ares queria, era como ouvir o zunido de uma espada bem feita cortando o ar numa dança mortal e graciosa.

Afrodite esperava Hefesto ansiosa para ver a reação dele quando se deitassem juntos. Nunca havia visto um deus tão medroso para esses assuntos quanto Hefesto que já tivera mortais e tentara ter uma deusa. Que não era ela. Rangendo os dentes parou de escovar os longos cabelos, pensar no boato que envolviam seu marido e a filha favorita de Zeus a deixava exaltada. Lembrava-se de Zeus também ficar, seus ciúmes de Atena com qualquer outro homem era evidente, quando recusou os diversos pedidos de Poseidon e Hermes, até Apolo pedira. Ares a detestava, por Zeus evidentemente preferir a filha guerreira e sábia. Era linda, os cabelos dourados como os raios de sol e o ouro, a pele branca como o mármore das construções do Olimpo, reluzente e perfeito, os olhos cinzentos como das tempestades; tão parecida fisicamente com a mãe mas o gênio do pai, porém mais controlado e mais sutil. Atena não era uma mulher de fácil compreensão, o que se passava na cabeça da deusa poderiam ser mil e uma coisas ao mesmo tempo de assuntos diversos. Atena era o pequeno fascínio de Afrodite, que estava tentada – e mais que disposta – a fazer a deusa provar do fruto que a própria proibiu-se.

Seus pensamentos voltaram para o marido quando este irrompeu pela a porta do quarto. Afrodite o fitou pelo o espelho; cabelos castanhos longos que chegavam quase ao meio das costas embaraçados e molhados, o corpo ainda tinha gotículas brilhosas de água do banho, o cheiro de ervas – da escolha da deusa – preencheu o local, a barba molhada. Ela teria que dar um jeito na barba, talvez diminuí-la. Quando os olhos do deus encontraram-se com os dela ele retesou, tensão nos seus ombros ficaram evidentes quando os músculos tencionaram, Afrodite poderia jurar pelas as ondas espumosas do oceano que as bochechas do deus estavam vermelhas.

– Bom. – ela avaliou virando-se teatralmente e prestigiando o marido com um sorriso satisfeito.

Hefesto não emitiu um único som, seu olhar viajando da cama para Afrodite, que se deliciou ternamente com isso. Hefesto seria um desafio, ela vira um lampejo da fúria em seus olhos, da necessidade ardente e pulgente. E queria que isso fosse dela. Mas queria fazer disso tudo mais que uma noite de loucura selvagem – o que aconteceria com Ares – queria algo mais profundo, queria quebrar as paredes que Hefesto erguera em volta de si mesmo, graças a rejeição da mãe. Queria sentir o calor que o deus das forjas poderia emanar e propiciar a ela. Seria sutil, calma, terna e arrebatadora. Os melhores romances eram assim.

Com um gesto da mão convidou-o a sentar-se na cama, como Hefesto não moveu-se fechando a cara em pensamentos que pelos os lampejos de fúria e ressentimento não eram agradáveis, Afrodite pegou a mão do deus, calma como a água e terna como o fogo de uma lareira esquentando e acomodando os mortais. Hefesto deixou-se ser levado pela deusa, Afrodite não irritou-se ou ficara entediada com a dificuldade e lentidão do marido. Na verdade estava aproveitando e apreciando, novamente, o calor das mãos enormes e calejadas do deus. Mãos que faziam armas mortais, e esculturas delicadas de metal, algo tão bruto ele transformava em beleza. Fugiu de seus pensamentos ao imaginar aqueles mesmos dedos a tocando, e perguntando-se se seria de um modo delicado ou brutal.

Quando acomodou ele na cama, sentou-se ao seu lado. Para então começar a por seu plano em ação.

– Vamos começar com uma conversa. – ela disse e ficou satisfeita de ver a descrença nos olhos castanhos dourados do deus – Bom, sabemos que está sendo difícil para você, diante de alguns acontecimentos... traumáticos.

Como Hefesto apenas ouvia, ela prosseguiu, escolhendo as palavras e os tons certos para atingir sua meta essa noite.

