Contos de Pescador
1 A Verdadeira História da Tragédia do DeLaurie
Notas iniciais
Numa mesa solitária num canto do bar, uma pessoa terminava mais uma caneca de chope aos largos goles, duas jovens que tinham chegado a pouco tempo se aproximavam, as duas usavam saias curtas e blusas justas e decotadas, a loira se aproximou da mesa mexendo no longo cabelo e com um sorriso no rosto se apresentou.
“Oi! Eu sou Mary” ela disse sentando-se ao lado do marinheiro com uma pose sedutora e vulgar “É verdade que você foi o único sobrevivente na tragédia do Madame DeLaurie? ”
Ele riu e, com suas mãos finas e calejadas, virou o boné que cobria a maior parte de seu rosto para trás, virando-se para as garotas, revelando suas feições femininas. Os olhos da morena, que ainda estava de pé, se arregalaram e a loira consertou sua postura e se afastando alguns centímetros ao perceber que o valente marinheiro que sobrevivera à tragédia que matou quatro pessoas e aquele que ela tentava seduzir desde que descobriu quem era, era na verdade uma mulher. A camisa xadrez larga por cima de uma camiseta preta escondia as curvas de seu corpo feminino, ela tinha o rosto redondo e coberto de sardas, os olhos cinzentos, o nariz fino e os lábios carnudos, o cabelo curto e ruivo caia em sua testa e ela sorria com o canto da boca e tinha uma sobrancelha levantada como que uma pergunta.
A morena que ainda não tinha se apresentado quebrou o silencio com uma pergunta fria.
“Então é você? ”
“Sim, sou eu, a única sobrevivente da tragédia do DeLaurie! ” ela disse tomando o ultimo gole do chope. Ela pousou a caneca na mesa e chamou a garçonete “Vão querer alguma coisa? ” as duas negaram com a cabeça e ela pediu mais uma caneca.
As duas ficaram em silencio enquanto a outra tomava mais um gole da nova caneca.
“E então? ” a ruiva perguntou.
“E então o que? ” a morena retrucou.
“Vocês vieram até aqui pra fazer uma pergunta e ficar me encarando depois? ”
“Não, na verdade, mas...”
“Mas eu sou uma mulher e vocês pensaram que eu era algum tipo de marinheiro valente, bonito e musculoso, pelo qual valeria a pena ficar ouvindo uma história sem pé nem cabeça? ”
“Talvez” Mary falou levantando uma sobrancelha, “Mas talvez, a gente veio perguntar se a história que todo mundo anda dizendo é verdade, e, sim, pensamos que você era homem”
“Então, qual é a história que andam contando sobre mim? ”
“Bem, que você é homem e que lutou e venceu sozinha um cardume inteiro de sereias cruéis e sedentas por sangue humano”
“Venci é? E quão grande seria esse cardume? ”
“Centenas delas, ” a morena falou com desdém, “mas nessa parte a gente não acreditou, sereias devem ser grandes e se elas andam em cardumes de centenas é muita incompetência não terem provado a existência delas”
“Pensei que vocês não iam acreditar nas sereias em si” ela riu
“O oceano é um lugar grande, por que não? ”
“Garota esperta, senta aí, vão querer ouvir a história real? ” ela se sentou do seu outro lado e afirmou com a cabeça “Você não disse o seu nome” a ruiva falou como uma pergunta.
“Sophia”
“Então, Sophia, Mary, aqui vai:
“O Madame DeLaurie é um barco pesqueiro simples, com uma pequena tripulação, éramos cinco. O barco foi nomeado em homenagem à falecida esposa do capitão, Bianca DeLaurie, não sei por que ele resolveu colocar Madame DeLaurie e não Bianca, talvez ele era meio narcisista e resolveu usar a única parte do nome da mulher que era parte dele também. Carlos DeLaurie, era um homem enorme, ruivo e surdo de um ouvido, barulhento e meio estabanado o homem era uma piada ambulante, tinha sempre um sorriso no rosto e fazia piada de tudo.
