– Aí eu falei que se quisesse alguma coisa, vinha falar comigo, em vez de mandar recado. – Clarisse terminou a história que vinha contando para sua amiga, Lívia, enquanto caminhavam juntas para a faculdade.

– Ei, gostosas, vão me deixar chupar ou não? – gritou um homem apoiado no capô de uma caminhonete parada em frente a uma casa em obras. O carro estava um bocado sujo de terra e tinha adesivos de temas religiosos por todo o para-brisa, em destaque uma figura da Virgem. Quando o homem disse tais palavras, seus companheiros riram e aprovaram o comportamento detestável.

Clarisse fez uma expressão chocada, quando Lívia gritou em resposta, apontando o dedo indicador para o céu azul daquele fim de tarde:

– A Mãe 'tá olhando, viu?

Nesse momento os homens pararam de rir e abaixaram as cabeças, um deles fez o sinal-da-cruz. As moças continuaram a caminhar e quando estavam longe dos distintos cidadãos, Clarisse falou para a amiga:

– Achava que você não era religiosa, Liv.

– Não sou. – Lívia respondeu, com sinceridade — Mas eles, sim.