– Não vamos apressar. Quero que estejamos certos, confiantes e prontos. Há muita coisa além do ato.

A frase de impacto ficou ressonando pela mente de Hefesto como o som reverberante do metal quando ele chocava sua superfície com seu martelo, fechou as mãos em punhos sobre as cochas desnudas.

– Assim fica parecendo que sou um monstro... – manhosa Afrodite falou querendo que Hefesto se pronuncia-se.

E sua espera não mostrou-se em vão. Logo ouviu aquela voz poderosa e rouca.

– Não é bem assim. Não quis ofendê-la. – e lá estava o senso de honra do deus, o cortejo que Afrodite supunha que ele tivesse, mesmo vivendo isolado e com ciclopes.

– É bom ouvir isso. Continuemos então.

Hefesto seguiu a deusa com os olhos quando a mesma subiu na cama, o delicado vestido branco de seda deslizando por seus membros. Ele sentiu o calor do corpo da deusa atrás de si, e quando os dedos delicados dela o tocaram, ele se afastou inconscientemente, indo para a beirada da cama e quase tombando ridiculamente ao chão. Pensando que encontraria os olhos da deusa transbordando pena e escárnio, não a encarou e com o rosto em chamas sentou-se novamente na cama, com uma distância da deusa que sem duvidas depois dessa demonstração, não o tocaria mais, assim pensara. Mas ouviu o riso delicado de Afrodite e a olhou, a mesma olhava fixamente para ele com os olhos meio fechados pelo o sorriso em seu rosto.

– Embora a timidez seja doce e linda, precisaremos acabar com ela gradativamente entre nós. – ela explicou apontando o dedo indicador para ele e o chamando com o mesmo. – Nós iremos apenas estabelecer um contato físico e... – com a voz da deusa o acalmando ele subiu mais na cama tirando seus pés do chão e posicionando a perna ferida para que não o incomodasse e de um jeito que Afrodite não a visse – uma comunicação mais ativa.

O risinho dela ao pé de seu ouvido fez arrepios correrem sobre sua pele e ele ajeitou-se. Afrodite começou uma massagem nos ombros tensos dele.

– Diga-me como é sua ilha? – pediu, querendo aproximar-se.

E ele falou. Falou das enormes árvores que compunham a floresta, dos rochedos que davam uma bela visão do mar e de um que dava para uma baia em um local escondido no meio da mata, das praias brancas reluzindo ao sol e as ondas quebrando nelas. Falou, principalmente do vulcão, sua forja. Disse como agradava o ambiente abafado e caloroso e da acústica do lugar quando o martelo caia com força sobre uma placa de peito torta ou sobre um ferro em brasas, o moldando. Afrodite viu quando a cabeça do deus pendeu para frente relaxado, e ouviu o gemido rouco de satisfação que ele dera.

– Me levaria para conhecê-la? – Afrodite parou sentando-se ao lado dele e o observando cuidadosamente quando o olhar de Hefesto caiu nevoado sobre o dela – Sua ilha?

– Claro.

Afrodite notou a reluta ao concordar em leva-la para um passeio pela sua casa em séculos. Os únicos deuses que iam até lá pessoalmente, eram Poseidon, Zeus, Atena e Hermes. Naquela noite, deitado com Afrodite na mesma cama, pensou em como fazer o passeio da melhor forma possível para agrada-la.

~ Ω ~

A ilha era bela. Cheia de plantas e mosquitos. Mas bela. Afrodite não era tão chegada a natureza selvagem ao qual Artemis parecia apreciar tanto, mas gostava da natureza bem cultivada das ninfas no Olimpo. Hefesto a levou para um passeio pela praia onde as ondas quebravam suavemente na areia, depois a levou por uma trilha onde árvores cheias de flores ornamentava a trilha até a baia escondida a qual Hefesto mencionara na noite anterior. De fato o local era magnífico e romântico.

