Contos de Fadas
1 Capítulo 1:Contos de Fadas
Contos de fadas... Quem na verdade acredita em contos de fadas? Confesso que, quando pequena, até gostava de ouvir todas aquelas historias de princesas e príncipes a cavalo. Eu queria ser uma delas... Imaginava que, um dia, meu príncipe chegaria e me acordaria com um beijo. Quando cresci a vida me fez acreditar que contos de fadas não existiam, que sonhar que eles aconteciam era apenas para os fracos. Mas a vida estava errada...
Eu vou explicar por que.
Nasci no Brasil e vivi brasileira por muito, muito tempo. Até que um dia as terras tupiniquins não me atraíram mais e eu decidi ir embora. Destino: Japão! É engraçado lembrar, quando cheguei tudo não parecia tão agradável como a visão da Torre de Tóquio em minha janela. Foi bastante difícil, na verdade. Eu estava sozinha, em um lugar distante, com uma cultura diferente e uma língua que eu não compreendia. E por que eu estava aqui? Porque era meu sonho, e nada neste mundo me faria desistir dele! Recordo-me que quando desci do avião naquele dia, estava nevando e, com o passar do tempo, o frio que estava fora começava a invadir também meu coração. Eu não podia reclamar. Ligar para minha mãe e admitir que ela estivesse certa em dizer que eu sofreria embora fosse isto que estivesse acontecendo. Levei seis meses inteiros para conseguir falar o japonês básico e tive que entrar em um curso intensivo para poder me comunicar com clareza, com isso foi quase um ano perdido. Alugava um pequeno apartamento com umas economias e com o dinheiro que minha família mandava regularmente. Quer dizer, não posso dizer que este primeiro ano foi de todo perdido, pois os cursos que fiz enquanto aprendia o idioma, além de tudo me deram a oportunidade de conseguir um bom emprego. Depois de um ano no Japão consegui trabalhar em uma gravadora que em poucos meses me colocou como a operadora dos computadores em que eram ajustadas as gravações (músicas em sua grande maioria). Tinha um cargo de confiança, ganhava razoavelmente bem e pude mudar de meu pequeno apartamento para uma casinha aconchegante em um bairro simples. É aqui que a historia realmente começa...
Uma das coisas que me recordo com clareza é que, desde que pus meus pés neste país, ouvi falar loucamente sobre esta banda: DBSK ou Tohoshinki. Confesso que achei as músicas interessantes e os rapazes realmente bonitos, ao menos para o padrão. Não posso afirmar, porém que eles tenham me feito suspirar, mas, depois que comecei a trabalhar na gravadora, o nome do Tohoshinki era a meta de todos os diretores e o sonho de todos os funcionários. Eles eram bastante requisitados e fechar uma associação com a produtora dos caras parecia quase impossível. Como neste mundo nada é impossível, quase dois anos depois de ter começado, a tal banda fecha contrato de um mês com a empresa e gravaria ali um cd. Estava um alvoroço quanto ao dia em que eles principiariam, todos queriam a oportunidade de ficar perto em algum momento. Eu, na verdade, agia com real calma. Eles, se quer, me entusiasmaram. Nem sabia quando chegariam da tal turnê enorme em que sempre estavam. Na Coréia ou no Japão, a mim, pouco importava.
Em uma manhã, por ironia, soube que seria eu quem trabalharia com os rapazes exatamente por parecer ser a única a não me importar com a presença deles. Ironia ou não, foi exatamente na mesma manhã em que quase fui demitida! E por quê? Simplesmente porque após sair da sala de reuniões, conversava com uma colega pelos corredores (falava mal do tal Tohoshinki e o quanto seriam antipáticos por serem famosos) quando, ao abrir uma porta que saía em uma ante-sala, esbarrei em alguém e derramei em sua roupa branca toda a minha xícara de café (café era um costume brasileiro que eu jamais dispensava). O rapaz, em uma expressão nítida de desaprovação, arqueou os óculos de sol, e olhou para mim. Nesta hora percebi que se tratava de Yunho, o líder do grupo, que andava a frente de todos! Não posso mensurar o quanto fiquei constrangida. Meus olhos o fitaram incrédula. Perdi meu ar, estava arruinada!
U-Know não sabia o que dizer. Outro integrante, que depois descobri se chamar Jaejoong, aproximou-se de nós e se voltou a mim com expressão engraçada. Seus olhos são grandes e ele os colocou de tal maneira que eles pareceram maiores, enquanto cobria a boca para conter uma risada. Na verdade, todos olharam para mim esperando por minha reação. Eu só consegui pedir mil desculpas e tremer. Para minha infelicidade meu chefe saiu de sua sala por ouvir a conversa nos corredores. Mesmo eu tentando dizer que foi um acidente ele temia que o contrato fosse comprometido. Apenas virou-se e disse
“Retire suas coisas até o meio dia”
E eu, se quer, pude contestar. Abaixei a cabeça e consenti. Para minha sorte, Yunho, que até o momento permaneceu calado e retirava a camisa manchada, falou subitamente
“O que?! Você vai demiti-la só por causa deste acidente?”
