Contos de Neo York
1 Capítulo 1: Hal
Acendeu um cigarro antes de entrar na sala de seu chefe. Hal tinha sido chamado para conversar com seu superior mais próximo, Capitão Wilford. Homem gordo, careca, sempre de terno e sentado em sua cadeira atrás de um computador enviando ordens, mas era gente boa em alguns momentos.
— Bom dia, Hal! Espero que tenha tido uma boa noite de sono. – Wilford sorriu para Hal com seus dentes brancos perfeitos.
— Pode apostar que eu tive. E você, Will? Anda dormindo bem a noite? – Soltou a fumaça do cigarro para cima.
— Claro que sim, mas não foi pra isso que te chamei. – Se ajeitou na cadeira antes de lhe dar as notícias. – Você nos últimos tempos teve um desempenho absurdo aqui em Upper City, então o departamento e o Diretor Geral decidiram que suas habilidades são necessárias em Lower City. – Hal deu uma risada alta, quem estava do lado de fora da sala conseguiu escutar.
— Certo, ótima piada, Will. Sempre gostei disso em você. – Levantou e apagou o cigarro no cinzeiro da mesa de seu chefe. – Posso ir pra casa agora? Minha esposa quis que eu ficasse em casa hoje.
— Não é nenhuma piada, Hal. Sente-se que eu ainda não terminei de falar! Já arrumamos um lugar pra você ficar, prédio bom, apartamento bem equipado. Ganhará o dobro do que ganha aqui. Notifique sua mulher e família, se recusar essa proposta pode se considerar demitido. Deixe sua arma e distintivo em minha mesa. – O sorriso de Capitão Wilford se fechou em um rosto sério e irritado pelo desrespeito de Hal.
Sem deixar arma ou distintivo Hal andou para fora da sala, irritado, mas não teve outra escolha. Ser detetive sempre foi seu sonho desde criança e largar por causa disso agora seria burrice, ou não, Lower City era selvagem.
Avisou sua esposa Alaine e seus pais, em algumas horas se mudou para Lower City. Foi transferido por um gigante elevador que conecta as duas cidades. O elevador tem o tamanho de um Estádio de Futebol, milhares de pessoas por dia sobem e descem nele. Alguns assalariados de empresas ganham finais de semanas com desconto em Upper City e aos domingos retornam para suas vidas duras lá em baixo. Quando o brilho do sol sumiu, dando lugar a um escuro imenso do Teto de Aço que dividia as duas cidades, seus ombros ficaram mais pesados.
O elevador parou, fazendo um enorme barulho ao encostar no chão. Lentamente todos foram saindo por um salão gigantesco de algum edifício do século passado, sua estrutura parecia que iria ruir a qualquer momento. Saiu de lá com Alaine e admirou a paisagem a frente dos dois. Não havia mais sol, não havia mais limpeza, não havia mais ar puro, não havia nada além de Aço e Concreto.
Deixou Alaine em seu novo apartamento sem tempo a perder, já havia sido chamado pro Departamento para se apresentar.
Sempre soube que o prédio da polícia era uma conexão das duas cidades, e ficou com vontade de esmurrar Wilford quando viu ele do lado de Lower City.
— Ainda sou seu superior, e eu também fui realocado para o Departamento daqui, então não reclame!
— Relaxe, Will. Eu vou me acostumar aqui com o tempo, já estava entediado lá em cima, um pouco de ação não faz mal a ninguém. – Acendeu um cigarro.
— Seu primeiro caso já está preparado. Vai funcionar exatamente como em Upper City, receberá tudo em seu computador de seu carro. O que te digo por hora é...um assassinato nada convencional, nada que você tenha visto lá em cima, então prepare-se. – Hal saiu da sala pensando nisso. Assassinatos em Upper City eram raros, não tinha o costume de ver gente morta.
Uma praça cheia de viaturas policiais com olhos curiosos em volta, até agora não havia nada fora do padrão, exceto a falta do sol. Pousou seu carro não muito longe da cena do crime. Passou pela pequena multidão e o bloqueio policial formado em volta. A pra ça era redonda com um monumento de algum animal no meio, não prestou atenção nele para distuinguir o que exatamente era, só viu que era grande. Hal se aproximou do policial responsável pelo perímetro:
— Detetive Hal, novo aqui. Me dê detalhes sobre a situação. – Retirou seu distintivo holográfico do bolso de sua camisa e mostrou ao oficial.