As rochas formavam uma meia lua onde um lago cristalino estava. Havia uma fina ilha de terra que separava o lago do mar, a imensidão azul que Poseidon comandava. Hefesto sorriu satisfeito ao ver o sorriso de Afrodite. Com a ajuda de um cajado ele a guiou pela a descida até a curta praia de rocha que havia antes de entrar no lago. Quando chegaram ele ficou feliz de ouvir o riso da deusa.

– Deslumbrante! – exclamou agachando-se e tocando a água com os dedos, fazendo pequenas ondas e peixinhos se esconderem, correndo para o fundo do lago – que não era tão fundo.

Olhando radiante para Hefesto e depois para o lago decidiu cometer uma pequena loucura. Um novo passo. Não aguentava aquela barba longa e emaranhada que estava no rosto do deus, não dava para vê-lo com aquilo. Assim, estendeu a mão para o deus que relutantemente a aceitou, Afrodite o fez sentar-se numa elevação da rocha e ficou em pé olhando-o nos olhos. A deusa sabia que com as palavras certas, ditas corretamente Hefesto não negaria um pedido.

– Eu gostaria muito de fazer uma coisa. – ela sussurrou com um sorriso sugestivo que fez seu marido travar no lugar, não havia formas dele correr e mesmo que houvesse ele não iria muito longe.

– E, o que, seria? – Hefesto perguntou expulsando sua imaginação que insistia em dar-lhe palpites nada inocentes e verdadeiros. Por Zeus! Nunca que Afrodite sugeriria que ambos nadassem juntos, sem vestes. Ele estava se iludindo como já se iludira que sua mãe se arrependesse e pedisse desculpas sinceras pelo que fez com ele.

– Gostaria de tirar essa barba.

Hefesto ficaria menos surpreso se a deusa tivesse tirado uma adaga e o apunhalado. Aquela simples declaração, foi tão absurda para ele que teve que rir. Oras, provavelmente Afrodite estava brincando com ele. Essa era a única possibilidade para essa declaração absurda. Ela o queria testar até onde ele aguentaria, afinal tudo em Afrodite, desde os gestos delicados, ás curvas foram esculpidos para provocar os desejos mais carnais nos homens e deuses.

– Qual a graça? – perguntou a deusa achando lindo a risada descontraída do deus e divertindo-se ao mesmo tempo. Era inevitável não provocar.

– Esse pedido.

– Não foi um pedido. – declarou a deusa divertida quando o olhar risonho de Hefesto encontrou seus olhos e depois desviaram para seu reflexo na água; pensativo.

Pensou em recusar, não deixar-se levar muito pelos os encantos de Afrodite ou era certo que se arrependeria. Mas perguntava-se porque não, ela estava aberta para ele e claramente tentava aproximar-se, ela mesma declarara que havia muito mais que apenas o ato. Poderia dar-se esse luxo, poderia pensar e acabar acreditando que Afrodite o amaria, ora ela não era a deusa do amor? E ele desejava isso. Amar e ser amado. Não era isso que os mortais procuravam em suas curtas e insignificantes vidas? E o que os deuses procuravam?

Hefesto não era propriamente um deus. Embora os poderes, ser imortal e divino, não considerava-se um deus como os outros. Era mais um qualquer, um deus que não chegaria aos pés do irmão, amado pela a mãe que o rejeitara. Desejado pela a mesma mulher que estava ao seu lado. Mas desejo e amor são diferentes, não fora o que Afrodite dissera? Então, porque não deixar que acontecesse? Porquê não conquistar o amor de Afrodite?

– Esta bem. – ele falara suavemente deixando suas portas de ferro abrir-se para ela, mesmo correndo o risco de ser machucado por ela. Porém, agora ele tinha consciência disso e estava escolhendo.

Vendo essa mudança no marido, o coração da deusa do amor deu um salto em seu peito. Ele estava disposto a viver isso, tão mais intensamente que a própria deusa. Um sorriso terno e amável abriu-se nos lábios rosados da deusa ao encarar o marido.

~ Ω ~

O primeiro beijo não se esquece.