Ainda se enxugou um pouco com a roupa antes de entregá-la a um dos assistentes que os acompanhavam. Seu corpo era mais bonito do que aparecia nas fotografias
“A moça não teve culpa, poderia acontecer com qualquer um...”
Meu chefe me olhou pelo canto dos olhos e em um suspiro, tanto de alívio como de conformação, concordou
“Está bem”
“Obrigada” dizia enquanto me abaixava para cumprimentá-los “Não se repetirá!”
“É bom mesmo...”, Yunho me disse indiferente. Logo deu as costas, seguindo o corredor com os outros integrantes e meu chefe, conversando em coreano.
Estava aliviada, mas não sabia como reagir. Então, corri atrás do assistente a quem ele havia entregado a camisa e a pedi. Não havia muito a fazer, mas eu, ao menos, tentaria minimizar as coisas. Implorei para que minha colega, com quem conversava antes, me encobrisse por um pequeno tempo e saí.
Retornei dez minutos depois com uma pequena sacola de papel nas mãos. Os ensaios com os aparelhos ainda não haviam começado. Ainda bem porque se eu cometesse outra gafe como esta, desta vez, não seria perdoada. Esperei pronta no estúdio, ao que eles entraram quase meia hora depois. Confesso que notei um pouco de espanto por parte da banda ao me ver ali, mas como o maior envolvido não pareceu se importar, ou melhor, nem pareceu me notar, tudo perdeu um pouco de tensão com o correr do dia. Eles permaneceram até o fim da tarde, com um intervalo muito curto para o almoço e, mesmo assim, não saíram do prédio. Ao fim do expediente os rapazes se uniram ao meu redor para ouvirem suas performances até o momento e no que poderiam melhorar. Eram simpáticos, apesar de apenas um não ter repetido o gesto... Yunho permaneceu em um canto, conversou com o empresário, mas não se aproximou. Antes de sair, porém, toquei levemente em seu ombro, o que o fez parar. Os outros seguiram, mas ele ficou, me fitando fulminante. Peguei a sacola ao que começou a dizer
“Por favor, se você quer me dar um presente por causa do que aconteceu pela manhã, saiba que não é necessário e...”
“Não!”, eu o interrompi, “Não é isso...”, e o entreguei a sacola.
Ele abriu ainda em expressão de insatisfação. Que se transformou quando viu do que se tratava
“Minha camisa?!”
“Sim... Eu tenho uma amiga que mora perto e ela permitiu que eu lavasse e secasse a blusa lá. Não é muito, mas era o mínimo que eu poderia fazer para tentar me desculpar. Só peço que aceite...”
“Claro...” Ele disse antes de me dar as costas outra vez. E eu me joguei novamente em minha cadeira.
Nos dias que se seguiram eu só tentava me concentrar em meu trabalho e como realizá-lo da melhor forma. Mas Yunho não deixava. Não conseguia estar perto dele sem sentir algo estranho. Uma atração que parecia ser somente atração, mas que não vinha de seu corpo ou de sua bela voz. Era algo diferente, algo que saía de seus olhos todas as vezes que nossos olhares, sem querer, se encontravam. Uma coisa que não me permitia ficar longe, que me mantinha fixa, como se, de alguma forma estranha, ele passasse a ser meu centro de força, meu campo gravitacional. Eu não queria chamar sua atenção e nem podia. Dentro de mim, por mais romântica que algum dia eu tivesse sido, existia algo que dizia que tudo o que havia, e deveria haver, era só profissional. Nada mais...
