Contos do Makai
12 Isso ou aquilo?

A noite em Gândara tinha um silêncio particular.
Não era um silêncio absoluto — uma fortaleza daquele tamanho jamais dormia por completo. Ainda havia guardas patrulhando as muralhas, mensageiros cruzando corredores e oficiais encerrando reuniões que pareciam nunca ter fim.
Mas, comparado ao caos do dia, aquele breve intervalo bastava para convencer qualquer um de que finalmente haveria um pouco de paz.
Kurama caminhava pelos corredores com passos tranquilos, aproveitando os poucos minutos de silêncio.
Os últimos meses foram intensos.
Quando afirmara diante de Yomi e dos conselheiros que conhecia seis guerreiros capazes de fortalecer o exército de Gândara, poucos acreditaram nele.
Ninguém sequer sabia de quem Kurama estava falando.
Alguns imaginaram que fossem veteranos escondidos em algum canto do Makai. Outros acreditaram que ele simplesmente superestimava desconhecidos. Ou até mesmo que ele estivesse inventando aquilo.
Kurama apenas pedira tempo.
Permitiu-se um pequeno sorriso.
O tempo provou que estava certo. O grupo evoluiu muito além das expectativas. Até Genkai admitiu, com sua sinceridade habitual, que aqueles seis davam menos trabalho para treinar do que Yusuke jamais dera. Os resultados convenceram até os mais céticos.
Yomi acabara nomeando cada um deles comandante de um dos exércitos de Gândara — uma decisão que ainda provocava olhares tortos entre alguns oficiais mais antigos, mas que já não podia ser contestada.
Restava apenas um pequeno detalhe.
Treinar seis guerreiros talentosos era relativamente simples. Conviver com seis personalidades completamente diferentes sob o mesmo teto era… desafiador.
Talvez por isso Kurama tivesse adquirido um pequeno hábito.
Quase todas as noites passava pela área comum dos dormitórios antes de recolher-se. Gostava de conversar com eles longe dos campos de treinamento, quando deixavam de lado a postura de soldados e voltavam a agir apenas como... eles mesmos.
Foi então que percebeu algo estranho.
Assim que se aproximou da porta, sentiu as seis auras reunidas na mesma sala. Nenhuma outra. Mas havia algo diferente. Uma tensão pairava no ar.
Empurrou a porta com cautela. Os seis estavam reunidos ao redor de uma mesa baixa. Ninguém dizia uma palavra. O silêncio era pesado.
Chu mantinha os braços cruzados e o cenho franzido numa concentração raríssima.
Touya permanecia encostado na parede, completamente imóvel. Pela expressão, parecia lamentar profundamente ainda estar naquela sala.
Shishiwakamaru permanecia ereto, sério, com a solenidade de um juiz prestes a anunciar uma sentença.
Jin, que normalmente carregava um sorriso despreocupado, parecia genuinamente ofendido.
Suzuki...
Suzuki bateu a palma da mão sobre a mesa.
As xícaras estremeceram.
— Isso é um absurdo!
Levantou-se de um salto e apontou um dedo acusador para Jin.
— Você claramente não sabe do que está falando!
Kurama piscou algumas vezes.
Aquilo não podia ser bom.
Desviou o olhar para o único que aparentava não compartilhar da tensão.
Rinku estava sentado perto da porta, girando distraidamente um ioiô no dedo, completamente entretido em acertar um movimento novo.
Kurama aproximou-se dele.
— ...Aconteceu alguma coisa?
Rinku ergueu os olhos.
Abriu a boca para responder.
Não teve chance.
Cinco cabeças se viraram ao mesmo tempo na direção de Kurama.
— Kurama! — exclamou Suzuki, como se tivesse acabado de encontrar a solução para todos os problemas do mundo. — Ainda bem que você chegou!
— Você vai resolver isso. — disse Jin, cruzando os braços.
Kurama olhou de um para o outro.
— Resolver... o quê?
Touya soltou um suspiro quase imperceptível. Kurama achou que ele parecia... constrangido?
— Aparentemente... — murmurou. — Estamos discutindo o assunto mais importante da noite.
— Vou precisar de mais contexto.
Suzuki, sem erguer os olhos da própria xícara, foi quem finalmente resumiu.
— Peito ou bunda?
Kurama piscou.
— Perdão?
— A pergunta é essa — confirmou Chu, os braços cruzados, o rosto sério como se estivesse prestes a debater uma estratégia de guerra. — E tem gente aqui com opinião errada.
— Ninguém tem opinião errada — protestou Jin, recostado displicente contra a parede, um sorriso irônico se desenhando em seus lábios. — Só tem gente sem visão.
— Diz isso de novo — desafiou Suzuki, batendo a mão na mesa mais uma vez.
— Sem visão — repetiu Jin.
Shishiwakamaru ergueu uma mão delicada, pedindo silêncio com a autoridade de quem se considera árbitro nato de qualquer discussão estética.
— Se me permitem uma perspectiva mais refinada sobre o assunto…
— Ninguém pediu — cortaram Chu e Suzuki ao mesmo tempo.
— Ainda assim, vou oferecer. — Ele fechou os olhos, dramático. — Existe uma questão de proporção. De equilíbrio visual. De harmonia.
— Que resposta meia boca é essa? — reclamou Chu. As bochechas bem mais coradas que o habitual. Mostrando que o copo em sua mão não era água.
— É uma resposta superior à sua capacidade de compreender.
Kurama fechou os olhos por um instante, como quem reúne forças para sobreviver a mais um minuto ali dentro.
Então virou-se novamente para Rinku.
— Eles estão discutindo isso com essa seriedade toda há quanto tempo?
— Essa bobagem? Quarenta minutos — informou Rinku, voltando imediatamente a atenção para o brinquedo, claramente mais interessado em qualquer outra coisa do universo do que na discussão que consumia os adultos ao seu redor.
Kurama ficou em silêncio.
Quarenta minutos.
Quarenta.
Minutos.
Yomi havia confiado exércitos a essas pessoas.
— Bobagem? — Chu reclamou indignado.
— É uma bobagem — Rinku devolveu.
— O garoto tem mais juízo que todos nessa sala juntos. — Foi a vez de Touya responder.
— O garoto — resmungou Chu — devia estar dormindo a essa hora.
— NÃO MUDA DE ASSUNTO — berrou Suzuki, batendo na mesa outra vez. — AINDA NÃO TERMINAMOS.
Kurama já havia enfrentado caçadores de demônios, ladrões do Makai e intrigas entre reinos.
Nenhuma dessas experiências o preparara para arbitrar aquela discussão.
— Boa noite — disse, virando-se para a porta.
— KURAMA, ESPERA, PRECISAMOS DE UM VOTO DE DESEMPATE.
— Não.
— SÓ UM VOTO.
— Boa noite.
Kurama fechou a porta atrás de si.
Os gritos continuaram do outro lado.
— Harmonia visual!
— ISSO NÃO TEM NADA A VER!
— VOCÊ NÃO ENTENDE DE ESTÉTICA!
Kurama permaneceu alguns segundos parado diante da porta.
Respirou fundo.
Depois retomou a caminhada.
Amanhã.
Amanhã eles voltariam a comandar exércitos.
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