Notas iniciais
Quem nunca entediou-se quando deveria estar vivendo? Quem nunca sentiu -se solitário quando não estava sozinho? Quem nunca se perdeu?

Juro que o tempo tinha passado, engano meu.

Admiro o relógio anunciando a madrugada.

Ele sempre me parece tão adulatório.

Arremesso meu último cigarro na calçada molhada,

E adentro num bar aleatório.

Juro que o tempo tinha passado, me parece que não.

No bar, o balconista brilhava o balcão brilhoso.

Me desceu uma vodca sem protetor para que possa brilhar ainda mais.

Era tudo que ele fazia na noite "Ah, balcão invejoso!"

Fazer brilhar é o que ele faz.

Juro que o tempo tinha passado, impressão minha...

Ao meu lado senta-se uma bela mulher para seus quarenta.

Incomodada, inquieta e preocupada.

Tenta se distrair, não consegue, mas tenta.

De coração partido, sente a amargura, "Nunca mais serei amada"

Juro que o tempo tinha passado, ilusão...

Mais a frente, um galã de chapéu.

Embriagado, "para apagar tudo da cabeça".

Tomava mais uma, descia como fel.

Pobre coitado, lembrará de tudo assim que amanheça.

Juro que o tempo tinha passado, nunca mais passaria!

Só então percebi,

O relógio não bate, como meu coração.

"O que faço aqui?"

"Perdendo meu tempo em solidão?"

Sim, é para isso que vim.

Por isso todo vieram.

Não esperam um fim,

Pois já tiveram...

"Nunca mais", o corvo ditou.

Agora sei onde vou!

Sujo o balcão,

Vejo o balconista brilhar,

Tomo mais um gole de solidão,

E espero o tempo passar...

Notas finais
Imagem: Nighthawks - Edward Hopper
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.