Contos da meia noite
3 Legado
Notas iniciais
Mikaela era uma menina inteligente, do tipo que finge não entender o que os adultos dizem, mas que registra tudo. Que gosta de extrapolar as atividades dos professores, só para ganhar um olhar exasperado da Tia do colégio.
Bom, ela ganharia se pudesse estar na escola.
O ponto é, Mikaela era esperta. E é por isso que ela sabia que sua mãe não estava trabalhando um pouco mais porque “precisavam melhorar as panelas e sua qualidade.” Mãe alisou o cabelo repartido, tentando arrumar o coque. Clara continuou a mexer com seu urso, observando sua mãe pelo espelho. Ela era a mulher mais linda de todo o mundo, Mikaela sabia disso com toda a sabedoria que as crianças têm, do mesmo jeito que o céu é cinza e os adultos são chatos. Tinha um cabelo castanho, que nem o bronze das panelas que fazia e olhos da cor dos lampiões quando se apagam. Ela tinha mais cores ainda, um roxo escuro abaixo dos olhos, um vermelho nas mãos que não ia embora. Sua mãe a percebeu pelo espelho, sorrindo um pouco ao ver sua filha brincar com o ursinho. Mikaela colocou o ursinho de lado, olhando para seu desenho.
Adultos imbecis, ela ia embora trabalhar só por causa deles.
— Hum, o que você está desenhando, amorzinho? – Mamãe abaixou, ficando na altura de Mikaela. A menina escondeu o desenho rapidamente, inflando as bochechas.
— Não!
Sua mãe se assustou, surpresa com o grito de alguém que está acostumada a sussurrar. Mikaela era uma criança quieta, quieta demais, e sua mãe temia que talvez algo de seu marido tenha passado para a menina. Com certeza a inteligência sim. Mikaela continuou olhando para seus pés, segurando o desenho contra as pernas, virado para baixo.
— Desculpa, você não pode ver esse. – A criança murmurou, envergonhada.
Sua mãe sorriu, um sorriso pequeno e tenro que fazia o peito de Mikaela ficar quente como o próprio Sol.
— Tudo bem, Mika. Você fez o que a mamãe pediu?
Mika anuiu com a cabeça, indo buscar seu lampião. A casa era iluminada o suficiente, mas sua mãe estava certa em ter medo. Ainda mais com o Estado de Tenebris. Mikaela não entendia muito bem o que estava acontecendo, muito menos o porquê, mas sabia que era perigoso. Que era por isso que sua mãe mentia sobre fazer utensílios e que a Sra. Kirsh não conseguia mais cuidar dela enquanto sua mãe trabalhava.
Mikaela odiava estar sozinha naquela casa.
— Não abra a porta para ninguém, cuidado com o lampião e fique na sala, está bem? Eu... Eu volto amanhã. Mamãe deixou mingau caso eu não possa chegar antes do café da manhã. – era terrível deixar sua filha sozinha no começo da noite, mas ela não tinha escolha. A fábrica estava pressionada pelo governo, cada vez mais paranoicos com a ameaça da guerra.
Pela luz, ela tinha que fazer balas. Não é mais apenas ameaça.
— Você não está sozinha, lembra? Ele vai te proteger. Não sai de perto da luz. – mamãe plantou um beijinho em sua testa, colocando o ursinho nos braços de Mikaela. Era uma coisa surrada, pequena, que sua mãe comprara um pouco depois que um dos vovôs de Mikaela desapareceu. Mamãe disse que ele estava num lugar diferente do que seu pai, que ele estava com a Luz. Mika ainda estava triste, mas o urso melhorou muito a menina.
Mika observou sua mãe trancar a porta com diversos cadeados, levando o molho de chaves com ela. O bom de ser criança, é que sua cabeça funciona diferente dos adultos. A garota se aproximou de uma das velas da casa, inflando as bochechas o máximo que podia.
E assoprou.
Mika não estava desobedecendo sua mãe, ela só... Apagou as luzes. Mas elas ainda estavam perto dela, apenas não acesas. Seu ursinho começou a se mexer, inquieto. Mikaela observou as patinhas se envolverem em sombras enquanto ela voltava para o único ponto de luz deixado na casa, no centro da sala com o lampião. Mikaela sabia o suficiente do processo para não se assustar com a transformação do urso, preocupada demais com o desenho em suas mãos. O urso flutuou até seu ombro, analisando o desenho curioso.
— A mão esquerda ficou estranha. – a voz distorcida veio do animal, agora um estranho amálgama com um pássaro feito de sombras, bicando o papel. Mika tirou a folha de perto, com medo do pássaro danificar sua obra. Ela suspirou, aliviada com o boneco palito ainda intacto, porém triste com sua falta de habilidade. Poderia ter ficado melhor, mas ela quase não tinha lápis de cor mais.
— Eu sei, eu não consegui fazer certo. Não parece muito mecânica, não é?
O pássaro tombou a cabeça. Sua voz era um eco, masculina, suave e gentil. Falando quase com o mesmo sussurro que Clara normalmente tinha.
— Bom, você pode apagar a mão... Mas eu gostei do detalhe do cigarro.
Mika franziu as sobrancelhas, frustrada.
— Era para ser uma arma.
O bico do pássaro se mudou, numa imitação antinatural de um sorriso.
— Eu sei.
A menina suspirou novamente, colocando o pássaro no breu que agora era o chão da casa. Mika se sentou, colocando o desenho entre o pássaro e o lampião. Ele se aproximou, estando no limiar entre as sombras e a chama. O sorriso continuou, e a suavidade na voz do abutre desapareceu, com uma loucura que poucos se alegram tanto em possuir. Cuidadosamente, ela posicionou a folha, esperando pelo sinal de costume.
— Vamos ver o que seu pai está fazendo, então.
Mika sorriu, feliz. E apagou a luz.
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