— Não viu em seu computador de bordo?
— Prefiro ver as coisas pessoalmente. – Seguiu o policial até a cena do crime. Havia um pequeno drone circulando a área buscando algum tipo de evidência que os olhos humanos talvez tenham perdido. Chegou no meio da praça, naquele monumento que teve uma chance de reparar melhor. Era uma grande águia de bronze. Seria mais bonita, se não fosse por um corpo pendurado sem grande parte da sua pele na base dela. Hal entrou em choque.
— Mas que merda é essa? – Seu rosto lutou para manter os olhos abertos.
— Seria melhor ter checado no computador antes, não? Isso aqui é algo novo até para nós. Não parece ser nada relacionado a gangues. – Foi se aproximando com dificuldade do corpo para observar melhor. Suas pernas estavam completamente esfoladas, seus órgãos internos não existiam mais e seu rosto completamente mutilado. Seus braços estavam abertos como se quisesse imitar a águia.
Em baixo do corpo havia uma poça de sangue, e uma trilha do mesmo pela praça. O legista disse que a pessoa, do sexo masculino, havia sido assassinado por múltiplas facadas no peito, lâmina grossa. Testemunhas confirmaram terem visto um suspeito pendurar esse corpo tarde da noite, mas antes disso todas as luzes do quarteirão inteiro tinham se apagado por cerca de 20 minutos. Infelizmente nesse lugar as pessoas tem muito medo para tentarem fazer algo por conta própria, então apenas ligaram para a polícia.
Voltou à seu novo escritório para analisar evidências encontradas. O corpo teve grande parte de seu sangue retirado, e ninguém conseguiu identificar o sangue, parecia estar misturado com vários tipos e outras substâncias. Para o sangue ter essa mistura o algoz precisaria de alguma fonte, seja algum banco de sangue ou outras vítimas. Em seu computador abriu a database de antigos casos da polícia e procurou por similares. Poucos deles tinham essa mesma coincidência: sangue indistinguível, corpo mutilado e deixado em público, mas todos possuiam um grande intervalo de alguns meses. Não era uma conexão difícil de se fazer. Todos esses casos foram líderados pelo detetive Howard Murray, um senhor idoso de acordo com sua ficha, 68 anos. Ao checar a ficha do Detetive Murray descobriu que o mesmo já se encontrava desaparecido fazia algum tempo, sem pistas de seu paradeiro o caso foi arquivado. Ligou para Wilford de seu computador.
— Will. Me diga algo sobre Howard Murray. Seu desaparecimento não parece ter sido muito investigado.
— Não foi. O pouco dos relatórios que li sobre dizem que a falta de pistas e de apreciação ao Detetive Murray desmotivaram bastante o departamento. E você sabe como é, nem em Upper City a polícia tem a mesma honra dos filmes antigos.
— Era só isso que gostaria de saber. Obrigado pelo esclarecimento. – Desligou a chamada.
Seu próximo passo era investigar Murray. Anotou seu endereço contido na ficha e dirigiu até seu apartamento. Era um lugar distante do Departamento de Polícia, escuro e vazio também. As letras do nome do edíficio estavam todas apagadas. Aquela rua escura e intimidadora lhe dava arrepios. Ajeitou sua gravata antes de sair o carro. Não era um prédio muito grande e nem sequer tinha um porteiro ou sistema de segurança, abriu a porta da frente e entrou. A recepção tinha apenas um pequeno abajur em cima de um balcão vazio para a iluminação. Apertou o botão do elevador várias vezes mesmo sabendo que não faria ele vir mais rápido, só pra descontar a agônia que era estar ali. O elevador que chegou era velho, fez um enorme barulho, suas portas eram grades sanfonadas. Entrou e apertou o botão para o quinto andar. Ao chegar no quinto andar sacou sua pistola. Um morador de um dos apartamentos estava colocando o lixo ao lado de sua porta quando viu Hal, levantou suas mãos na hora.
— Não se preocupe, polícia. – Mostrou o distintivo.
