Notas iniciais
Oi, gente! Desculpe - novamente - a demora. Minhas aulas voltaram e estou tentando me organizar. Mas, nada temam! Eu ainda continuarei a escrever! =)

Quase não dormi naquela noite. A única coisa que me limitei a fazer foi pensar em como eu e Brisa fugiríamos. Pensei bastante e cheguei a várias conclusões. Primeira: não poderíamos ir por terra. Por quê? Porque naquela Floresta existiam muitos perigos — bombas nucleares, ghouls, prédios que poderiam cair a qualquer momento. Sem falar do fato de Brisa estar na mira dos Rastreadores, e eles eram muito, muito rápidos. Não sabe-se como, mas eles atingiam velocidades que chegavam perto da de um guepardo. Mesmo que usássemos nossa agilidade para correr e pular, não conseguiríamos. Eles nos pegariam. Segunda: teríamos que nos mover tão rápido quanto os Rastreadores, coisa que eu achava quase impossível. Se não tivesse fé, eu diria que nós estaríamos mortos mesmo antes de dar um passo. Terceira: se conseguíssemos, de algum modo, nos mover tão rápido quanto eles, ainda assim teríamos que arrumar maneiras de despistá-los ao longo do caminho, e assim ganharmos tempo.

Eu estava seriamente preocupado. Como, por Magna, iríamos percorrer a Floresta sem nos mover por terra, nos moveríamos tão rápido quanto os Rastreadores e os despistaríamos?

Passei a mão por meus cabelos, por meu rosto. Olhei todo o meu quarto, em busca de alguma ideia. Era um cômodo razoavelmente grande, com janelas inteiramente de vidro, que ficavam no alto da parede. Tinha uma luminária controlada por voz que, naquele momento, emanava uma luz fraca, deixando o quarto na penumbra. Na parede haviam portas, que eram do meu guarda-roupas. Numa cômoda grande estavam um aparelho de som e os controles do quarto, além de algumas roupas jogadas. Eu estava em minha cama, que era macia mas que estava desforrada. Os lençóis se encontravam no chão, enrolados. Me levantei com a ideia de pegá-los e levá-los à lavanderia, e abri os braços para me espreguiçar. Nesse momento, recebi uma luz. Asas, pensei, mas é claro!

Corri para a sala de estar. Era de um tamanho razoável, circular e suas paredes tinham cores claras e harmoniosas, como branco, azul claro e amarelo. As poucas janelas que tinha ficavam em uma única parede e mostravam o nosso belo jardim. À esquerda havia uma escada que levava ao andar de cima, onde ficavam os quartos de todos os moradores, fossem eles mestres ou empregados. Os móveis eram um grande sofá vermelho e grande, uma mesa de centro quase transparente, uma enorme estante de metal repleta de livros e várias luminárias espalhadas por todo o cômodo — não eram muitos. Lá, encontrei um Rapu, um aparelho esférico de alta tecnologia usado para pesquisas. Como tudo em Europa, o Rapu funcionava por voz. Sendo assim, falei "asas" e, rapidamente, várias imagens foram projetadas, cada uma com um número, mas nenhuma era a que eu pensava. Então, pensei e imediatamente falei "asas artificiais". Novamente, várias imagens enumeradas apareceram. Olhei, procurei bastante, até que vi a representação de um pequeno apetrecho, marcado com o número catorze. Era um quadrado pequeno, com duas alças, como uma mochila. Era exatamente aquilo que precisava.

Aquele aparelho não tinha um nome, mas sim um código: 1309. Mesmo não tendo nome, ele era conhecido como Aurora, pois a mulher que o havia inventado chamava-se assim. O modo de funcionamento era simples: o Aurora precisaria de uma amostra do DNA da pessoa. Para quê? Para gerar asas anatomicamente boas para ele ou ela. O aparelho também precisaria do dia e da hora do seu nascimento, mas isso era por uma questão de estética. Por exemplo: se você nascesse em um dia bonito e ao nascer do sol, suas asas teriam a cor alaranjada daquele momento.

Com uma exclamação de alegria, comprei e mandei imprimir dois aparelhos– claro, impressoras de alta tecnologia. O problema maior já estava resolvido, porém, eu ainda tinha que descobrir como despistar os Rastreadores, quando Brisa e eu estivéssemos na estrada.

Atraída pelo barulho da impressora, minha mãe veio até a sala para ver quem estava lá e o que estava sendo imprimido.

– Ah, meu filho — disse ela — Que está imprimindo?

– Ahn... — não soube se deveria ou não dizer a verdade, então fiquei calado, olhando para ela.

Minha mãe era muito graciosa. Alta, esguia, com rosto fino e cabelos ruivos, a Sra. Clara andava como se flutuasse, falava como se cantasse ao meu ouvido. Ela me deixava seguro, e era por isso que eu não escondia nada dela.