Um ano entre carinhos despreocupados, conversas longas e presentes cheios de significado. Afrodite sabia que Hefesto era dela, quando ele chegara em casa com uma bola de metal retorcido e um olhar apaixonado junto com um sorriso bobo. Ele escondera o presente até depois do banho e da janta onde comeu avidamente. Afrodite já brigara por ele não comer quando estava na forja, mas ele sempre dissera que ficava concentrado demais para lembrar-se de algo tão mortal. E ela deixava, afinal o corpo do marido não sofria por essas horas ou dias sem nécta e ambrosia.

Quando já estavam no quarto com Afrodite deleitando-se penteando os cabelos castanho-escuro cacheados do marido, foi que ele revelou o presente. Afrodite sentou-se na cama tentando desvendar o que aquela criação fazia. Era assim que funcionava os presentes que ela recebia dele. Ela precisava descobrir como fazê-lo funcionar; algum botão, alguma sequência de giros. Era divertido e frustrante, e Hefesto divertia-se observando ela abrir, ás vezes ele dava dicas quando Afrodite pedia desesperada. Uma vez ficara tão frustrada quando não conseguira abrir um que dissera amargurada e triste:

– Atena resolveria isso com um pensamento!

E jogara o objeto para o lado. O ressentimento pelo o marido ter algum dia desejado a outra deusa, fervia. Era uma ferida no orgulho. Hefesto paciente e com essa compreensão da esposa pegou o presente nas mãos revirando ele habilidosamente, sabia como destrava-lo, mas gostava de ver Afrodite esforçando-se. Pegara as mãos delicadas da deusa e colocara o objeto quadrado do tamanho de uma adaga de dois palmos.

– E é por isso que não teria a menor graça, querida.

Falara suavemente e gentil, com a voz poderosa e rouca que fez a deusa arrepiar-se. Um amor aflorou ao ouvir isso de Hefesto, e Afrodite dedicara-se mais até que depois de dois giros numa das pontas, o quadrado metálico se retorcera em clic’s suaves até se transformar numa mini replica da deusa, num vestido metal. As feições ainda eram calorosas no metal frio. Era lindo.

Voltando ao objeto circular que ela girava nas mãos, tentou imaginar o que seria e como faria ele ganhar vida. Olhou de relance para Hefesto que tinha um sorriso brincando nos lábios e algo em seus olhos com belos reflexos dourados a alertava de que ele estava tramando algo. Isso era incomum. A barba feita o deixava mais bonito e volta e meia Hefesto passava a mão por ela.

– Eu gostei da barba. – ele disse quando a deusa a fez na beira do lago na baia – Não vou mais me preocupar com ela pegando fogo acidentalmente.

Eles riram juntos depois disso.

Afrodite franziu a testa e levantou as sobrancelhas, confusa. O sorriso de Hefesto aumentou.

– Estranho, é completamente lisa fora algumas partes mais fundas ou volumosas.

– Verdade.

Afrodite o olhou e sorriu ao ver que o rosto dele estava vermelho segurando o riso. Ela pegou o travesseiro de penas e bateu nele.

– Diga-me! – exigiu rindo.

Hefesto parou de rir. E olhou para as mãos que seguravam a coxa. Não sabia bem como dizer aquilo para ela, confessar. Mas fizera aquilo pensando nisso, como um teste. Uma confirmação de que ele poderia deixa-la entrar completamente. De que ela o amava agora, pelo menos o suficiente.

– Talvez não goste. – o deus respirou fundo observando a expressão confusa no rosto belo de Afrodite, os olhos mudando de cor.

Nunca soube por quê eles não permaneciam com uma única cor. Afrodite dissera que os olhos dela teriam a cor que ele apreciasse mais, mas sempre estavam mudando suavemente.

– Conte-me. – a deusa pediu pegando as mãos do deus e entrelaçando seus dedos. As mãos dele pareciam conter um calor próprio.

– Amor. – sussurrou-lhe, como se fosse um segredo. Diante da confusão de Afrodite ele especificou colocando o objeto nas mãos da deusa e dizendo – Ganha vida, com amor.

