Contos de Depressão
3 Conto 3: O pior reflexo
Notas iniciais
Ela puxava os cabelos, mas nenhum saía. O que ela realmente queria, era sentir a dor do couro cabeludo ser puxado com força. Talvez seguir ao pé da letra algumas ideias bizarras como “camuflar dor com dor” fosse resolver alguma coisa. Ao menos, ela pensava isso.
Sofia estava sentada no chão frio do banheiro. Ela já não aguentava mais ver o seu rosto no reflexo do espelho. Aquele rosto de uma pessoa derrotada e que não presta para nada. Era algo que ela não aguentava mais ver, mas que aprendeu a conviver. Ela só precisava passar dia após dia, sabendo que nunca seria aquilo que os outros queriam. E se ela fosse ser alguma coisa que as pessoas dizem, ela seria a mais inútil de todas.
Ela parava de puxar os cabelos para tentar focar a dor em outra parte do corpo. As mãos apertavam, arranhava e puxava com força, a derme de suas canelas.
Uma agressão física feita por ela mesma era melhor do que a emocional que estava tendo. Ela não parava de chorar. Chegou a gritar que queria logo morrer. Isso estava se tornando muito frequente. Todo dia, para ser mais exato.
Depois de alguns minutos, flagelando sua canela com as mãos, ela as levanta na altura dos olhos. Elas estavam vermelhas. Não só pela força que ela tinha colocado para agredir seu corpo, mas o vermelho que ali estava presente, era um vermelho vivo de sangue. O brilho daquela cor era quase inexistente. Tão inexistente quanto a passagem dela pelo globo terrestre.
Ela tenta se levantar, mas cai. A dor que sentia por causa dos machucados em suas canelas tinha aumentado. O sangue escorria cada vez mais pelos azulejos. As suas duas pernas iriam demorar um pouco para melhorarem.
Mas era melhor ficar largada no chão do banheiro, com as pernas sangrando do que levantar e dar de cara com o reflexo da pessoa mais irrelevante e imprestável do planeta.
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