Após ver o que eu tinha imprimido, ela olhou para mim com seus olhos azuis e brilhantes e balançou a saia de seu belo vestido verde, que tinha detalhes sutis em preto e dourado.

– Filho, eu não me surpreenderia se você quisesse se aventurar pelos ares. — ela falou — Mas aqui há dois aparelhos. Pelo que eu sei, dividir-se em dois não é uma habilidade de um escolhido de Plutão.

– Não é mesmo, minha querida mãe — sorri.

– Certo, meu querido filho. Então, para quem é o outro?

Eu não conseguia mentir para ela. Era uma espécie de deficiência. Parecia que minha mãe conseguia me fazer botar para fora as verdades. Pedi para que ela se sentasse comigo, no sofá, então falei tudo: o dia que conheci Brisa, a escolhida de Apolo, o E-View, como ela era, de onde veio, sua luz, sua habilidade com o arco e com seus poderes, a história dela e a nossa fuga que seria no dia seguinte.

Ela me olhou nos olhos por alguns instantes, e eu sustentei seu olhar. Enquanto nos olhávamos ela parecia analisar cada parte de minha mente, parecia procurar saber se aquilo que eu havia dito era verdade. Isso não me constrangia. Muito pelo contrário, eu sustentava o olhar dela porque gostava que ela soubesse tudo sobre mim. Aquilo criava uma ligação entre nós, e eu me sentia muito feliz por causa disso.

Depois de vários minutos de olhares, minha mãe se levantou e começou a andar por toda a sala. Ela murmurava coisas as quais eu não compreendia, e apertava a cintura, sinal de que estava pensando.

Por fim, ela perguntou:

– Cássio, você sabe que estará correndo sério perigo, não é? Eu já ouvi falar dessa moça. Ela acha que está sendo perseguida porque pensam que ela fugiu, certo? Mas as pessoas têm outras explicações. Uma delas é sequestro.

– O quê? Não... — falei.

– Sim, Cass, sim. Pensam que uma das outras cidades sequestrou a menina por causa da possibilidade de ela virar Imperatriz. Hoje eu fui com seu pai ao Comando, e os funcionários estavam falando exatamente sobre isso! Parece que, se a garota não for encontrada e levada à sua cidade natal em um prazo de quinze dias, Solis declarará guerra às outras cidades de Europa! E isso, meu filho, terá más consequências. Seu pai está preocupadíssimo.

Fiquei parado, com a respiração contida, incrédulo. Eu apenas absorvia as ideias, enquanto isso, minha mãe continuava a falar:

– Você disse que os Rastreadores já estão atrás dela. Certo. Mas, além deles, as outras cidades, temendo a nova guerra, irão colocar, ou até já colocaram, legionários para procurá-la, também.

– Isso dificultará ainda mais a nossa fuga — murmurei, olhando para baixo, para o chão.

– Sim, filho. — concordou minha mãe. Ela sentou ao meu lado — Porém, há uma possibilidade de que as cidades façam uma aliança, peçam paz temporária e mandem poucos legionários, pois os Comandantes já sabem o que os Rastreadores são capazes de fazer. Seu pai já está resolvendo isso e está quase conseguindo. Contudo, ainda não temos nenhuma garantia.

Pensei, pensei, pensei, e achei algo para questionar.

– Por que um sequestro?

– Porque Solis está com uma imagem ruim para as outras cidades, mas o fato dessa garota virar Imperatriz a ajudaria a se reerguer. Solis acha que Brisa causou uma espécie de descontentamento nas outras cidades, levando-as a sequestrar a menina.

– Mas isso não faz sentido! — exclamei, levantando do sofá — A Imperatriz Iracebeth é de Solis e fez muito bem o seu papel! O Comandante de Solis está definitivamente louco!

– Acalme-se, Cass — falou docemente minha mãe — Sei que não faz sentido, mas nem tudo na vida faz. O que eu posso lhe garantir é que sei de várias maneiras que você pode usar para despistar ou atrasar os Rastreadores.

Aquelas palavras me animaram. Abracei minha mãe, erguendo-a do chão, e dei-lhe um beijo antes de fazer a pergunta:

– Quais maneiras?

– Bem, filho, você sabe que eu nem sempre fiquei em casa cuidando de você e de seu irmão. Sabe que eu já fui uma legionária, não sabe? — balancei a cabeça afirmando — Certo. Ser uma legionária teve seus prós. Apesar de ter que treinar sempre, conheci pessoas e fiz amigos, quando parti em algumas missões.

– Sim... — disse eu, na expectativa.

