Eu não tenho um critério exato para escolher com quem buscar novas histórias. Naquele sábado, lá estava eu no grande saguão do aeroporto decidindo com quem falar, até que avistei uma senhora de olhar melancólico sentada na última fileira de cadeiras com uma única mala de rodinhas ao seu lado. Estava vestida com o uniforme de aeromoça de uma grande agencia de aviação, ela parecia ter por volta de 60 anos. Isso me deixou intrigado, afinal quase sempre as aeromoças são bem jovens. Decidi que iria buscar uma nova história com ela, então sentei ao seu lado e comecei a puxar papo falando do tempo. O dia estava ensolarado, nenhuma nuvem pairava no céu; comentei que seria um ótimo dia para pilotar (desta vez eu fingia ser um piloto de férias). Ela pareceu se sentir mais confortável para uma conversa por trabalharmos supostamente no mesmo meio, então depois de um tempo de conversa a senhora começou a revelar sua história.

– Eu comecei a trabalhar em 1979. Você é um piloto jovem, não pode imaginar o glamour que era trabalhar no setor aéreo naquela época. Eu deixei tudo para ser aeromoça, saí de casa muito cedo, e os aeroportos e aviões se tornaram minhas novas casas, como deve ser para você também.

– Com certeza, e é muito difícil, disse eu fingindo entender algo de como é vier assim.

– Quando se vive assim é preciso aprender a desapegar de tudo, mesmo das pessoas, todo mundo que se conhece vai embora da sua vida junto com os aviões, disse a senhora suspirando (essa parte eu realmente compreendi). Se apaixonar é a pior coisa que pode te acontecer, e quando eu percebi isso comecei a viver dos prazeres carnais, fazia sexo com qualquer um em qualquer parte do mundo, muitos de nós acabam vivendo assim. E o mundo, nem conheci direito, ao contrário do que a maioria pensa, praticamente só conhecemos os arredores dos aeroportos dos países, e nas férias voltamos para casa para ver a família, não é assim? Concordei com a cabeça. – Houve uma época em que estavam havendo vários sequestros de aviões, e mais tarde, com o 11 de setembro, as medidas de segurança ficaram bem mais severas, e eu conheço todo o sistema... Poderia até derrubar um avião, disse ela em tom de piada. Apontando para uma linda aeromoça de cabelos loiros e um corpo de curvas esculturais que passava arrastando sua mala de rodinhas em um belo rebolado, a senhora disse em tom um pouco invejoso :

– Eu costumava a ser como aquela moça, agora estou velha! E sabe de uma coisa? Hoje terei meu último vôo como aeromoça, fui demitida, a verdade é que há muita futilidade nesse meio, desculpe pelo meu desabafo...

– Eu sinto muito... e gostei de te ouvir, mas diga, o que você leva de tantos anos nesse trabalho? Perguntei.

– Eu levo raiva, muita raiva... e decepção para falar verdade, nada foi como imaginava. (Eu esperava uma resposta como esta, afinal não ouvi nada de positivo na história). A voz robótica que anunciava os vôos ecoou no saguão anunciando a chegada de um vôo 006 com destino a Buenos Aires.

– Bem, este é meu vôo, boa sorte em sua vida de piloto, adeus, disse ela se levantando, pegando sua mala, e me olhando pela última vez com um estranho olhar.

Ela desapareceu nos corredores cheios. Tirei meu caderninho da minha mala e comecei a anotar, e depois de alguns minutos parei para observar os aviões pelo grande vidro voltado para as pistas de decolagem. O vôo 006, onde a senhora aeromoça que conheci estava, acelerava pela pista para decolar. Logo após as rodas traseiras deixarem o chão, uma explosão na parte de traz da aeronave a trouxe de volta para o solo, onde se esfacelou e se arrastou até o fim da pista.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.