Afrodite compreendeu, encarando o marido. Era um presente mais que especial. Transformava-se apenas com a magia especifica dela, com o amor que ela sentia por ele. Era de fato mais que apenas uma criação, era uma obra prima. Hefesto ainda tinha duvidas de que algum dia alguém poderia ama-lo. Afrodite não o culpava ou ficara chateada com isso. O amor era assim. Ele era cheio de dúvidas, provações.

Sem sorrir, envolveu a criação com as mãos e pensou em tudo o que adorava em Hefesto. Seus olhos castanhos dourados, sua voz poderosa e rouca, suas mãos quentes, sua timidez, sua risada alta, seu olhar gentil e devoto, sua fala suave. Abriu os olhos quando ouviu um clic e o metal começou a se desdobrar e uma pomba, seu animal simbólico, estava em sua mão, encolhida. Os olhos cristais da pomba que refletia todas as cores quando a luz a tocava olhou para a deusa e depois para Hefesto, abriu as asas que mesmo de metal pareciam macias e fofas, e ganhou impulso para voar pelo o quarto.

Emocionada, Afrodite olhou para Hefesto que sorria para ela. A deusa retribuiu com um sorriso atrevido e malicioso.

– Se precisava de uma confirmação poderia ter me pedido. – falou chegando mais perto dele.

– Tem razão...- disse sem graça abaixando a cabeça e deixando que os cabelos cobrissem sua face envergonhada.

Sabendo que não aguentaria continuar com aquilo, Afrodite acariciou a face de Hefesto, tirando os cabelos para poder ver o rosto do marido. Assim que ele estava com o olhar concentrado nela, ela o deixou perder-se em seus olhos. Ainda não sabia qual cor Hefesto via quando olhava para eles e esperava que não fossem tempestuosos, mas naquele instante estava mandando Atena, Ares, Hera e qualquer outro deus para o hades. Queria beija-lo, queria toca-lo e ser tocada. Seu corpo vibrava por caricias “pecaminosas”. Queria descobrir se Hefesto quebraria o quarto, se rasgaria sua roupa, se iria grunhir como um animal.

Quando aproximou seu rosto do de Hefesto, não o sentiu retesar ou fugir. Sentiu o halito quente dele, sua respiração misturando-se com a dela. Sentiu seus pensamentos turvados, e seu corpo ser levado pelo o desejo sentimental e avassalador até selar seus lábios com o do deus. Com o pequeno controle que tinha dos seus atos, guiou o beijo de uma forma lenta e quente, abrindo os lábios cheios de Hefesto. Sentiu quando as mãos dele agarraram sua cintura puxando seu corpo mais para perto dele, com cuidado Afrodite se posicionou de uma maneira que não machucasse a coxa ferida do deus. Seria um beijo que faria com que ele nunca mais quisesse beijar outra mulher, deusa ou mortal, se não ela.

Gostou de ouvir o gemido rouco dele quando sua língua tocou a dela.

~ Ω ~

Enquanto trabalhava, sentia os olhos de sua esposa fixos nele. Por algum motivo ela decidira ficar com ele em sua forja durante todo o dia enquanto ele moldava os raios de Zeus. Haste de metal em formato zigue-zague onde os poderosos raios ficavam acoplados antes de serem libertados contra os inimigos do pai.

Afrodite estava deitada em um colchão em cima de uma pedra num canto da forja, com uma mesa de metal esculpida por Hefesto com jarra d’água e uma bandeja de frutas frescas em cima. Da onde estava podia ver perfeitamente Hefesto trabalhando, levantando e descendo o martelo. Ouvira uma vez que Hefesto tinha o rosto deformado, era careca e gordo. Observando os músculos perfeitos das costas do deus flexionarem-se para mais um impacto entre o martelo e o metal quente, não acreditava em como tinha acreditado e temido o que diziam. As ninfas poderiam ser maldosas.

Os cabelos soltos grudavam nas costas, ombros e rosto de Hefesto; o suor dava um brilho a pele morena quando a luz tênue do fogo dentro da forja as tocava, despertando a imaginação da deusa. De súbito, assim que Hefesto colocara a haste de metal moldada em formato de raio para esfriar, Afrodite levantou-se e com passos decididos foi até o marido.