Estávamos em mar aberto e tínhamos pegados todos os peixes que cabiam no barco e prontos para voltar à terra, mas numa ‘coincidência cruel’ o motor e o rádio tinham parado de funcionar e o único bote que tínhamos sumiu. Não sei como, ou se, a sereia tinha chegado no motor e no rádio, mas o nosso bote estava com ela.
Na noite em que percebemos os inúmeros defeitos que o navio sofria, enquanto Lucas tentava dar um jeito no rádio e o capitão e Louis quebravam a cabeça para descobrir o que estava errado no motor, eu e Harry estávamos no convés, matando tempo com cartas quando ouvimos um grito vindo da água. Nós corremos para ver quem era e vimos um pequeno bote inflável com um único passageiro, uma mulher que balançava os braços acima da cabeça e gritava pedindo socorro, ela usava apenas um colete salva-vidas e uma saia feita de um pano amarrado em volta da cintura. Eu e Harry a puxamos do mar e ele corou ao ver a mulher quase despida em sua frente, ele era jovem, quase um adolescente, e, gaguejando, ele falou para mim.
‘Er... eu... vou avisar o capitão, você pode arranjar uma roupa seca para ela? ’ ele disse e saiu sem esperar uma resposta.
Eu a acompanhei para a cabine que eu dividia com Lucas e peguei uma de minhas camisetas e um short e entreguei para ela, ela se apresentou como Anne, mas não falamos muito. Ela era esbelta e curvilínea, a tinha a pele bronzeada e longos cabelos negros, era a mulher mais bonita que eu já vi. Eu virei de costas para que ela se sentir-se mais confortável e assim que ela se trocou, o capitão começou a bater na porta e entrou sem permissão.
‘Olá! Eu sou Carlos, o capitão desse barco, e você é? ’ ele perguntou também maravilhado pela beleza da garota.
‘Anne’ ela disse apertando a mão do capitão, ‘Muito obrigada por terem me pegado ali, já estava a quase um dia no mar, meu veleiro afundou e não tem sinal de celular nesse fim de mundo’ ela explicou sorrindo
‘Que nada, fizemos o mesmo que todos fariam’
‘Mesmo assim, vocês salvaram minha vida’
‘Talvez não por muito tempo, o motor estragou e o rádio não quer funcio...’ fui interrompida no meio da frase pelo cotovelo do capitão pressionado contra minhas costelas, me afastei dele recuperando o folego enquanto ele tentava animar a convidada, embora eu tenha visto um olhar quase de alívio em seu rosto quando eu disse que não sairíamos dali tão cedo. ”
“Espera! ” Sophia interrompeu a garota no meio de seu relato “Então era só uma sereia? Que matou quatro marinheiros? ”
“Uma sereia, por que? Ela teve três dias pra fazer isso, eram águas internacionais e não era uma rota muito utilizada”
“Tudo bem, mas por que ela iria matar todos do navio? Não acho que só uma iria precisar de tanto”
“Eu ainda vou chegar nessa parte da história, calma, ainda temos dois dias para cobrir. Onde eu estava mesmo? Ah sim, o capitão disse a nossa ‘ilustríssima’ convidada que não era preciso preocupar-se, pois os problemas do motor seriam logo consertados e se não, era muito provável que outro navio passasse por perto antes das provisões acabarem e todo o peixe estragar. Ele até cedeu a própria cabine para a garota, se mudando por algumas noites para a terceira e última cabine a qual Louis e Harry dividiam se espremendo numa cabine feita para duas pessoas.
Era o meio da noite e eu acordei buscando um copo d’agua, quando ouvi do convés uma voz feminina, ao buscar a fonte de tal voz, e encontrei Anne na amurada do barco, olhando profundamente para o mare murmurando algo.
‘Boa noite’ eu disse baixo me encostando na amurada ao seu lado.
‘Oh! ’ ela se assustou ao me ver ‘Você está aí desde quando? ’
Eu dei de ombros.