Exatamente uma semana depois de começados os trabalhos eu já estava muito cansada porque me dedicava ao Tohoshinki ao máximo. Era a primeira a chegar e sempre saía quando quase tudo fechava as portas. Naquele dia, porém, Yunho permanecera até o fim do expediente comigo, pois como líder gostava de ficar e vistoriar as gravações dos outros integrantes quando estes terminavam. A banda era dedicada, repetia todo o trabalho quando se sentiam insatisfeitos, mas nunca tratavam nenhum dos funcionários com grosseria ou indiferença. Pelo contrario, eram sempre educados, gentis, e acima de tudo, brincalhões. U-Know ficava sempre que podia por puro zelo, pois nem sempre havia muito a se corrigir ou comentar. Acho até que seu verdadeiro motivo era saber antes de todos como o cd ia ficar. Enfim, voltando; assim que terminamos de ver tudo desliguei os aparelhos e apaguei as luzes enquanto ele me acompanhava por um instante. Era tarde e todos os outros funcionários já haviam ido embora, menos os diretores. Yunho foi até a garagem buscar seu carro e se despediu de mim normalmente. Apenas educado. Eu saí caminhando pela avenida, pois o caminho para minha casa exigia que eu tomasse um trem. Dez minutos depois, tive a sensação nítida de estar sendo seguida. E estava mesmo! Um carro preto andava lentamente atrás de mim até se por a meu lado (por que desce um medo sinistro pela nossa espinha toda vez que tem um tipo desses na nossa cola?!). Minha respiração disparou, eu conseguia ouvir meu coração. Até que o carro parou... Fiquei muito mais tranqüila quando vi que se tratava de Yunho, que me chamou e sorriu para mim quando abaixou o vidro.
“Se assustou?” ele perguntava enquanto sorria
“Sim” admiti. O que ele pensou?
“Vamos, entre no carro. Eu te dou uma carona até em casa”
Eu hesitei. Não porque pensava em recusar (admito que por um instante pensasse em recusar, mas isso passou logo!), mas porque estava surpresa com a proposta. Por mais educado que ele sempre pareceu ser, nunca imaginei que chegasse a tal extremo. Na verdade, depois achei melhor dizer que não era necessário, que minha casa era longe, que podia ir sozinha. Ao invés disso, fiquei muda.
“Vamos”, ele continuou, “É tarde e eu te segurei na gravadora até agora! Entre...”, apoiou o braço no vidro e a cabeça sobre ele.
Sua voz pareceu tão hipnotizante que não pensei em mais nada e entrei no carro. Expliquei aonde deveríamos ir e ele deu a partida.
Pela primeira vez não nos tratamos como profissionais. Conversamos como velhos conhecidos durante o longo caminho até minha casa. Ele me contou sobre a vida de estrela, algumas coisas sobre sua infância, a dificuldade que era, às vezes, ser líder, e a saudade que ele sentia de casa. Eu também lhe contei alguns pontos de minha vida, mas não falei muita coisa, pois imaginei que ele não quisesse saber. Quando estávamos bem perto pedi que ele parasse. Fiquei com vergonha de lhe mostrar a simplicidade de minha casa dado o luxo do carro em que estávamos.
E foi assim durante o restante da semana. Não digo que não tenha feito amizade com os outros integrantes também, cada um tinha uma qualidade especial: Max era especialmente inteligente, Micky era divertido, mas parecia estar sempre sonolento, Hero vivia fazendo brincadeiras (e arrancando suspiros por onde passava, embora não fosse esta sua intenção!) e Xiah era tão fofo... Mas Yunho, era como se nos déssemos bem naturalmente. Era fácil estar a seu lado porque ele não era esperto demais ou fofo ou brincalhão demais. Ele apenas precisava ser natural para ser encantador. Como rotina, ficava até o fim do expediente e sempre se oferecia para me levar até em casa. Conversávamos, riamos, contávamos historias de nosso passado sejam elas felizes ou que nos arrancassem lagrimas dos olhos. No trabalho as funcionarias que não tinham a permissão de trabalhar diretamente com eles sempre queriam saber alguma coisa. O principal alvo, logicamente, parecia ser Jaejoong. Mas ele estava notadamente desligado para tais assuntos, concentrava-se bastante em sua voz e performance e seus olhos brilhavam as poucas vezes que ele tratava de uma tal estrangeira que o havia deixado e que ele iria buscar.
No sábado da mesma semana saí logo após o almoço. Não antes de tentar algo arriscado. Lembro ainda do que tentei, embora só tenha medido riscos depois
“Yunho?!”, eu o chamei e ele, que conversava com os outros garotos, parou, ainda sorrindo.
“Sim?”
“Você estará muito ocupado amanhã?”
“Por que você quer saber?”, senti medo quando ele respondeu desta forma. Seu sorriso se desfez e suas palavras pareciam um tanto irritadas
“Eu estava pensando...”, nem eu sabia o que dizia, nesta hora só queria sair dali correndo! “Amanhã eu tenho um aniversario de uma amiga. É uma criança, uma garotinha de cinco anos, ela tem problemas mentais porque demorou a nascer. A mãe dela não tem condições para fazer uma festa então eu prometi que iria até lá brincar com ela. Levaria um refrigerante... Eu imaginei se você não gostaria de me acompanhar. Ela gosta muito de vocês, ficaria muito feliz com a surpresa...”
