Era em uma noite como todas as outras que passaram e ainda passarão no dirigível de Zao. Isso é, se esse não for destruído também, pensou Andrei. O teto de sua cabine era simples e blasé: perfeito para sua mente vagar nos eventos recentes. A retomada da universidade poderia ser pior... Mas poderia ser muito melhor também.

Olhou para o lado, procurando um ponto em particular. Entretanto, ao invés do cinzeiro que gostaria de focar seus olhos pararam em dois orbes negros. Zao estava ali, enquanto Andrei novamente se encontrava apenas com suas trajes para dormir. Como naquela noite, Zao estava com seu peito desnudo e com um sorriso sacana nos lábios. Andrei não se importava, no entanto. Porque ele queria, ele precisava daquilo.

E dessa vez ele não hesitaria. Andrei se levantou e assim como naquele dia, jogou Zao direto na cama. O sorriso não sumiu, talvez até alargou. Com as mãos nos pulsos do badhatiano, Andrei se aproximou e fez o que sempre quis desde aquele fatídico momento.

Ele abriu os olhos.

A mesma cena apareceu em sua mente. O mesmo teto entediante, a mesma cama padrão do dirigível de passageiros. Porém nenhum Zao. Andrei colocou as mãos na testa, notando que na realidade só cinco dedos chegaram ao alcançar sua pele. Claro que ele se esqueceu que não tinha outra mão. Até mesmo nos sonhos demoraria um tempo para se acostumar com a perda de seu membro, imagina na vida real?

Meses talvez. Com certeza bem mais do que alguns dias. Resignado, olhou para baixo, na direção das suas pernas. Maldito Zao, malditos sonhos realistas.

Maldito homem que não cumpriu o que prometeu.

Andrei espera que esse zepelim tenha um banheiro decente.

*

Talvez ele não devesse estar fumando num zepelim? Talvez. Na defesa do policial ele não era o único a não respeitar regras. Zao bebia antes de dirigir, por exemplo. Apagou o cigarro com raiva no cinzeiro improvisado, como se o tabaco e a nicotina fossem a fonte dos seus problemas. Dos problemas respiratórios eram, mas também traziam um conforto e um prazer que acalmavam sua mente. E não era esse o lema de sua vida? Seus problemas estavam entrelaçados com o prazer. A essa altura negar era só um pensamento destinado ao fracasso.

Zao não saía de sua cabeça, era fato. Andrei estaria mentindo ao dizer que não se imaginava fazendo aquilo que o badhatiano tanto queria naquela noite. Entretanto, estaria mentindo se dissesse que era pela pura luxúria. Não.

Era pelo jeito que seus olhos escureciam no menor sinal de perigo. Como ele tinha o hábito de saborear cada garrafa que abria, mesmo se não era para ele. Era no pequeno sinal no canto dos lábios e em quão jovem ele parecia quando ria. No senso de humor grosseiro e nas palavras sem jeito. Estava nas pequenas coisas que Zao não percebia que o descreviam muito mais do que ser um “bebum piloto bom com facões”. Pequenas coisas que revelavam o quão ferrado Andrei estava.

Queria muito tacar o cinzeiro, que uma vez fora um copo, na parede. Principalmente na parede da cabine, mesmo onde Andrei estava, já que ouvia cada palavra que Zao dirigia a Ganga. Não no tom costumeiro, mas sim com uma voz tão animada que Andrei quase conseguia provar o sorriso que o objeto de suas afeições carregava. E o fato desse sorriso não estar sendo destinado a ele fazia algo no coração de Andrei doer.

As vozes metálicas continuaram e Andrei só queria gritar para que eles desligassem aquele maldito rádio, já que aparentemente Zao estava tão absorto ao ensinar seu aluno tão querido que esqueceu de desligar esse treco. Andrei procurou abafar o som com seu travesseiro, mas não conseguia abafar suas próprias ideias. Ideias de como Zao estava atenciosamente lidando com o inexperiente (talvez nem tão inexperiente) Ganga, em como eles estavam ali por horas e em como Zao tem ignorado Andrei com fervor desde o incidente da universidade.