‘Não consegui dormir’ ficamos em silêncio por algum tempo até ela se sentir desconfortável e quebrar o silêncio ‘Vim pra cá pensar na vida e estava falando comigo mesma, sabe? ’
‘Aham’
‘Bem então eu vou voltar a dormir, boa noite’
Acenei enquanto ela saia e voltei meu olhar para o mar que ela antes observava, as águas se remexiam de uma forma estranha debaixo daquele lado no barco, sob a luz pálida da lua podia jurar que vira um braço fino e pequeno e uma cauda rápida passando perto da superfície.
**
No dia seguinte todos voltaram as suas tarefas normais, tentavam consertar o navio, Anne passou o dia conversando com Lucas que tentava consertar o rádio, as paredes eram finas e era possível ouvir a risada dos dois por todo o barco. Harry não saiu do quarto o dia inteiro, devia ter dormido mal e não iria acordar tão cedo, segundo seus dois colegas de quarto, então teria que passar o dia sozinha, fiquei na minha própria cabine o dia todo jogando paciência sozinha e lendo algum livro qualquer, só saindo no meio do dia para comer.
Lucas não voltou para a cabine a noite e eu supus que tenha ido para a cabine de Anne, pelo jeito que os dois tinham passado tanto tempo juntos. Ele voltou para a cabine no meio da madrugada tentando inutilmente não me acordar. Bem, preferi não me incomodar com o que ele resolvia fazer da vida.
No dia seguinte, Lucas e eu fomos tomar café enquanto ele tentava consertar o rádio, passamos mais algumas horas jogando papo fora até que ele sorriu e soltou um grito.
‘Consegui! O rádio está funcionando de novo! ’ ele disse animado.
‘Serio? Testa aí! ’
Ele ligou o rádio e sincronizou o canal, a princípio o único som que ouviram foi um chiado, mas depois de chamar algumas vezes, Lucas teve uma resposta. Ele pediu ajuda e eu fui avisar os outros que o socorro estava a caminho. Perto do motor do barco, a caminho de contar as descobertas para o capitão, quando encontrei Anne passando por lá.
‘Oi, Lucas conseguiu consertar o rádio, ele pediu ajuda e em pouco tempo deveremos ser socorridos’ eu disse pensando que ficaria grata.
‘Ah, ele consertou é? ’ ela falou levemente desconsertada e tentou seguir seu caminho, oposto ao meu.
‘Espera! Você viu o capitão e Louis? Ainda tenho que avisar os dois’
‘Ahn? Não, não vi os dois ainda. Vai ver estão fazendo uma pausa no trabalho’ ela continuou e eu fui procurar no resto do navio.
Aquele lugar parecia um navio fantasma, não havia nenhuma alma viva no barco além de Lucas e eu, até Anne, que eu tinha visto momentos antes, agora se mostrava impossível de se encontrar.
No silêncio mórbido do DeLaurie, Lucas e eu tomamos caminhos opostos para procurarmos os outros, nos encontramos novamente no meio do barco momentos depois, sem acharmos ninguém, demos outra volta no barco gritando os nomes dos outros tripulantes e Anne. Em algum momento, parei de ouvir os gritos de Lucas por um segundo até ouvi-lo gritar no convés.
‘Achei a Aaaaann’ seu grito se tornou um uivo agudo de pavor no final da frase.
Corri para o convés bem a tempo de ver o corpo sem vida e coberto de sangue de Lucas ser atirado ao mar. Olhando pra o oceano onde ele foi jogado a agua estava vermelha em volta de seu corpo, o mar se remexia com a movimentação de pequenas criaturas, garras e dentes puxavam o corpo de meu amigo, desmembrando-o e levando-o para o fundo do mar com suas pequenas e rápidas caudas da cor do mar.
Olhei para Anne surpresa, paralisada, sem saber processar o que tinha visto, ela também não tinha mais sua aparência perfeita e inocente de quando tinha chegado, sua pele tinha um tom mais esverdeado, escamas surgiam de alguns pontos específicos de sua pele, tinha os olhos dourados e a pupila alongada, a boca ia até quase metade da bochecha e os lábios, antes carnudos, tinham ficado tão finos que quase desapareceram e as presas eram tão grandes e afiadas que não se continham na boca, por fim, seus dedos, agora alongados e ossudos, tinham longas garras cobertas de sangue pingando no chão.