Ele me olhou por um tempo. Fixo. Não dava para imaginar o que se passava por sua mente, mas acredito que, em algum instante, tenha imaginado que eu me usaria de nosso principio de amizade para exibi-lo. Ainda calado, seu rosto se iluminou, ele sorriu para mim e respondeu
“Claro, eu adoraria! Apenas me explique onde é...”
Meu coração aliviou. Dei um ponto de referencia onde poderia buscá-lo até o lugar e saí de lá. Pisando em nuvens...
No dia seguinte, logo no comecinho da tarde, fui até o local que o havia indicado, uma praça, lotada de sakuras e que normalmente ficava vazia. Quando cheguei ele estava lá, em pé e de costas, próximo a uma fonte. Parecia tão descontraído porque usava uma camisa preta e branca dobrada até os cotovelos, bermuda preta nos joelhos, tênis sem meias e um chapéu na cabeça inclinado para um lado. Chamei por seu nome e fui a sua direção. Yunho se voltou a mim com um sorriso lindo, segurava um embrulho com ambas as mãos.
“Você veio!” disse quando me aproximei
“Claro!” ele me olhou por um tempo como se estivesse se perdido em alguma coisa “Olhe como estou! Pareço bem para ir a uma festa? Jaejoong me ajudou a arrumar, mas às vezes ele não acerta!”
Eu sorria enquanto ele fazia pose para me mostrar sua roupa
“Você está ótimo! Nem precisava estar tão elegante, o lugar é muito simples...”
“Eu gosto de impressionar! Ah! Veja, eu comprei um bolo! Uma criança não tem uma festa feliz sem um bolo!”
Ele abriu o embrulho e eu o peguei. Tinha um bolo enorme branco com uma rosa verde no centro, dentro de uma caixa de plástico. Meus olhos se inundaram em lagrimas pelo gesto tão singelo e tão doce ao mesmo tempo
“Eu queria ter comprado um cor de rosa, mas não encontrei. Então vi este e achei tão bonito... e também, eu gosto de verde”
Yunho falava olhando para o bolo, com uma expressão sincera de quem realmente gostava de estar agradando.
“Nossa! É muito lindo! Ela vai ficar muito feliz...”, respondi tentando conter minha emoção
“Por que está chorando?!” ele enxugou minhas lagrimas com os dedos e correu a mão por meu rosto enquanto fazia um biquinho e uma carinha engraçada tentando me animar. Eu sorri e ele tomou o bolo novamente de mim enquanto começávamos a caminhar.
Quando chegamos ao lugar ninguém acreditou. Não havia muitas pessoas, apenas a mãe e uma avó da criança e ela própria muito fofinha em seu vestido amarelo de rendinhas e seus óculos de lentes pesadas. Ao abrir a porta ela sorriu para mim e veio correndo, abraçando-se fortemente as minhas pernas. Eu me abaixei e lhe disse que trazia uma surpresa quando U-Know entrou. As outras duas senhoras na casa ficaram estáticas, mas a garotinha pulava de alegria. Ele se abaixou e a abraçou dando feliz aniversario
“Qual é o seu nome?”, perguntou ainda ajoelhado depois que ela soltou seu pescoço
“Nadeshiko”, ela respondeu com sua doçura de menina
“Que nome mais lindo!” Yunho respondeu igualmente doce “Sabia que o seu nome que dizer rosa?” e ela sacudiu a cabeça negando “Olha só o que eu trouxe para você: um bolo com uma rosa bem linda. Igual a você!”
A garotinha nunca pareceu tão contente. Ela agradeceu e o abraçou novamente, dando-lhe um beijo no rosto. Ele entregou o bolo à mãe da criança e foi puxado para um lado para brincar. Fomos os dois. Naquela tarde eu não sabia quem era mais criança: se a menina, que se divertia com os poucos brinquedos que tinha e com os balões, se eu, que sempre me entretia a seu lado, ou se Yunho, que se esbaldava com as brincadeiras e com as risadas gostosas da garotinha.
Brincamos, pulamos, corremos, rodamos, dançamos, cantamos, comemos bolo e cantamos parabéns e saímos de lá no fim da tarde suados e exaustos, mas satisfeitos. Quando saímos, o acompanhei até a praça em que estivemos anteriormente para que ele voltasse para a companhia do restante da banda. Em silencio até que eu puxasse assunto
“Obrigada mais uma vez por ter vindo e me desculpe por atrapalhar seu dia. Sei que é bastante ocupado...”
“Eu que devo agradecer! Não tinha nada a fazer, hoje era nossa folga! Jaejoong ia ver a mãe que veio aqui visitá-lo, Junsu ia passear com o irmão, que também está aqui, e Changmin e Yoochun iam ao cinema assistir a um filme novo. Eu ia ficar no hotel. Mesmo se tivesse algo eu cancelaria, foi realmente divertido! Só brinquei assim quando era criança... Foi bom!”
Chegamos à praça em poucos minutos. Paramos e ele olhou no fundo dos meus olhos por um pequeno espaço de tempo, sorrindo
“O que foi?” perguntei
Subitamente ele me abraçou
“Obrigado mesmo pelo dia. Há algum tempo não me divirto assim...”
Eu estava sem reação. Meu rosto em chamas. Então, retribuí o abraço. Um taxi passou por lá naquele momento e ele aproveitou para chamá-lo. Entrou rapidamente no carro, notadamente envergonhado
“Nos vemos amanhã na gravadora?”, perguntou antes de sair
“Claro”, respondi com um sorriso, e ele foi embora.
A cabeça que repousei naquela noite era diferente das que repetia o mesmo gesto nos últimos três anos. Yunho era simplesmente encantador e se apaixonar por ele parecia natural. Difícil admitir, mas era isso que estava acontecendo comigo, embora eu não quisesse encarar...
Cheguei para o trabalho no dia seguinte mais animada do que anteriormente. Para minha tristeza, quando os rapazes chegaram, vieram sem seu líder, e eu fiquei o dia inteiro imaginando o que teria acontecido, mas sem coragem nenhuma para perguntar. Sem querer, em um instante ouvi Junsu comentar com Changmin que Yunho ia buscar alguém no aeroporto (quem ele ia buscar?!!), alguém de quem eles dois não gostavam muito (QUEM ERA?!), mas não pude ficar até o fim e saber do que se tratava (DROGA!).
No outro dia, já era fase final da confecção do cd, o Tohoshinki só chegou após o meio dia. Junsu e Changmin à frente, Jaejoong e Yoochun conversando logo atrás e Yunho por ultimo de mãos dadas com uma garota. Ela era bonita, os cabelos longos um pouco acima dos cotovelos pintados de loiro do meio até as pontas e com uma franja desfiada na altura das sobrancelhas, presos por um rabo de cavalo, corpo extremamente magro e esguio, oriental típica com os lábios ligeiramente fartos e dentes exageradamente brancos. Trazia um olhar de superioridade e leve arrogância. Já Yunho tinha os olhos de um pássaro preso. Os garotos me cumprimentaram e ele se aproximou de mim, apresentando-me a moça como sua noiva, ao que ela fez questão de abraçá-lo e mostrar as alianças em seus dedos, afirmando que se casariam no sábado (Como eu não tinha visto aquela aliança em seu dedo antes?! Não, eu tinha certeza que ela nunca esteve lá!). Meu mundo foi ao chão. Eu ainda sorri e os desejei felicidades antes de sair, mas por dentro meu coração estava menor do que uma noz, totalmente machucado. Engoli o nó em minha garganta no momento, para não chorar. Trabalhei normalmente, mas a garota permaneceu lá o tempo inteiro. Pedi para sair mais cedo afirmando não estar me sentindo bem. Saí e voltei diretamente para casa, chorando durante todo o caminho. Eu só queria gritar. Queria que o Japão inteiro soubesse que metade de minha alma tinha morrido naquele momento. Queria que meus olhos ficassem inchados porque eu nunca tinha me apaixonado e já tinha perdido a pessoa mais especial para mim, e afinal, eu sou mulher e não tinha obrigação nenhuma de ser forte. E por fim, queria que Yunho soubesse que seu sorriso iluminava meu dia, me fazia feliz de graça embora ele nunca se esforçasse para tal. Mas agora eu tinha plena certeza de que aquele sorriso lindo seria destinado à outra mulher até o resto de seus dias e isso não era uma coisa que eu pudesse mudar. Arrasada, cheguei em casa e me abracei ao travesseiro rezando para o mundo acabar.
Na manhã seguinte cheguei ao trabalho como se absolutamente nada tivesse acontecido. Os rapazes chegaram para ver os retoques finais das canções, escolher as que iriam para o cd que teria lançamento nas semanas seguintes. Yunho, logicamente, estava entre eles, e tentava conversar comigo mais do que anteriormente, mas eu fazia plena questão de tratá-lo com indiferença. Em minha cabeça era bastante claro que ele era só mais alguém que passava por minha vida e iria embora bem mais cedo do que os demais. Fui embora ao horário de sempre e corri para pegar o trem na hora da saída, para não lhe dar a oportunidade de me oferecer uma carona.
No outro dia a mesma coisa, porém, ao final do expediente U-Know me chamou
“O que aconteceu? Por que você me ignora assim?”, ele tinha uma expressão consternada
Eu, que estava de costas, voltei-me a ele em expressão séria, analisando-o. Parei meus olhos sobre seus braços e puxei-lhe a mão direita
“Por que você não usa aliança quando não está perto de sua noiva?”
Yunho abaixou os olhos, constrangido
“Não sabe que as pessoas podem se confundir?!”, o fitei friamente e soltei sua mão, dando-lhe as costas
“Aonde vai?” ele me disse, segurando-me pelo braço
“Por que te interessa saber? Desculpe Jung Yunho, mas não podemos mais ser amigos. Você vai se casar no sábado, sua noiva deixou bem claro a quem você pertencia. Acho que ela não iria gostar de saber que você tem amizade comigo. E também, não posso ser amiga de alguém sabendo que não é isso que eu quero. Você confunde minha cabeça, e isso não é o melhor para mim.”
Dei-lhe as costas e saí. Sabia que não voltaria a vê-lo porque eu não voltaria mais. Pensei em pedir licença enquanto eles terminavam os trabalhos, mas não podia interromper o meu trabalho pela metade. Decidi que era hora de voltar para casa, para o meu país de origem e acabar com aquela brincadeira. Por hora, sem saber o que fazer, apenas telefonei na manhã seguinte afirmando ter acordado incrivelmente doente. Como jamais havia faltado e o que eu deveria fazer estava quase no fim, fui dispensada. Não sei o que se passou naquele dia, mas sei que Yunho perguntou por mim, pois uma amiga fez questão de me ligar para avisar. Não importava. Nada mais importava...
O que sei sobre aquela sexta-feira foi exatamente o que me contaram, pois eu faltei à empresa novamente e fiquei o dia inteiro na cama, encoberta até as orelhas. Mas soube que o Tohoshinki estava se preparando para o casamento no dia seguinte e por isto não apareceram por lá. Nem apareceriam mais, pois seus deveres haviam se encerrado. Soube que naquele dia Yunho havia saído de carro com a noiva para acertarem os últimos detalhes sobre o casamento, comprarem as ultimas roupas para a viagem, os enfeites derradeiros para o apartamento dos dois. Soube que ela queria a presença de muitos repórteres e por isso, no meio da tarde, ele lhe entregou o carro e disse que queria caminhar e resolveria isto a pé que voltaria para o hotel depois.
Eu, cansada de ficar em casa, num dado momento, decidi sair e ir até o supermercado mais próximo comprar algumas coisas para cozinhar para mim um ramen. Coloquei botas e um sobretudo e peguei um guarda-chuva, pois o dia estava frio e certamente iria chover. E foi exatamente o que aconteceu. Uma tempestade se seguiu enquanto eu ainda fazia compras. Saí de lá e voltei calmamente pela rua vazia até minha casa. Abri o portão e quando me virei para trancá-lo vi, embaixo de um ponto de ônibus imediatamente do outro lado da rua, Yunho, trajando jeans e blusa preta, totalmente encharcado. Tinha os braços cruzados encobrindo-se do frio e me olhava com os olhos de quem pede carinho. Pensei em ignorá-lo. Até virei as costas, mas não podia deixá-lo ali. Voltei
“Yunho! O que faz aqui?” gritei do outro lado do portão
“Estava resolvendo umas coisas aqui perto e me perdi. Parei aqui por causa da chuva!”
“E por que não veio de carro?”
“Preferi vir a pé!”
Difícil acreditar. O bairro era longe da gravadora e do centro. Mas o centro antigo era perto e havia algumas empresas importantes por ali. Ele podia estar falando a verdade
“Ah... Por que não telefona para algum dos meninos para vir buscá-lo?”
Ele tirou o celular do bolso e o desligou disfarçadamente. Eu preferi fingir que não notei
“Sem bateria!”, disse voltando o aparelho a mim. Um relâmpago e um trovão estouraram no momento. A tempestade ficava pior “Não estou aqui por sua causa. Nem sabia que você morava aqui!”, disse tentando se explicar
Outro trovão
“Fala sério?”
“Sério!”
Parei por um instante. Ele ainda estava se molhando
“Yunho! Não quer entrar?! Eu não tenho telefone, mas você pode esperar até a chuva passar!”
Ele terminou de ouvir e atravessou a rua correndo enquanto eu abria o portão para que ele entrasse.
“Não repare a simplicidade de minha casa!”
“É linda sua casa! Aconchegante...”
Eu estava espantada com o comentário. Fui até meu quarto, busquei uma toalha e uma camiseta e short que meu pai havia esquecido em sua ultima visita
“Diga-me, se você não tem telefone como avisou a empresa que estava doente?”, ele quis saber
“Usei o telefone da vizinha, mas ela não está em casa agora. Tome!”, entreguei-lhe as roupas e a toalha “as roupas são do meu pai, ele esqueceu aqui. Não é muito, mas você pode vestir por enquanto até suas roupas secarem...”