Hefesto ficou surpreso ao sentir os braços delicados da deusa rodearem sua cintura. Um sorriso repuxou os cantos de seus lábios quando virou-se para ela. A deusa tirou os cabelos que grudavam na pele dele enquanto as mãos do deus esfregavam a lateral de seu corpo, seguindo suas curvas. Deixando um rastro de fogo. O fitando intensamente, enquanto o corpo vibrava disse numa voz rouca: — Você não é feio. As ninfas devem te detestar.

Um sorriso abriu-se no rosto concentrado de Hefesto: — E me detestam, por ás vezes queimar suas árvores.

– Explicado!

Hefesto puxou Afrodite mais para si tomando os lábios macios da deusa num beijo quente com um toque de urgência. Afrodite já não aguentava sua imaginação e reprimir seus desejos. Hefesto queria provar dela, levá-la aonde nenhum deus ou mortal a levaria, queria ama-la e possuí-la e se podia fazer os dois, porque não?

Inspirado ergueu a deusa nos braços e a levou até a mesa onde ele desenhava e planejava suas criações, jogando tudo em cima dela no chão, o percurso não foi longo e ele conseguiu mesmo com sua perna. Após ajeitar a deusa, que assim que fora erguida rodeara a cintura de Hefesto com suas pernas, parou o beijo. Sem se afastar dela, beijou sua testa, carinhosamente.

Afrodite aproveitara o tempo para acariciar cada músculo exposto de Hefesto que ela alcançava com as mãos. O cheiro de suor e ferro encheram as narinas dela, que naquele momento não sabia dizer o que era melhor do que aquele cheiro que emanava da pele febril e suada de seu marido. Quando Hefesto roçou a barba em seu pescoço, os lábios entreabertos da deusa tremeram e o corpo dela esquentara mais que a forja.

Hefesto pegara um punhado do cabelo loiro da deusa enquanto beijava o pescoço delicado. Seu corpo parecia o centro do fogo, pulsava e tremia como se a casca não aguentasse a temperatura alta que vinha de dentro. Como uma de suas mãos se ocupava com os cabelos de Afrodite a outra segurava a perna da deusa, que estava firmemente segura em sua cintura. Ele sentia-se mais que pronto para ter Afrodite. Seus pensamentos coerentes voltaram quando sua coxa ferida bateu contra a mesa quando tentou colar mais os corpos de ambos. Grunhindo, separou seus lábios dos de Afrodite.

– Maldição. – exclamou num misto de fúria mesclado com o prazer que estava imerso.

– Está bem? – Afrodite perguntou analisando-o, a respiração descompassada, o corpo fervendo e tremendo, seus pensamentos a mil.

Curiosa e preocupada que algo tenha acontecido e que talvez tenham que parar o que mal começara, ela tirou as pernas da cintura de Hefesto dando espaço para ele ajeitar a perna e recuperar-se. Nesse momento odiava Hera por ter causado aquele ferimento. Olhou em volta buscando algo, mas para onde olhava havia mais maquinas ou criações de Hefesto, mas um canto grande o suficiente para caber os dois deitados estava vazio e chamara sua atenção. Descendo da mesa olhou para Hefesto que agarrava a perna.

– Deixe-me ver. – Afrodite abaixou-se para olhar mais de perto, porém foi repelida por Hefesto.

– Não!

Suspirando, tirou as mãos a força do deus do meio: — Vou vê-lo nu, não tem por quê me esconder isso. Afrodite gostaria de dizer que tinha algo grotesco ali, mas não havia. Apenas uma mancha preta do tamanho da palma dela, onde com toda a certeza ele deveria ter atingido. Acariciou delicada e cuidadosamente o local.

– Não é tão ruim como você pensa. – declarou sorrindo e segurando o rosto do deus entre as mãos, capturando os lábios carnudos de Hefesto num beijo doce. – Vamos.