‘O q-que...? ’ não conseguia formular nem uma frase direito.
Anne começou a se transformar, sua forma lentamente voltou a ser a imagem dela que eu conhecia. Dei um passo para trás, assustada com a repentina transformação, e ela, com um sorriso gentil no rosto, se aproximou um passo, o que ligou alguma coisa dentro de mim. Soltei um grito agudo erguendo as mãos na defensiva.
‘Silencio! ’ ela disse autoritária, mas hesitante, como se não tivesse certeza do que estava fazendo.
Eu me calei, era como se ela quisesse me obrigar a ficar em silencio, mas o máximo que conseguiu foi ser bem convincente. Havia uma voz na minha cabeça que dizia que eu deveria me calar, eu sentia que não devia, mas estava assustada demais para desobedecer. Anne sorriu como uma descoberta.
‘Se aproxime’ ela disse mais autoritária e com a voz mais certa.
Meus instintos se recusaram imediatamente, me afastei mais um passo e neguei com a cabeça, ela soltou um longo suspiro, levantou a mão como em sinal de paz e começou a andar em minha direção lentamente. Tentei me afastar mais, mas com meu próximo passo atingi a porta fechada que dava para o resto do barco.
‘Você tem que entender’ ela disse calmamente, entendendo que sua influência sobre mim tinha suas limitações e tentando parecer convincente ‘Eu tenho que alimentar minha família, as pobres crianças não conseguem caçar sozinhas ainda! ’
Ela já estava bem próxima de mim e eu estava desesperada, num movimento brusco eu estiquei meu braço direito alcançando um extintor de incêndio e atingindo a cabeça da sereia com ele. Ela já caiu sobre a amurada e eu ainda tive que a empurrar para que completasse seu caminho ao mar.
Ao atingir a agua, ela voltou a forma que tinha antes, mas dessa vez, uma longa cauda da cor da agua tomava o lugar das pernas e ela ficou careca, com uma longa e graciosa barbatana dorsal saindo do ponto seu cabelo devia começar.
A partir daí só tive que esperar, o socorro chegou em pouco tempo e logo estava de volta à terra”
“Uau! ” Mary disse ao terminar a história.
“Uau? ” a sobrevivente perguntou “Eu deixei todos no barco morrerem e não pude fazer nada além de empurrar a sereia de volta para o mar, ela ainda tá por aí e pode atacar outras pessoas só por que eu estava aterrorizada demais pra fazer algo mais do que bater na cabeça dela” ela soltou um suspiro “Licença, eu vou ficar no bar, podem pegar a mesa se quiserem ” ela disse saindo da mesa deixando as duas sozinhas.
**
Naquela noite, a única sobrevivente do Madame DeLaurie bebeu quase que de graça, os boatos de seu pequeno feito voaram pelo bar e todo momento ela tinha que dispensar as investidas dos homens e algumas mulheres do bar. Apesar de toda bebida grátis ela não conseguiu esquecer a única coisa que tentava deixar para trás: as meias verdades que contara à Mary e Sophia, não exatamente a versão que tinha contado para elas, mas o que deixou de fora. Seu pensamento voltava para a primeira noite que Anne passou no barco, apesar de deslumbrado por sua beleza exótica e aparência impecável, o capitão mandou Lucas para o quarto de Harry e Louis, obrigando-o a se apertar com dois novos companheiros de quarto e colocando Anne na cama de Lucas e sua cabine. Ao meio da noite, acordando e vendo que a convidada não estava, ela foi em busca da sereia para encontrá-la, achando a garota olhando para o mar e murmurando coisas, ela se aproximou com um tímido boa noite.