Mostrei-lhe o banheiro para que ele se trocasse e fui até a cozinha preparar algo para comer. Voltou pouco tempo depois e estava lindo: a camisa branca lhe caiu perfeitamente, o short estava folgado, em conjunto com seu cabelo molhado... Enfim, lindo! Tomei a roupa de suas mãos e coloquei na secadora. Voltei para a cozinha e terminei o ramen. O ofereci e ele aceitou. Comemos. Em silencio. Ao terminarmos ele tomou nossos pratos e foi até a pia para lavá-los. Eu o impedi
“O que está fazendo?!”, disse tomando um prato de suas mãos
“Vou lavar a louça”
“Nenhum convidado em minha casa lava louças! Sente-se lá!”
“Deixe-me fazer alguma coisa para retribuir sua hospitalidade! Por favor...”
“Não!” disse o encarando
Yunho parou por um instante em meus olhos
“Você não estava doente, não é? Por que não foi trabalhar ontem?”
Eu hesitei em responder. Queria ter dito a ele que era por sua causa, que ele estava acabando com minha vida
“Desculpe, mas não acho que isso lhe interesse...”
“Foi por minha causa, não foi?”
Eu abaixei meus olhos e me distanciei da pia
“Deixe a louça ai e eu as lavarei mais tarde...”
Não tive tempo de reagir, pensar ou terminar a frase. Quando notei, Yunho havia me puxado pelo braço para seu corpo e me beijava ardentemente. No começo até lutei, pensei em resistir, mas seus braços, seu cheiro, seu beijo me dominavam. Estava rendida, presa por um desejo que não podia controlar. Literalmente me joguei em seu colo enquanto íamos em direção a meu quarto e nossas roupas ficavam pelo caminho. Os relâmpagos eram nossa única luz, mas eu não precisava ver. Enquanto a chuva caía lá fora, aqui dentro eu me derramava em luxuria. Ele me envolveu em cada pedaço, em cada espaço. Nenhum canto de mim estava livre de seu toque. Seus lábios estavam em meu pescoço, em meu seio, em meu ventre. Eu me agarrava em seus cabelos e o tomava para mim, pois, naquele momento, aqueles músculos eram só meus. Ele era meu e eu o fiz gemer com todo o meu poder de mulher. Uma, duas, três vezes... Sorvi dele cada grão de prazer que poderia me oferecer. Enlacei suas mãos e fui sua por inteiro e quando acabamos ele envolveu meu corpo e me protegeu do frio. Eu queria que o universo inteiro parasse naquele instante porque ali eu pessoa mais feliz. Uma única noite de amor, e eu não precisava de mais nada...
Quando acordei na manhã seguinte, porém, Yunho não estava a meu lado. Pior, não estava em nenhum lugar. Levantei-me encoberta pelo lençol, chamando por seu nome. Quando cheguei à cozinha a pia estava vazia. Fui até a secadora e suas roupas não estavam lá. Pelo contrario, aquelas que eu o havia emprestado estavam cuidadosamente dobradas sobre a mesa e traziam um bilhete com meu nome por cima. Quando o abri ele trazia a seguinte mensagem:
“Desculpe-me, jamais quis brincar com seus sentimentos. Embora meu coração me peça para ficar, há mais coisas em jogo. Foi minha palavra de homem que dei a outra garota e é ela que estou indo cumprir. Obrigado pela hospitalidade.
Jung Yunho”
Não sei explicar o que senti, mas acho que minha lagrima sobre a ultima frase explica tudo.
Comecei a arrumar minhas coisas, a colocar tudo dentro da mala.
Meus olhos estavam inundados, molhava a mala e a roupa. Eu ia voltar para casa. Naquele momento era a única coisa que eu queria. Arrumei minhas coisas, pois sabia que naquele momento ele deveria estar se arrumando, colocando um terno, penteando os cabelos e indo em direção ao altar, aos braços de outra mulher depois de ter saído dos meus.
Chamei um taxi.
Eu podia ir até a porta da igreja, gritar a todos a verdade, causar um constrangimento na frente da dúzia de fotógrafos que, com certeza, estariam lá. Mas não. Fui ao aeroporto porque, de qualquer forma, meu amor por ele era tão grande que eu queria que ele fosse feliz, mesmo longe de mim.
Mas eu sei o que aconteceu enquanto isso...
