Em um pequeno vilarejo agitado, havia um homem que era conhecido por quase todos os habitantes. Todas as noites, o rapaz se embebedava, animando ou arruinando todas as festas da região. Haviam os que o adoravam e aqueles que o desprezavam, mas todos haviam ao menos ouvido falar dele. Apesar disso, ninguém realmente sabia seu nome ou onde ele morava. Os moradores apenas o chamavam de James Gate, pois essa era o nome da bebida que o rapaz costumava pedir nos bares.

James Gate era relativamente novo no local, havia chegado a menos de dois meses porém já conseguira uma certa fama entre o povoado. Toda noite, além de beber até cair, James sempre acabava saindo do bar com pelo menos uma acompanhante.

Porém, tudo mudou em uma noite de outubro, em que James escolheu a pessoa errada para lhe acompanhar.

Uma belíssima moça com longos cabelos negros, ondulados como o mais profundo oceano, elegantes vestes vermelhas sofisticadas porém provocativas e olhos verdes que pareciam reluzir como a lua, passou anoite o observando de longe. Como James já estava ciente de sua fama, presumiu ser uma cortesã interessada no rapaz, como frequentemente acontecia. Sem demora, os dois passaram a trocar flertes e, em questão de minutos, o rapaz deixou o bar acompanhado da bela dama.

A próxima coisa que se lembra era de acordar em sua cama com uma dor aguda em seu pescoço, acompanhada de dores em sua cabeça e peito. James não era nenhum estranho aos sintomas de uma ressaca, então ignorou e se preparou para mais uma noite de bebedeira.

Quando a noite caiu, lá estava o famigerado James Gate em mais um bar, enchendo a cara de tudo o que é bebida e batendo papo com tudo o que é pessoa. Entretanto, James pode notar que um cavalheiro estranho o observava naquela noite. Todo encoberto por vestes pretas e pesadas, com uma cartola que fazia sombra sobre seus olhos, os obstruindo de vista. e um lenço preta encobrindo sua boca, nariz e pescoço. Não sabia dizer com certeza, porém parecia ter alguma coisa muito errada com aquele homem. O formato de seu corpo não parecia correto, como se o rapaz tivesse algum tipo de deformidade, porém não havia nada em particular que James conseguia dizer estar errado, além de uma aura ominosa e intimidadora que o circundava. Só olhar para aquele sujeito o dava arrepios, então decidiu apenas o ignorar por enquanto.

Na manhã seguinte, ao se olhar no espelho, James Gate ficou incrédulo. O rapaz já era magro, porém parecia ainda mais esquelético, como se não comesse a meses. Suas mãos pareciam estranhas, cadavéricas e acinzentadas, e seus dedos pareciam longos e finos como palitos de madeira apodrecida. Seus braços, costas e peito estavam muito mais peludos do que o habitual, e suas orelhas pareciam ter criado uma pequena ponta.

Aquela imagem era completamente desconcertante. James se questionou se teria pegado alguma doença, porém não queria quebrar sua bela rotina de beber a noite toda e dormir o dia todo, então decidiu deixar isso de lado por enquanto. Prosseguiu seu dia como de costume, porém decidiu passar a noite em uma taverna e pedir algo para comer dessa vez. Quem sabe estava ficando mal nutrido.

Novamente, aquele homem da noite anterior estava ali presente, o observando. Dessa vez, quando James o fitou, o homem deu um leve aceno com a cabeça. James ficou receoso, porém deixou isso de lado. Quando foi olhar para ele novamente, o homem não estava mais lá.

Quando acordou, James estava com uma forte dor nas costas. A se olhar no espelho, deu um grito diante daquela visão horrenda. Sua pele estava ficando cinzenta e seu corpo peludo. Suas orelhas estavam enormes como as de um morcego, seu nariz parecia estar achatado como o nariz de um porco e seus dentes pareciam longos e afiados, como se tivessem agulhas no lugar de seus dentes. Além disso, haviam dois relevos em suas costas, crescendo a cada minuto, como se houvessem dois braços tentando rasgar sua pele de dentro para fora.

Algo estava muito errado.

James decidiu que já era hora de quebrar sua rotina e ir visitar o médico. Ou melhor, visitar o padre. Porém, quando abriu as cortinas de sua janela para deixar o sol entrar, foi atacado por múltiplas queimaduras em seu corpo nos locais em que a luz do sol tocava, como se fosse água benta jogada na pele de um demônio. Sem ter outra escolha, James teve de ficar em sua casa durante aquele dia.

Aquela noite chegou acompanhada de uma forte dor de cabeça e febre delirante para James. O rapaz suava e sentia todo o seu corpo pulsar e doer, era como se seu sangue fervesse tentasse desesperadamente sair pelos poros de sua pele. O rapaz já não conseguia se levantar da cama e nem ao menos pensar direito. Sentia que iria morrer logo se não fizesse alguma coisa, porem não sabia o que fazer, e nem conseguia fazer nada sobre sua situação.

No escuro de sua casa, pensou ver vários vultos correndo perto de sua cama. Sua febre era tão forte que estava o causando delírios. A última coisa que se lembra de ver antes de apagar foi aquele mesmo homem que o vigiava no bar, se sentando na beira de sua cama e o oferecendo uma taça com um líquido vermelho. Sem poder lutar contra aquela situação, James aceitou, e o homem o deu de beber.

O sol nasceu mais uma vez, e James estava se sentindo muito melhor naquela manhã. Em fato, se sentia melhor do que nunca, com a sensação de ser capaz de fazer qualquer coisa, como uma força da natureza incapaz de ser parada. Até havia acordado de bom humor, para variar. Porém, esse sentimento bom se esvaiu ao se olhar no espelho, assim como sua imagem. Foi a coisa mais perturbadora que James havia visto em toda a sua vida. Até mais aterrorizante do que a imagem que vira no dia passado.

James não via nada no espelho. Tinha perdido completamente seu reflexo. Era como se ele não estivesse ali.

Em seu horror, o rapaz olhou para suas mãos, que estavam ainda mais distorcidas do que na noite anterior. Notou que uma fina camada de pele juntava seus braços com algo que saia de suas costas. Tocando seu rosto, sentiu algo que não parecia ser humano. Não poderia ser humano.

Durante três noites consecutivas, ninguém teve notícias de James Gate. O cavalheiro que o encarava no bar também não foi mais visto. Porém, após estas três noites, pessoas começaram a desaparecer na cidade, apenas para serem encontradas dias depois, sem vida, pálidas e magras como se todo o sangue tivesse sido drenado de seu corpo.

A praga finalmente havia chegado para aquele vilarejo.

Apesar dos esforços dos aldeões, os que não se mudaram acabaram mortos, e logo as ruas daquele lugar se tornaram vazias, sem nenhuma alma viva vagando por ali.

. . .

Em um vilarejo perto daquele, em uma fatídica noite de outubro, um sujeito coberto dos pés a cabeça entrou em um bar. Um estrangeiro, com certeza. Não foi muito notado, pois todos estavam dando atenção para um bêbado fazendo uma cena no bar. O estrangeiro, então, se aproximou do balcão, pedindo uma marca particular de cerveja.

St. James’ Gate Brewery.