Contos da feiticeira

2 A Melodia da Noite


Dó, Ré, Mi. Dó, Ré, Mi. As notas do piano se repetiam, ecoando no grande quarto vazio. Quer dizer, quase vazio, agora ele era ocupado por um piano de madeira, deixado lá mais para enfeitar do que por alguma utilidade, pois o único que sabia tocá-lo era meu pai, que nunca tinha tempo para fazer algo. Eu apertava as mesmas teclas monotonamente, ouvindo o som grave sendo refletido pelas paredes, formando uma espécie de túmulo acústico. As janelas e portas fechadas deixavam aquele quarto escuro, iluminado apenas por uma lâmpada incandescente, e pelo brilho das lantejoulas do vestido de Luna, que girava no centro do quarto, olhando os reflexos de luz que seu vestido criava no teto.

– