Contos do Makai
7 Confiança - Parte 1
Notas iniciais

No Makai, sobreviver era simples.
Confiar em alguém é que era complicado.
Se dividisse a comida, podiam envenená-la.
Se dividisse o esconderijo, podiam vendê-lo.
Se dormisse ao lado de alguém, havia uma boa chance de acordar sem a bolsa de tesouros.
Ou de simplesmente não acordar.
Kurama aprendera isso cedo.
Cedo o bastante para entender que trabalhar sozinho era menos lucrativo...
Mas aumentava bastante a expectativa de vida.
Foi assim que passou seus primeiros anos como ladrão.
Sozinho.
Naquela noite, o alvo era um pequeno artefato espiritual guardado na residência de um rico mercador.
Nada grandioso.
Mas valia o suficiente para garantir algumas semanas sem precisar aceitar trabalhos arriscados.
Kurama estudara a casa durante dias. Sabia onde ficavam os guardas da cidade. Qual janela era a mais fácil de abrir. Quanto tempo levava para o vigia completar cada volta.
Pouco antes da meia-noite, esperou o momento em que o guarda dos fundos desapareceu atrás da esquina. Saltou o muro sem fazer barulho. A janela cedeu sem muito esforço.
O corredor estava vazio. Contornou duas armadilhas espirituais marcadas no chão, esperou o vigia passar diante da porta principal e só então atravessou o salão.
No centro da residência, uma única sala permanecia iluminada. Ali, sobre um pedestal de pedra, descansava o artefato.
Tudo corria exatamente como planejado.
Até ouvir outro par de passos dentro da mesma sala.
Kurama ergueu os olhos.
Do outro lado do pedestal, um rapaz de pele pálida, cabelos negros e duas asas de morcego nas costas o encarava com a mesma expressão de surpresa.
Os dois ficaram imóveis.
O silêncio durou apenas dois segundos.
O desconhecido sorriu primeiro.
— Ah...
Olhou para o artefato.
Depois para Kurama.
— Acho que tivemos a mesma ideia.
Um sorriso se desenhou em seus lábios
— Isso explica por que ela já estava destrancada.
Kurama não respondeu.
Seus olhos já haviam notado as sutis, porém óbvias, linhas espirituais entalhadas na base da pedra. O alarme. Ele abriu a boca para avisar, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, assistiu com horror o outro avançar sem pensar e agarrar o objeto com a maior despreocupação do mundo.
Um brilho vermelho percorreu a sala.
CLANG!
Um sino ecoou por toda a residência.
— Idiota! — rosnou Kurama.
Kurama fechou os olhos por um instante, repassando cada um dos detalhes que havia estudado sobre o funcionamento do prédio.
Doze segundos. Era o tempo exato que levaria para os primeiros guardas cercarem a casa.
Em vez de recuar, o garoto de asas puxou o artefato para si. Kurama, recusando-se a perder dias de planejamento por causa de um imbecil, avançou e segurou a outra extremidade do objeto.
— Solta! — exigiu Kurama, tencionando os braços.
— Solta você, eu cheguei primeiro!
— Você ativou o alarme!
Kurama puxou.
O outro puxou de volta.
O artefato quase escapou das mãos dos dois.
Ouviram passos e gritos no corredor.
O rapaz de cabelos pretos olhou para a porta e depois deu um suspiro de irritação. Soltou o objeto e de repente e disparou em direção à janela. Kurama não ficou para trás. Os dois acabaram chegando ao mesmo tempo.
Resultado?
Os dois ficaram entalados por um segundo constrangedor.
— Sai da frente!
— Você que está na frente!
As vozes dos guardas já ecoavam pelo corredor.
— Ali!
Os dois desistiram de discutir no mesmo instante.
Se empurraram quase ao mesmo tempo, atravessaram a janela desequilibrados e caíram do lado de fora justamente quando a porta da sala era arrombada.
A fuga que se seguiu foi um desastre.
