Notas iniciais
Inspirado nos capítulos finais do mangá de Yu Yu Hakusho. Após os acontecimentos do torneio do Makai, Yukina permanece no mundo humano e é acolhida pela família Kuwabara, vivendo em sua casa como uma espécie de intercâmbio. O anime não mostrou isso. Este conto imagina um dos muitos dias que se passaram entre esses dois no mundo humano.

Kazuma Kuwabara conferiu os bolsos pela décima terceira vez. Os dois ingressos ainda estavam lá.


Respirou fundo.


— Você enfrentou Toguro...


Murmurou para si mesmo.


— Você enfrentou Sensui...


Respirou outra vez.


— Passou no vestibular...


Fechou os olhos por um instante.


— Então convida a garota pra sair de uma vez, seu idiota.


...


Não conseguiu convencer nem a si mesmo.


Depois do torneio no Makai, Yukina decidiu permanecer no Mundo Humano por algum tempo, com a ideia simples de conhecer melhor aquele mundo tão diferente do qual seus amigos vinham. Acabou sendo recebida pela família Kuwabara como parte de um intercâmbio.


O pai de Kazuma adorou a ideia.


— Uma menina tão educada assim faz bem pra essa casa.


A Shizuru a tratava como uma irmã caçula, e Yukina, aos poucos, passou a chamar aquele lugar de lar.


Para Kuwabara, aquilo era maravilhoso e desesperador ao mesmo tempo.


Naquela tarde, Yukina estava regando as pequenas flores da varanda quando ouviu passos se aproximando. Virou-se na direção de Kuwabara e sorriu imediatamente.


— Kazuma.


Ele congelou.


Ela sorriu.


Pronto.


Esqueci meu nome.


— Você... está ocupada sábado? — perguntou ele, depois de certo esforço.


Ela pensou por alguns segundos.


— Acho que não.


Kuwabara sentiu o coração disparar. Enfiou a mão no bolso e retirou os dois ingressos, já um pouco amassados.


— Eu... queria saber. Se você gostaria de ir comigo.


Yukina recebeu os ingressos com cuidado e leu devagar. "Exposição de Flores de Inverno."


Ele viu o sorriso dela aumentar e o rosto se iluminar.


— Você lembrou...


— Hã?


— Eu comentei sobre essa exposição há alguns meses. Achei que ninguém tivesse prestado atenção.


Kuwabara ficou sem graça. Na verdade, ele lembrava — não porque entendesse de flores, mas porque tudo o que Yukina dizia parecia importante.


— Eu adoraria ir.


— Você... aceita?


— Claro. Por que eu recusaria?


No sábado, Kuwabara já estava pronto uma hora antes do horário. Vestia sua melhor roupa. Tinha tentado arrumar o cabelo. Sem sucesso.


Quando Yukina saiu de casa, ele perdeu completamente a fala. Ela usava roupas simples do Mundo Humano — uma blusa clara, uma saia amarela, os cabelos presos em uma trança solta. Nada chamativo.


Ainda assim.


Ela percebeu que ele permanecia parado, olhando sem dizer palavra, e piscou algumas vezes.


— Kazuma?


Ele demorou um instante.


— Hã?


Ela sorriu, divertida.


— Não íamos sair?


— V-vamos!


Yukina aproximou-se naturalmente e, sem pensar muito, segurou seu braço com as duas mãos.


— Então vamos.


Ela começou a caminhar como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, enquanto Kuwabara tentava se lembrar de como andar e respirar ao mesmo tempo.


A exposição era enorme. Yukina caminhava devagar entre as flores, parava diante de quase todas, observava as pétalas, sentia o perfume, fazia perguntas sobre plantas que Kuwabara claramente não sabia responder. Mesmo assim, ele inventava explicações tão absurdas que ela acabava rindo — e, para ele, ouvir aquele riso fazia qualquer vergonha valer a pena.


Quando saíram, já começava a anoitecer. As ruas estavam cheias — famílias passeavam, casais caminhavam devagar, crianças corriam pela praça. Yukina observava tudo com curiosidade; ainda havia muitos costumes humanos que ela não compreendia.


Foi então que seus olhos pararam em um casal de idosos. Os dois caminhavam bem devagar, de mãos dadas, sem trocar palavra, mas pareciam felizes. Ela os acompanhou com o olhar até desaparecerem na esquina, depois voltou a caminhar ao lado de Kuwabara em silêncio.


— Kazuma...


— Oi?


— Humanos costumam sair assim, com frequência?


— Como?


— Passeando juntos.


Kuwabara sorriu.


— Quando gostam da companhia um do outro, sim.


Yukina baixou os olhos, pensativa.


— Entendo...


Depois de alguns metros, voltou a segurar o braço dele. Kuwabara sentiu o rosto esquentar de novo. Talvez fosse só pra não se perder no meio da multidão. Ele decidiu que não queria descobrir.


Quando finalmente chegaram em casa, a noite já tinha caído, e Yukina ainda segurava o braço dele — só percebeu quando já estavam diante da porta.


— Ah... desculpe.


Kuwabara sorriu, coçando a nuca.


— Não precisa pedir desculpas.


Ela ficou pensativa por um instante.


— Kazuma... é normal as pessoas saírem juntas mais de uma vez?


— Claro.


Ela sorriu.


— Que bom. Gostei muito de hoje. Se houver outra exposição, ou outro lugar bonito, gostaria de ir com você novamente.


Por um segundo, Kuwabara esqueceu completamente como responder. Então sorriu, um sorriso enorme, daqueles impossíveis de esconder.


— Eu também.


— Então vamos outra vez. — ela disse, e entrou na casa.


Kuwabara ficou parado na calçada. Respirou fundo. Olhou para o céu. Ficou alguns segundos completamente imóvel.


Até que a janela do segundo andar se abriu com força.


— Ô, Romeu!


A voz de Shizuru ecoou pela rua. Kuwabara deu um pulo.


— A menina já entrou faz cinco minutos! Vai dormir na calçada agora?


Ele ficou vermelho.


— C-CALA A BOCA!


Shizuru soltou uma risada.


— Entra logo, antes que os vizinhos achem que tem um marginal andando pela rua.


A janela fechou.


Kuwabara olhou pra casa, depois pro céu de novo, deu um sorriso completamente bobo e entrou correndo antes que a irmã resolvesse aparecer de novo.