Contos do Desimportante
1 Aves Noturnas
Notas iniciais

Juro que o tempo tinha passado, engano meu.
Admiro o relógio anunciando a madrugada.
Ele sempre me parece tão adulatório.
Arremesso meu último cigarro na calçada molhada,
E adentro num bar aleatório.
Juro que o tempo tinha passado, me parece que não.
No bar, o balconista brilhava o balcão brilhoso.
Me desceu uma vodca sem protetor para que possa brilhar ainda mais.
Era tudo que ele fazia na noite "Ah, balcão invejoso!"
Fazer brilhar é o que ele faz.
Juro que o tempo tinha passado, impressão minha...
Ao meu lado senta-se uma bela mulher para seus quarenta.
Incomodada, inquieta e preocupada.
Tenta se distrair, não consegue, mas tenta.
De coração partido, sente a amargura, "Nunca mais serei amada"
Juro que o tempo tinha passado, ilusão...
Mais a frente, um galã de chapéu.
Embriagado, "para apagar tudo da cabeça".
Tomava mais uma, descia como fel.
Pobre coitado, lembrará de tudo assim que amanheça.
Juro que o tempo tinha passado, nunca mais passaria!
Só então percebi,
O relógio não bate, como meu coração.
"O que faço aqui?"
"Perdendo meu tempo em solidão?"
Sim, é para isso que vim.
Por isso todo vieram.
Não esperam um fim,
Pois já tiveram...
"Nunca mais", o corvo ditou.
Agora sei onde vou!
Sujo o balcão,
Vejo o balconista brilhar,
Tomo mais um gole de solidão,
E espero o tempo passar...
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