Saltaram telhados, escorregaram por calhas e atropelaram barracas no mercado. Guardas gritavam, lanternas balançavam e baldes voavam no escuro.
Enquanto Kurama saltava por cima de um caixote com o coração na boca, olhou para o lado. O garoto das asas corria ombro a ombro com ele. Mas não havia pavor no rosto dele. Ele estava sorrindo. Dava risadinhas curtas a cada esquiva, desviando de flechas e guardas como se aquilo fosse uma brincadeira de infância. Ele estava se divertindo.
Kurama tomou uma decisão consciente: ele odiava aquele sujeito.
No meio do caos, um guarda armado surgiu do nada, cortando o caminho dos dois.
Instintivamente, cada um desviou para um lado.
Kurama foi obrigado a dobrar à esquerda, entrando em uma rua secundária para ganhar distância. As botas dos guardas ecoavam logo atrás, o som das armaduras ficando cada vez mais perto.
A rua terminava em um muro alto de pedra.
Kurama parou.
Alto demais para escalar.
Ele girou nos calcanhares, o peito subindo e descendo. O primeiro guarda já virava a esquina, o som de passos demonstrava que mais estavam logo atrás.
Encurralado, Kurama levou a mão aos cabelos, os olhos frios calculando a rota dos golpes. Ele sabia que podia dar conta daquele guarda, mas não sabia quantos ainda estavam vindo.
O guarda ergueu a lança e avançou.
Kurama preparou o bote.
De repente, uma sombra cortou a luz das tochas. Um som alto de asas batendo no ar ecoou e, no segundo seguinte, um vulto negro despencou do topo do muro.
O Kuronue atingiu o guarda em cheio com as duas pernas, derrubando o homem desacordado no chão de pedra.
— Você é muito lento, sabia? — Kuronue aterrissou com leveza, um sorriso debochado estampado no rosto.
Kurama piscou, surpreso.
— O que você...? Você já tinha saído daqui!
— E deixar você ficar com toda a diversão sozinho? — Kuronue piscou, o som de passos cada vez mais alto. — Por aqui, rápido!
Antes que Kurama pudesse questionar, Kuronue o agarrou pelo braço e o puxou para um vão estreito entre dois barris velhos — um ponto cego imperceptível que dava para a abertura de um velho poço de pedra.
— Desce!
Sem tempo para discutir, Kurama mergulhou no espaço apertado. Kuronue desceu logo atrás, puxando algumas tábuas podres para cobrir a entrada bem no exato segundo em que as lanternas dos guardas iluminaram o beco.
Ninguém respirou. O som dos passos e os gritos frustrados dos guardas passaram por cima das tábuas e se afastaram na escuridão.
Quando o silêncio finalmente retornou, o rapaz soltou o ar e deu uma risada abafada.
— Essa foi por pouco.
No silêncio do poço, Kurama encarou o garoto ao seu lado no escuro.
— Por que você voltou? — sussurrou Kurama, a voz rígida.
Kuronue deu de ombros, os olhos brilhando com ironia na penumbra.
— Vi você entrando nessa rua e lembrei que ela não tinha saída — soltou uma risadinha baixa. — Além disso... abandonar um parceiro de fuga no meio da brincadeira dá um azar desgraçado.
Kurama encarou o garoto no escuro do poço, então olhou para a joia em suas mãos, o motivo de todo aquele caos, e depois para o sujeito das asas, que apenas ajeitava a postura com um sorriso despretensioso.
Com um movimento calmo, Kurama estendeu o objeto na direção dele.
— Fica com ele.
O garoto ergueu as sobrancelhas, pego de surpresa pela primeira vez na noite.
— O quê? Achei que você tivesse vindo atrás disso também.
— E vim — Kurama manteve a voz baixa e serena, entregando o tesouro. — Considera um agradecimento.
O garoto de asas segurou o objeto, olhando para a joia e depois para Kurama, surpreso com o gesto.
— Gratidão é meio rara hoje em dia. Dá um prejuízo danado.
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