O morador voltou correndo para dentro de casa e bateu sua porta, com barulho de chaves trancando em seguida. Abriu a porta do apartamento de Murray com todo seu peso sobre ela. O lugar estava completamente bagunçado e escuro. O pouco que conseguiu enxergar era por conta de um carro da polícia ter passado voando ao lado da janela com suas luzes vermelhas e azuis. Ligou a lanterna de seu celular e observou o lugar. Na parede tinha escrito uma frase “NÃO VENHAM” com tinta preta. O que significa? Pensou Hal. Andou devagar até o quarto de Murray. Pendurado na parede havia uma coleção de chapéus: Preto, Branco, Vermelho, Azul, Amarelo. Mas havia um espaço não preenchido, um chapéu estava faltando. Fora isso não havia nada de interessante em seu quarto. Tirou algumas fotos do lugar e saiu.
Tropeçou em uma caixa no escuro e em seguida pisou em algo, quando tirou seu pé de cima notou que era um PDA não muito antigo. Ligou ele, não possuía senha. Analisou o PDA e descobriu a pasta de anotações com endereços relacionados aos casos desse aparente serial killer. Todos os endereços eram das cenas dos crimes, menos um deles.
Rua Verley Croft, número 46.
Desceu do carro ainda com aquele medo na espinha. Não usava colete para andar desse jeito nessas ruas. O tal número 46 da Verley Croft era uma pequena lanchonete com um conjunto de uns dois apartamentos em cima. Para subir lá era necessário passar pela lanchonete antes. Entrou pela porta de plástico e passou pelas mesas até o caixa.
— Boa noite. Detetive Hal – Mostrou o distintivo. – Quem mora aqui em cima? Tenho certeza que ele deve frequentar aqui bastante.
— Boa noite, Detetive. – Um adolescente vestindo um uniforme vermelho e amarelo para agradar seu chefe. — O único que eu me lembro de morar aqui em cima é o Senhor Troy, é um pouco esquisito. Bem alto como o senhor e sempre anda com bastante roupa.
— Bastante roupa?
— Sobretudo, chapéu, casacos com capuz. Esse tipo de coisa. Mas acho que ele não está agora, não o vejo vindo pra cá faz um bom tempo, eu moro no outro apartamento daqui.
— Entendi. Vou dar uma olhada mesmo assim, obrigado. – Se dirigiu para as escadas. Arrombou a porta para encontrar um lugar completamente diferente do apartamento do Detetive. Acendeu as luzes e viu todos os móveis no lugar, nada espalhado, limpo. Chegava a ser estranho tanta arrumação nesse lugar, sem dúvidas não era abandonado. Passou os dedos pela superfície de uma pequena mesa de madeira ao lado da porta para checar se havia poeira, nada. Sacou sua arma e checou o resto da casa, ninguém. Era um ambiente apertado, tinha muitos móveis e uma TV grande, mas seu teto era um pouco baixo. Observou de perto uma prateleira de livros procurando por qualquer coisa fora do padrão. Livros, isso era velho.
Sentou-se no sofá da sala e abriu um pequeno painel de vidro no braço do sofá para ligar a Televisão. Botões digitais se iluminaram e quando ele foi apertar, sentado no sofá da sala ele conseguiu enxergar o quarto pela porta aberta próximo a TV, e em cima da cama havia um chapéu. Um chapéu verde. Correu para ver, abriu em seu celular a foto que tirou do apartamento de Murray e comparou. Um chapéu faltava, a cor também batia, não havia nenhum verde na parede.
Ligou para Wilford:
— Will, tem algo aí a respeito do Detetive Murray possuir dois apartamentos?
— Um momento – Conseguiu ouvir alguns sons do teclado digital do outro lado da linha, alguns segundos depois ele retornou – Nada, Hal. Por que quer saber uma informação como essa? Não me diga que está investigando o desaparecimento dele... – O aborrecimento em sua voz era evidente.
— Estou e acabei descobrindo pistas bem interessantes, talvez eu encontre nosso novo serial killer também. – Colocou aquele chapéu verde escuro em sua cabeça.
— Hal, pare. Volte para seu escritório, vá trabalhar de verdade.
— Eu estou trabalhando! Não quiseram me realocar e me pôr nessa merda de cidade? Ao menos deixe-me fazer alguma coisa! – Desligou e bloqueou temporariamente as chamadas. – Gordo imbecil.
Desceu até a lanchonete para conversar com o mesmo adolescente.
— Preciso ver as gravações de sua câmera, é vital para minha investigação.