Ela o guiou até o espaço onde vira, agitou a mão impaciente e uma cama com colchão coberto por um lençol vermelho de cetim, com várias almofadas apareceu. Primeiro Hefesto se acomodou no meio da cama, puxando Afrodite com ele, ela subiu cuidadosamente no colo do deus para não machucá-lo. E os dois retomaram da onde pararam. Beijos ardentes e caricias fizeram o vestido que Afrodite usava e o avental de couro de Hefesto os incomodarem.

– Tire isso! – exclamou Afrodite querendo passar as mãos pelo o peito cabeludo do marido.

Saindo de cima do deus para que ele saísse da cama e tirasse suas peças de roupa, se colocou no chão também. Quando Hefesto arrancou violentamente o avental de couro do corpo, Afrodite quase chorou de alegria ao fazer seus dedos deslizarem pelo peito, abdome e barriga de Hefesto. Fios negros cobriam essa região e ela podia os enrolar no dedo. Estremecendo, disse divertida, enquanto fazia o vestido deslizar do seu corpo para o chão.

– Falta uma peça.

~ Ω ~

Quando Hélio entrou em sua forja para falar com ele, soube do que se tratava. O olhar vingativo e o sorriso satisfeito do deus do sol não era algo bom. Sendo este inimigo de seu irmão. E quando ele o contou, a ira e a decepção tomaram conta dele, assim como a vingança. Afrodite não o tocara mais, nem o beijara depois que o filho deles nasceu; Eros. Saía com mais frequência e voltava tarde. Estava sempre tendo um caso com algum mortal e não olhava mais para ele como naquele primeiro ano em que casaram. Então quando soube que Afrodite e Ares estavam se encontrando embaixo do teto que dividiam, não pode necessariamente ficar surpreso, pois mesmo que negasse sabia que isso aconteceria.

Por isso tramou o que tramou.

Criara uma rede mágica e a instalara em sua própria cama, para quando o casal se encontrasse a armadilha fosse acionada e a rede pegasse os dois, e uma vez pegos nunca mais sairiam dela, se não com sua ajuda. E naquele dia esperara, e parte dele queria que a armadilha não acionasse. Mas o destino, as parcas, não estavam ao seu favor. A armadilha acionou. Os deuses chegaram, para ver aquela cena cômica e trágica. Os risos deles soavam meio distantes enquanto Hefesto encarava a mulher que entregara seu coração. A voz do irmão fez-se ouvir acima das gargalhadas dos olimpianos.

– Maldito manco! Como ousas? Estrangularei você com suas tripas!

– Engraçado essa ameaça para um homem nu. – declarou o deus das forjas sem qualquer emoção, ignorando o olhar suplicante de Afrodite.

Sobre essa declaração os deuses riram mais. Até sua mãe sorria. Virou-se para sair do quarto pretendendo ir para o outro cômodo, ao passar pela mãe perguntou friamente:

– Satisfeita?

– Ora, você bem sabia que isso aconteceria meu filho. – ela disse amavelmente antes de sair do local.

Era verdade, ele sabia que poderia acabar assim. Mas não imaginava como seria, pois acreditou – iludira-se – que Afrodite o amava mesmo. Se o amor era assim...

– Irmão! – exclamara Hermes risonho – Não os deixara assim, não é verdade?

– E porque não?

– Oras, meu sobrinho a piada perderá a graça! – dissera Poseidon rindo e fitando Afrodite.

Na verdade Hefesto pensava em deixa-los assim por meio século, mas vendo como os deuses olhavam para Afrodite e como a própria deusa estava encabulada e encolhida tentando cobrir-se, achou melhor libertá-los. Assim que a rede caiu, Afrodite cobriu-se e Ares agarrou o irmão.

– O matarei verme! – ameaçara – O deixarei irreconhecível até mesmo para si próprio, pagaras em dobro essa humilhação.

– Duvido muito, meu irmão.

Bufando Ares juntou suas coisas e saiu de lá com as vaias de Hermes e Apolo, que o seguiram. Zeus e Poseidon saíram em seguida.

Com a casa no silencio ouviu silenciosamente as lagrimas de Afrodite as suas costas e amassando o metal que uma vez fora a escultura dela, saíra. Em sua forja, extravasara a raiva e a dor que sentia. Jogando tudo o que via pela frente contra a parede e o fogo feroz que rugia conforme sua ira aumentava. As lagrimas vieram de repente molhando sua face e tornando difícil enxergar para onde arremessava os objetos. Até que por fim parou.