Ela me olhou sorrindo, seu rosto iluminado pela pálida luz do luar tinha um tom bem mais escuro do que realmente era, seus olhos negros brilhavam contra a luz branca hipnotizantes e a leve brisa marítima dava as ondas de seu cabelo o mesmo efeito das ondas do mar. O braço que tinha visto no mar não tomou muita de sua atenção, sua mente não estava completamente focada em Anne. Ela disse algo, mas a outra não se importou o bastante para ouvir, ainda pensando em sua beleza.
“Bem, então ou voltar a dormir boa noite” Anne já ia saindo quando ela a interrompeu.
“Ei! ” Anne parou e virou-se para ela “Me faz companhia mais um tempo? Ainda não estou com muito sono”
“Claro” ela parou a seu lado, observando o mar e o céu estrelado fundindo-se, com o horizonte impossível de se distinguir.
“Robin, certo? ” Anne perguntou depois de alguns instantes.
“Sim? ” ela respondeu, virando-se para Anne que ainda olhava o mar.
“Qual é a do capitão? Ele parece muito... ”
“Impressionável? ” Robin completou “Ele é assim mesmo, acho que é porque desde que a mulher dele morreu ele não passa muito tempo fora do barco, e também ele tem um instinto de fazer piada de tudo, mas um amigo dele uma vez falou que não se faz piada de mulher bonita, então ele parece meio estranho porque tá tentando não zoar você”
“Então, ele parece estranho porque eu sou bonita? ” ela disse abrindo um largo sorriso.
“É, mas eu prefiro não falar muito nele, pode ser? ”
“Claro” Anne se virou de costas para aquela parte do mar e se encostou na amurada, virando a cabeça de lado e encarando os olhos cinzentos de Robin “Então quer falar sobre o que? ”
“Prefiro não falar” Robin sorriu e a outra levantou uma sobrancelha, virando-se de frente para ela.
“Também prefiro o silêncio” ela disse logo antes de seus lábios se encontrarem.
As duas quase não completaram o caminho para a cabine, tropeçando pelo barco aos beijos, Robin quase soltou um ‘Amem’ quando, finalmente, se encontravam dentro da cabine. Desajeitadas, as duas se amaram na minúscula cama de Robin, tentando ao máximo não fazer barulho para não acordar os outros
Robin terminou mais um copo e se levantou, saindo do bar, que em menos de meia hora fecharia. O bar ficava de frente para a praia, ela atravessou a rua um pouco cambaleante, sentou-se na calçada, de frente para o mar e pensou novamente no maior arrependimento de sua vida.
Lembrou-se do sentimento que teve quando ouviu Anne entrar sorrateiramente na cabine no meio da noite, depois de ter passado o dia inteiro com Lucas. Lembrou-se de Anne se aproximando dela com as mãos cobertas pelo sangue de Lucas. Lembrou-se de suas palavras gentis e o sorriso acolhedor.
“Você tem que entender. Eu tenho que alimentar minha família, as pobres crianças não conseguem caçar sozinhas ainda! ” ela mais como uma desculpa.
“V-você...” Robin disse apontando para a agua ainda vermelha do sangue do amigo.
“Me desculpe” ela disse, parecendo sincera e abaixando, devagar os braços de Robin e tentando aproximar seu rosto do dela para um beijo, mas Robin esquivou-se, virando a cabeça para o lado.
Anne não se moveu, só soltou as mãos de Robin quando ela tentou se soltar, seus pulsos ficaram com a marca em sangue da mão da sereia. Robin tentou se afastar da sereia saindo para o lado, mas Anne a interrompeu, segurando-a na sua frente pelos ombros.
“Venha comigo” ela ofereceu, falando no seu ouvido e plantando um beijo leve logo abaixo de sua orelha.
A sereia soltou um de seus ombros e levou a mão a sua coxa, subindo com ela de leve pela perna até parar no quadril. Uma sensação estranha de formigamento tomou conta de sua perna, Robin olhou para a própria coxa e viu escamas verdes surgindo de sua pele, formando um rastro da mão de Anne. Ela se virou para Anne, surpresa, mas não teve tempo de falar nada, no segundo em que seus olhos se encontraram, a sereia avançou sobre sua boca, pressionando-a contra a parede num beijo selvagem. Ela segurou o corpo da ruiva com força, virando-a para esquerda, de modo que Robin estivesse com as costas contra a amurada, e, apertando um abraço enquanto ainda atacava sua boca, Anne a empurrou, caindo com ela na agua.