— Você está mesmo procurando o Senhor Troy, não é? Nós sempre deletamos suas imagens nas câmeras a pedido dele. Agora se o senhor puder, há clientes para atender. – Uma pequena fila se formou atrás de Hal.
Dentro de Hal uma parte de seu eu interior disse para cortar o papo leve e partir para os punhos logo, outra parte tentou se manter longe disso.
— Anda logo! Eu preciso ganhar meu dinheiro, verme! Saia antes que eu ligue para a verdadeira polícia daqui! – Claramente se referiu as gangues. Hal realmente demorou para falar e sair do lugar porque procurava em sua mente palavras para convencer o rapaz, e então ele ouviu “verme”.
Agarrou o rapaz pela gola daquela camisa horrível com a mão esquerda e puxou com força na direção do balcão. Um som oco de sua cabeça batendo foi ouvido.
— Poderia ser mais cooperativo? Está prejudicando minha investigação. – Pressionou contra o balcão a cabeça do rapaz com a mão direita e com sua outra fechou o punho descendo em direção ao seu rosto.
— Ei, senhor! Não se preocupe! Nós realmente deletamos as imagens das câmeras mas tem algo que eu posso te dizer! – Hal soltou sua cabeça e ele levantou, colocou a mão no lugar de seu rosto que foi socado com uma expressão de dor. – Antes de desaparecer ele convidou eu e um outro amigo meu daqui, Luke, para irmos ver alguma exposição de arte ou coisa assim. Nos disse para ir juntos e não contar isso à ninguem, já que parecia ser algum tipo de cerimônia privada. No dia eu não pude ir, Luke foi e desde então nunca mais apareceu pra trabalhar.
— E onde foi essa exposição? – O rapaz pegou seu celular do bolso para checar.
— Avenida Farrel Lawn, 558. É um prédio de uns três andares, vi um foto. Tem uma aparência esquisita...É tudo que sei.
— Farrel Lawn. Isso me ajuda muito. Obrigado. – Se virou para ir embora e notou que a maioria dos clientes havia desaparecido. Pegou em sua carteira algumas notas de 20 dólares e colocou em cima do balcão. – Pelo incomodo.
Ainda usava o chapéu de Murray, tinha gostado. Pousou o carro no terraço do prédio, ajeitou a gravata, sacou a pistola e desceu. O celular tocou, Willford.
— Hal, por que ainda não apareceu no escritório?
— Estou perto, Will. O serial killer esteve em baixo do nariz da polícia esse tempo inteiro. Tenho quase certeza de que ele é Howard Murray. – Foi até a porta da escadaria para adrentrar o prédio. – Eu te conto tudo depois, preciso ir agora! – Desligou a chamada.
Apontou a pistola em direção a porta e selecionou o modo Força. A arma formou uma explosão cinética e empurrou a porta com violência, o braço de Hal recuou com a força exercida. Começou uma chuva, sua primeira noite em Lower City e já havia descoberto uma de suas maravilhas. Desceu as escadas para não se molhar. Sua lanterna do celular era a única coisa que iluminava a descida. Passos lentos e um frio na espinha.
No final das escadas havia um elevador vazio, novamente apertou o botão diversas vezes esperando que ele chegasse mais rápido por isso, novamente não funcionou. Dessa vez o elevador chegava a algo próximo de ser moderno nos padrões de Upper City, portas automáticas. Não soube qual botão dos únicos três disponíveis apertar, e então as portas se fecharam sozinhas e o elevador começou a descer. Parou no segundo andar.
Tudo estava escuro, o som de seu sapato encostando no chão ecoou. Escutou o som de vidro se quebrando, virou-se com rapidez na mesma direção apenas para encarar a escuridão. Seu medo aumentava.
— Howard Murray? É você? – Gritou para não ter nenhuma resposta.
Andando perto das paredes procurando um interruptor com urgência, notou que haviam muitos rastros do que parecia ser sangue no chão, passou a correr mais rápido pelo salão.
— Modo fogo rápido, por favor. – Disse a sua pistola. Suas luzes mudaram a cor para vermelho.
Quando Hal menos esperou, quando aquela escuridão sem fim parecia tomar sua sanidade, as luzes se acenderam. Enormes lâmpadas no alto do teto revelaram um salão grandíssimo, com uma grande surpresa. A exposição de arte de fato tinha acontecido.