– Meu irmão.

Hefesto reconheceu a voz, mas não virou-se.

– Atena.

– Os mortais, tendem a conversar com alguém próximo quando numa situação dessas. – aconselhou suavemente.

– Não há o que conversar. Há apenas a compreensão de que o amor é cruel. Fui tolo o suficiente por deixar-me iludir e acreditar que aquela mulher me amaria algum dia. Logo eu! – respirou fundo, sentindo o peito comprimir-se – Alguém como eu... Do que adianta lamentar agora? Esta feito.

Passou as mãos pelos os cabelos sentindo a cabeça doer, o peito doer, a perna doer.

– Eu sabia que aconteceria isso. – o deus disse num sussurro, mas Atena ouviu.

– Se sabia, porque deixou-se acreditar?

– Porque era isso que eu queria, queria acreditar que ela me amava. Que tolo fui!

– O que farás agora?

– Não sei...

Antes de ir embora, Atena olhou carinhosa para o irmão. E decidiu deixar mais um conselho: — Passo muito tempo observando os mortais, mas eles ás vezes são mais divinos que nós. Pergunte-se se a ama e decida o que fazer.

E fora isso que Hefesto fez. Mas mentiria se dissesse que não amava Afrodite, pois amava. Sofria por isso. Mas o que fazer depois de tudo? Como reagir? Como concertar? Ele bem sabia que era um risco isso acontecer quando deixou que ela roubasse o órgão primordial dos mortais que os fazia viver; seu coração. Aceitara as consequências. E sentado no chão de sua forja parcialmente destruída, decidira.

Quando chegou em casa, achou Afrodite vestida e sentada na cama. O olhar de raiva que ela lançou para ele fez seu coração se apertar, mais não demonstrou isso. Não demonstrou arrependimento, pois não estava arrependido.

– Não tinha que ter feito aquilo! – gritara.

– Não?

– Claro que não! Expôs-me ao ridículo, a nós dois.

– Não sabia que se preocupava com isso. – ainda usando um tom gélido e sem emoção Hefesto a fez o perceber – Você mesma expôs-se ao ridículo, eu apenas o tornei de conhecimento de todos. Se é que todos já não sabiam.

– Não tinha o direito...

– De quê? – explodiu olhando com toda a fúria e tristeza queimando seu olhar – De ter interrompido seu caso de amor ardente enquanto está casada comigo, com meu próprio irmão? É esse o amor ao qual defende? – ela abaixou o olhar – Que lamentável. Eu sei que sou grotesco, uma escoria rejeitado e digno de pena. Mas não acho que merecia isso... – sussurrou como se estivesse falando consigo.

Afrodite o olhou quase arrependida: — Hefesto...

Ele não a deixou continuar, entregou a figura deformada que outrora fora uma replica de Afrodite e sussurrou-lhe em seu ouvido: — Tão belo, e tão horrível.

Antes de passar pela a porta do quarto ouviu a voz de Afrodite as suas costas perguntar: — O que fará agora?

– Não se preocupe querida, teremos um longo tempo juntos para decidir.

Pois deixa-la, ele não iria. Poderia ser por vingança, por amor, por gostar de sofrer. Mas era isso, não? Amor e ódio. A vingança era apenas um combustível para sua escolha de não deixa-la livre para o irmão, pois tinha convicção de que alguma vez Afrodite o amou, em algum momento. E mesmo que ela o odiasse, o detestasse, o repudiasse ele ainda não a deixaria. Não poderia deixa-la ir. Se isso não fosse uma forma de amor, que se dane. Tinham a eternidade juntos.

Notas finais
Comentem falando como ficou esse capítulo. Não há previsão para o próximo, mas adianto que será sobre Hades e Perséfone.Eu precisava postar logo se não iria enlouquecer, espero que tenham gostado e aproveitado. Obrigada por lerem e comentarem. Até a próxima.