– Alguns desses amigos tinham filhos poderosos, e outros amigos eram poderosos. Mas você deve querer saber quem são. Um deles era Enzo, ele tinha uma filha chamada Amana, que era escolhida de Unda. Também tinha uma amiga chamada Yanna, que tinha um filho escolhido de Animália. Seu nome era Dante. Eu ainda falo com Yanna e Enzo, e os dois me disseram que seus filhos foram procurar seus padrinhos deuses para aprender como controlar e usar seus poderes.

– Certo — assenti — Mas como eles nos ajudarão?

– Isso eu não sei. Você descobrirá lá. A única coisa de que tenho certeza é que eles farão algo para te auxiliar. Bom — minha mãe continuou — eu também lhe disse que tenho um amigo poderoso. Sim, mas não vou poder falar mais que isso. Ele o ajudará quando você precisar, eu providenciarei isso. Mas, cuidado... Ele pode ser um pouco... imprevisível.

– Certo. Obrigado, mãe — agradeci.

Me levantei. Já eram duas da manhã e eu partiria com Brisa dali a algumas horas. Eu precisava descansar, pôr as ideias em ordem, assimilar as informações passadas por minha mãe. E, depois que acordasse, ainda teria que arrumar algumas coisas para a viagem. Porém, minha mãe não parecia ter pressa.

– Cássio — ela chamou.

– Sim? — respondi.

– O que você sente por essa garota?

Aquela pergunta me fez corar. Eu não sabia o que realmente sentia por Brisa. Considerava-a uma amiga, nada mais que isso. Contudo, Brisa era tão independente, tão corajosa, tão... bonita. Eu a admirava. Mas não era uma admiração comum. Era uma admiração, de certa forma, forte. Mais forte do que eu poderia sentir. Eu estava confuso.

A Sra. Clara percebeu. Era incrível como ela conseguia saber tudo o que eu pensava ou sentia. Eu a amava por isso.

– Bom, já que você prefere ficar aí calado — disse ela, mudando de assunto — eu vou dormir.

Ela já estava se retirando e ia para o quarto, quando virou-se e veio até mim.

– Caso não te veja amanhã, meu filho, quero que saiba que eu te amo muito.

– Eu também te amo, mãe.

– Boa noite — disse isso e deu-me um beijo na bochecha.

– Boa noite, mãe.

Fui para o meu quarto com os Aurora e o Rapu, e fiquei pensando. Pensando nas informações, nas dicas e na ajuda que minha mãe me dera. Pensando no perigo que Brisa e eu correríamos. Na incrível velocidade dos Rastreadores. Na pergunta que minha mãe havia me feito. No rubor que havia se apoderado de meu rosto. E no que aconteceria nas horas em que precisássemos de ajuda.

Notas finais
Como sempre, aqui está o glossário! - Animália: deusa dos animais. - Unda: deusa das águas. - Rastreadores: pessoas que foram submetidas a testes com veneno de Ghoul pelos Canalizadores e foram desprovidas de qualquer tipo de sentimento. Usadas como assassinos ou buscadores. Têm habilidades sobre-humanas. - Rapu: da linguagem Maori, significa "pesquisa". Aparelho esférico ativado por voz que é usado em pesquisas. - Aurora ou 1309: aparelho que, pelo DNA da pessoa e de sua data e hora de nascimento, desenvolve asas. - Iracebeth: Terceira Imperatriz de Europa, era uma escolhida da deusa Mirana. - Mirana: deusa da magia. - Aeorien: língua falada pelos deuses. As palavras dessa língua possuem extremo poder e mortais comuns não são capazes de usá-las, apenas deuses e escolhidos. A palavra em si é usada como sinal de paz entre os escolhidos. Também é o nome de uma das cidades de Europa. - Solis: cidade de Brisa. Fica ao leste da Floresta de Frígia. Não é uma cidade muito bem vista, pois abriga muitos canalizadores. Já foi uma das maiores e melhores cidades do império. Tem como patrono o deus Apolo. - E-View: Emotional View. Significa Visão Emocional. É um dom / maldição que poucas pessoas, incluindo Brisa, possuem. Permite que essas pessoas expressem suas emoções através de seus olhos. Pode ser extremamente perigoso. - Plutão: deus do submundo e das riquezas da terra. - Magna: deusa rainha, criadora do universo e mãe dos deuses. - Apolo: deus do Sol, da música, dos oráculos, dos poemas e da verdade. - Égia: cidade de Cássio. É onde se encontra o Senado. Não possui deus patrono. - Floresta de Frígia: Floresta localizada nos limites de Égia. É usada como esconderijo para fugitivos e ghouls. - Ghouls: deuses menores nascidos do nada. Podem assumir qualquer forma. Vagueiam pelo mundo levando todo tipo de infelicidades. Espero que estejam gostando! Beijos, Sunny.