Mas ele não ignorou Ganga, ao que parece. Murmurando, Andrei se virou na cama.

— Velho demais uma ova.

*

—Olha só, o zepelim não caiu. – disse Andrei, forçando um sorriso ao entrar na cabine. As bolsas embaixo dos olhos do badhatiano pareciam mais leves depois de um descanso merecido. Ganga se mostrou um bom aluno ao permitir que Zao dormisse algumas horas e não ter explodido o zepelim no processo.

Zao mal tirou os olhos dos botões e alavancas, murmurando algo inaudível.

— Como?

— Eu disse: foi melhor do que eu esperava. – repetiu Zao, dessa vez mais alto.

Andrei se escorou contra a parede, pensativo. Mecanicamente Zao continuou seu processo, ignorando a presença do outro na sala. Minutos se passaram e com eles foi também a paciência de Andrei.

— Ao que parece ele não é velho demais para você. – comentou Andrei, com uma casualidade que não sentia há anos.

O pescoço de Zao virou tão subitamente que o policial pôde ouvir os ossos estalando com a força inesperada.

— Oi? – perguntou, finalmente olhando para Andrei com descrença.

— Eu disse: ele não é velho demais para aprender.

— Não disse.

— Não disse mesmo. Eu só precisava de uma desculpa para você olhar para mim.

Zao franziu o cenho, voltando a olhar para as alavancas. Andrei se aproximou com uma expressão amarga, os dois regulavam na altura, mas a cadeira que Zao estava sentado dava uma vantagem de alguns centímetros para Andrei. Ele se aproveitou dessa vantagem para se inclinar um pouco.

Zao desviou os olhos.

— O que, minha existência te incomoda tanto assim? Ou te enoja?

Era um pensamento escuso, porém recorrente na mente de Andrei. Que algo tenha mudado na estranha relação que os dois mantinham e que fosse tão profundo que nenhuma oferta maliciosa pudesse reverter.

Os olhos de Zao voltaram e encararam os de Andrei, com uma intensidade que não podia mais ser escondida. Surpreso, Andrei cambaleou um pouco para trás com o que aqueles olhos escondiam. Zao se levantou e o segurou pelos abraços, tanto para que recobrasse o equilíbrio quanto para que chamasse atenção para o que iria dizer.

— Não. O que sua “existência” me traz é muito mais estressante do que isso. Quando te vi naquela cama, ensanguentado, queimado... – Zao virou um rosto por um momento, mas Andrei estava atento demais para não perceber a dor que cruzou o rosto do piloto.

— Somos companheiros. Também fiquei assim quando o Alain se machucou, a Clarisse.

— Não! – gritou Zao. Consciente de seu alarde, abaixou a voz para algo semelhante a um sussurro. Andrei nunca tinha ouvido ele falar tão baixo. O homem antes tão expansivo parecia tão quieto que Andrei mal o reconheceria. – Eu sei o que acontece no final da história, quando essa coisa – agarrou o tecido de sua camiseta, como se conseguisse tocar o coração pelo tecido – perigosa aparece.

Hesitante, Andrei perguntou:

— O que acontece, Zao?

Zao apenas sorriu, um sorriso triste e cansado. Alguém da linha de trabalho dele sabia o que gostar de alguém da maneira que Zao gostava dele trazia.

— Dor.

Com confiança, Andrei colocou a mão no braço de Zao.

— É só um alivio, certo? Não tem como trazer dor alguma. – disse, a mão cuidadosamente subindo até o peito de Zao, perto do tecido que antes ele agarrou. Mas diferente do tom angustiado de Zao, o toque de Andrei era... Diferente.

Com a frase do companheiro, Zao sorriu.

— Dor? Depende.

O sorriso de Zao era tudo menos inocente.

*

Em um outro quarto, Violet tentava em vão ignorar certos barulhos vindos da cabine. Continuou a soldar, com uma das mãos doendo pela queimadura (causada pelo Ganga e pela idiotice do Zao) enquanto praguejava sobre parceiros de equipe estúpidos que não sabiam desligar a droga do rádio.