Ela caminha pela areia.

Carrega um caderno entre os dedos. O vento sopra.

Ela está sozinha, envolta em palavras... \"Penetra surdamente no reino das palavras.\"
Repete mentalmente verso por verso daquele velho poema.
O mar revolto é o mar das letras, é o mar que apaga letras quaisquer desenhadas na areia.

Mas a pequena somente caminha.

\"Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave?\"

Ela abre o pequeno cadeado do caderno. Senta sobre as pedras, fecha os olhos por um segundo, amando o piar das gaivotas. Então ela toma a caneta e escreve, escreve e escreve.

Ela escreverá depois, aninhada na rede da área de casa. E escreverá ainda mais tarde, admirando a noite da cidade da janela do prédio. Mas não tratemos de futuro. Lá está ela, sozinha na praia. E ela escreve.

Notas finais
Nota: Os versos aqui citados são do Carlos Drummond, em "Procura da Poesia".