Apesar de tentar se afastar, quando atingiram a agua, a boca de Anne ainda estava sobre a sua, a sereia libertou sua boca, mas continuou prendendo seu corpo, para que ela não voltasse a superfície. Robin abriu os olhos, segurando a respiração, e viu a transformação que a outra sofrera, seu cabelo deu lugar a uma barbatana dorsal e as pernas cederam espaço para a cauda, ela não parecia tão aterrorizante como antes, suas presas estavam retraídas e os lábios continuavam normais, suas garras, apesar de afiadas, não tinham muito espaço quando se via toda a figura.
“Fique comigo” ela disse mais uma vez.
Antes de fazer qualquer coisa, Robin viu vultos atrás de Anne que a assustaram e a fizeram abrir a boca, perdendo seu último suprimento de ar, ela apontou para os vultos que se aproximavam e a sereia, ainda segurando ela, se virou para os pequenos vultos e mostrou as presas, indicando para que ficassem longe. Os vultos já estavam próximos o suficiente para velos quando pararam, eram pequenas criaturas muito parecidas com Anne, mas pareciam mais peixe do que humano, eles continuaram a nadar onde estavam, rindo uns com os outros e fazendo brincadeiras.
Anne virou-se novamente para Robin, percebendo que a ruiva ainda estava segurando a respiração, ela a beijou novamente e Robin teve que inspirar assim que se separaram. A agua invadiu seus pulmões dolorosamente no princípio, o liquido era bem mais pesado do que o ar e ela teve que tossir a agua para fora na primeira vez que inspirou, mas logo estava respirando tão bem quanto respiraria no ar.
A sereia a encarou com seus olhos dourados pedindo uma resposta, e por mais que todo o seu corpo pedisse para que dissesse sim, Robin teve que resistir ao lembra da imagem dela atirando o corpo de Lucas ao mar, desviando dos olhos dourados, Robin negou com a cabeça. Anne não disse nada, nem se moveu, somente soltou a outra, permitindo que ela nadasse para a superfície. Robin queria voltar, mas não conseguiu, ela sentia os olhos das pequenas criaturas a seguindo enquanto ela subia ao barco, não conseguia olhar para trás e se o fizesse não conseguiria voltar ao barco. Tentou não pensar nisso depois que o socorro chegou, criou uma nova história que não era totalmente mentira, mas que, supostamente, impediria sua mente de voltar a pensar nos momentos que passou junto a sereia e retornou a sua rotina normal.
E ali estava ela, voltando sua mente aos dias que jurou nunca mais se lembrar, remoendo seus arrependimentos de frente para o mar, queria correr para o mar e nadar até encontra-la, mas era loucura, seria impossível encontra-la novamente, mas isso não a impediria de procurar.
O bar do outro lado da rua estava fechando naquele instante e ela viu as duas garotas com quem tinha compartilhado sua história passarem pela porta da frente, cada uma abraçada com um homem bem atraente. As duas a viram sentada do outro lado da rua e atravessaram em direção a ela, acenando e puxando os homens que as acompanhavam.
“Se lembra da gente? ” Sophia perguntou ao chegarem do lado dela, estavam bem mais bêbadas do que quando tinha falado com elas.
“Claro” Robin sorriu.
“Rapazes! ” Mary disse apontando para Robin “Essa garota aqui é a única sobrevivente do Madame DeLaurie, vocês lembram da tragédia do DeLaurie? ” os dois concordaram com a cabeça e estenderam a mão para se apresentarem
“Ei! ” Sophia disse “Você não disse seu nome antes”
Robin se levantou cumprimentando os rapazes e se virou para Sophia.
“Robin DeLaurie,” ela disse “boa noite então” ela completou, se virando e indo para casa.
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