Quadros espalhados pelo meio, alguns em vitrines, outros no chão, apoiados em cadeiras e diversas coisas do tipo. Todos com uma peculiaridade: Pintados com sangue. Pinturas abstratas e tentativas de algo normal, todos naquele tom avermelhado e seco de sangue velho. Hal olhou um por um, horrizado, tremendo, com muitos mais medo do que antes. Pensou que as luzes resolveriam seu problema, se enganou completamente.
Percebeu também que haviam panos cobrindo certas partes das paredes, não queria saber o que tinha de baixo daqueles panos. Foi para perto de um desses quadros e tocou de leve, seco.
— Howard Murray está morto! E você também estará em breve! – A voz ecoou como qualquer outro som, não soube dizer de onde veio pelo seu alto nervosismo, apenas apontou a pistola de um lado para o outro com medo.
Por que não chamou reforços antes de entrar? Hal as vezes deixava sua teimosia e sentimento de que tem tudo sob controle ferrar as coisas. Retirou seu distintivo holográfico e pressionou o botão de emergência, as luzes se apagaram.
— Detetive, eu conheço um desses...Infelizmente seu sinal não sairá daqui, eu preparei bem esse lugar. – O som de um objeto metálico batendo ecoou.
Quando as luzes se acenderam, nas paredes não haviam mais panos. O que antes estava coberto agora era mostrado: A mesma imagem da cena do crime com os corpos mutilados foi reproduzida nas paredes. Olhou por um breve segundo e depois tentou desviar seu olhar o máximo possível, não queria enxergar aquela visão dos corpos mutilados pessoalmente. Hal começou a pressionar o botão de emergência muitas vezes, igual ao elevador, esperando que desse certo mas no fundo soube que não daria.
— Revele-se! – Suor frio escorreu pela sua testa, afrouxou sua gravata com a mão direita olhando para os lados intesamente, tentando evitar a visão dos corpos pendurados de todos os jeitos possíveis, procurando o algoz dessa gente.
— Esse chapéu que você usa, Detetive. Pertence a mim.
— Não! Pertence a Howard Murray! Quem você sequestrou e matou! – O nervosismo de Hal atrapalhou sua percepção, pensou que havia começado a alucinar. No canto da sala, em meio a caixas bagunçadas e outros objetos que não conseguiu distinguir, percebeu um chapéu similar ao que usava, e uma cabeça em baixo. Sem demora alguma atirou com fogo rápido na direção. Ouviu as balas quebrarem vidros e derrubarem as caixas. Barulho de passos em seguida, e uma luz surgindo da parede perto dali, parecia uma porta se abrindo. Correu em direção, respiração rápida e o suor aumentando. O medo já havia engolido quase ele inteiro. Conseguiu sentir sua mais pura forma nas veias.
No momento em que foi passar pela porta, sentiu seu tornozelo arrebentando um pequeno fio. Em meio segundo escutou um estalo. Quando pôs os pés do outro lado da porta, um peso caiu sobre ele junto de líquido. Foi ao chão batendo sua cabeça, ficou atordoado. Assim que recuperou melhor sua consciência, percebeu que o peso era na verdade um corpo mutilado que havia acabado de cair em cima dele banhado em sangue. Assustado Hal rastejou para longe e encostou suas costas na parede. Toda sua camisa branca agora era vermelha, e seu rosto também. Teve que fazer uma pausa para respirar. Sentado, acendeu um cigarro sujo de sangue nas pontas. A mesma voz que atormentou ele momentos antes saiu de um alto-falante.
— Por que você tem tanto medo, Detetive? Não consegue enxergar a beleza nisso?
Ignorou e se levantou. O que havia em sua frente era uma grande escadaria em espiral com pouca iluminação, começou a subir. O que era medo começou a se transformar em raiva.
— A arte se tornou algo tão obsoleto, vazio! Não vemos mais nada de novo. As pessoas lá em cima só querem saber de consumir e esbanjar no seu mar de dinheiro. Aqui em baixo as pessoas só querem saber de trabalho e usar drogas para preencher suas vidas vazias. Não se faz mais arte como antigamente! Os filmes não são bons, os pintores são horríveis, e os livros piores ainda! Eu tenho certeza que você sabe disso, Detetive!
No fundo algumas coisas Hal sabia que era verdade, mas não tudo, a arte ainda era boa e apreciada.