Eu sei que, enquanto o taxi corria os poucos quilômetros até o aeroporto Yunho chegava no Audi R8 de Yoochun e os outros vinham no Mercedes de Jaejoong. Sei que enquanto comprava minha passagem e esperava na sala de embarque Changmin perguntava a ele se ele seria capaz de trocar sua felicidade por sua palavra, mas já era tarde para responder porque a marcha nupcial começava a tocar. E sei que na hora de dizer o sim o padre teve que repetir a pergunta, que ele hesitou, e disse não na frente de todos os repórteres. Eu li porque foi manchete nas revistas e nos jornais e sei que Yoochun lhe lançou a chave do carro para que ele corresse enquanto a noiva desmaiava em constrangimento.
O que os repórteres não sabem, pois foram impedidos, é que Yunho foi bater em minha casa e eu já não estava mais lá. E minha vizinha, a mesma mãe da garotinha, avisou que eu tinha partido para o Brasil. Eles não sabem que quando ele chegou lá o avião tinha acabado de sair e ainda nem tinha levantado vôo. E onde eu estava? Eu estava dentro daquele avião, pronta para tomar inúmeros remédios para dormir e rezando para que o Rio de Janeiro estivesse bem perto. Só assim eu deixaria meus problemas naquela terra que eu amava, mas a qual jamais regressaria. Porém, em um dado momento houve uma gritaria e todos os passageiros correram para as janelas do lado direito. O avião repentinamente parou e pediram para que todos os tripulantes descessem, pois um maluco com megafone estava correndo pela pista. Então as pessoas começaram a chamar meu nome, embora ninguém me conhecesse e, quando olhei pela porta, vi uma roda de gente e um monte de carros policiais enquanto lá embaixo um rapaz resistia.
E este rapaz era Yunho...
Aproximei-me da pequena multidão que formava um circulo em volta dele que tinha os braços para trás, lutava e gritava por meu nome. Pedi espaço entre as inúmeras pessoas que pegavam seus celulares para capturar com o melhor ângulo o maior furo do ano. Até que consegui chegar e Yunho, ao ver meu rosto se acalmou
“Yunho! O que está fazendo?!” eu tentei falar baixo, mesmo assim todo o foco se voltou a mim e um silêncio se instalou
“Eu... Ai..” ele gritava devido às torções nos braços “Não vá embora!”
“O que?! Você está louco?!”, então me voltei ao policial que o dominava “Está tudo bem, ele está calmo agora. Pode solta-lo...”
Assim foi feito. Yunho já estava com os cabelos desgrenhados e o terno amassado, um terno preto com colete prata ao fundo, ambos abertos. Concertou o corpo e veio em minha direção
“Perdoe-me. Sei que não deveria ter saído e te deixado sozinha...”
“Espera!”, eu o interrompi “Você não deveria estar se casando agora?!”
“Eu não pude! Não consegui porque, enquanto a noiva entrava era o seu olhar que eu via! Mas quando o padre me perguntou se eu a aceitaria para sempre eu olhei para ela e não vi você!”
“Você tinha uma PALAVRA em jogo, Yunho! E me magoou muito! Certas coisas não se podem perdoar!”
Ele abaixou a cabeça. Quando a levantou uma única lagrima correu seu rosto
“Por favor! Por favor, não me deixe! Não vá embora!”
“Eu nem deveria te escutar. Você não sabe o quanto que eu já chorei por sua causa! Deveria ter ficado na igreja e se casado!”
E eu dei as costas uma ultima vez. Mas ele ainda falou
“Eu te amo! Jamais poderia ficar, dormir e acordar ao lado de alguém querendo ter outra nos braços. E mesmo que eu jamais te visse novamente não poderia me enganar para sempre. Jamais seria inteiramente feliz!”
Eu ainda estava de costas, mas meus olhos já estavam marejados
“Você não me veria nunca mais mesmo...”
Nesta hora uma velhinha que assistia na multidão me estendeu um lenço e disse
“Perdoe-o, minha filha! Olhe o estrago que ele está fazendo por você!”
E então as pessoas ao redor começaram a falar em coro
“Perdoa!”
E logo todas as pessoas que olhavam pelo vidro do aeroporto e todo o aeroporto pedindo para que eu reconsiderasse. Até reconheci os outros Tohoshinki que nos assistia lá de cima, junto ao vidro.
Depois de ver aquilo tudo, voltei-me e encontrei o rosto de Yunho que esperava ansiosamente minha resposta. Eu apenas respirei fundo e decidi...
Decidi dar um chute na vida e seguir meu coração. Viver um conto de fadas. Não importa o quanto o mundo te diga que seus sonhos nunca vão realizar, que o impossível jamais acontece. Meu conto de fadas não tem castelo, mas tem uma torre linda e iluminada na janela de um luxuoso hotel. Eu não perdi um sapatinho de cristal, mas ganhei uma pedra linda em uma das mãos...
Desculpe por não continuar a contar, mas meu príncipe me espera na porta...
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