— É por isso que eu criei minha própria arte! – Cada passo que dava era mais pesado, parecia que iria quebrar os degraus da escada com suas pernas. – A vida humana não tem seu valor reconhecido por aqui, alguém precisa mostrar as pessoas seu verdadeiro valor! Eu sou o pintor!
Que merda esse cara tava falando? Hal pensou. Poderia ele ser realmente Howard Murray? Parou para analisar e ele realmente tinha a voz rouca de um homem velho de 68 anos. Para ele ter energia o suficiente e ter subido todas essas escadas, ele abusou bastante das clínicas rejuvenescedoras.
— Se você consegue me entender, Detetive, dê meia volta e tudo ficará bem! Deixe-me espalhar essa arte para toda essa cidade infernal!
Hal não deu meia volta. Continuou subindo, ensanguetado, terminando seu cigarro. Ao final da subida, tudo que havia era uma porta de ferro similar a do terraço. Uma pequena placa ao lado indicavada: “SALA DE SEGURANÇA”
— Detetive, abrir a porta significará sua morte. Volte para seu carro, para o departamento.
— Talvez eu morra sim, mas quer saber? Perfeito para mim. Modo força. – Levantou sua pistola com a mão esquerda. Segurou seu pulso com a direita para ajudar a segurar o recuo. Atirou uma, duas, três. Realizar tantos disparos seguidos no modo força era arriscado. A porta voou, e a sala depois dela foi completamente estourada. Hal quase caiu do parapeito da escada, seu pulso esquerdo doia. O impulso jogou seu braço para trás e acidentalmente derrubou sua pistola lá em baixo. Sem tempo de descer, caminhou até a sala de segurança destruída. A porta bateu no “Pintor” com força e o jogou contra a parede cheia de telas das câmeras de segurança, machucando suas costas com estilhaços de vidro e o próprio peso da porta ferindo grande parte de seu corpo. Hal retirou a porta de cima dele, segurava uma escopeta Remington 870, pronta para estourar o peito de Hal assim que ele abrisse a porta. Conseguiu olhar para seu rosto pela primeira vez, era de fato Howard Murray. Não portava distintivo, arma da polícia ou qualquer objeto que facilitasse seu rastreamento. Seu chapéu, destruído, seu sobretudo também.
— Acabou, Detetive Murray. Sua carreira de artista se encerra aqui. – Pegou a Remington de suas mãos fracas, não conseguiu nem ao menos abrir sua boca para dizer uma palavra. Hal atirou sem pensar duas vezes e jogou a arma no chão. Desceu as escadas e saiu do edíficio pela porta da frente. Abraçou a chuva. Suas gotas fizeram o sangue de seu rosto escorrer. Quando virou-se para a rua, notou que a velha porta de madeira do edíficio se abriu novamente.
Tentou alcançar sua arma, e então percebeu que não estava com ela. Apesar da escuridão, os brilhos das luzes do outro lado da rua ajudaram ele a enxergar quem saiu da porta, Capitão Wilford. Ficou alguns instantes olhando ele há alguns metros de distância, na chuva, com poças rasas, refletindo as luzes de neon não muito distantes.
— Desculpe duvidar de você, Hal! Você fez um belo trabalho. – Hal permaneceu em silêncio. Wilford retirou uma pistola dos bolsos do terno e arremessou para Hal, ela caiu no chão e deslizou por entre as poças.
— Me esqueci disso, obrigado. – Pegou sua pistola molhada e guardou no coldre da cintura. Caminhou na direção oposta a de Wilford, as pessoas nas ruas nem mesmo repararam no sangue em sua roupa pela pressa em andar na chuva. No meio do caminho para sabe onde se lá ele ia, Hal olhou para uma vitrine de uma loja de roupas baratas, e em um manequim havia um chapéu, muito melhor do que o verde ensanguentado que deixou para trás, junto de um sobretudo. Olhou para seu estado acabado. Olhou para o manequim. Em um tempo chuvoso desses não seria agradável andar sem proteção. Hal percebeu que em uma noite havia mudado, seu medo agora era raiva, um certo desprezo por essa podridão na cidade. Uma noite em Lower City e Hal havia mudado. Se aproximou da porta da loja que abriu automaticamente para comprar suas roupas novas, para sua vida nova.
Fale com o autor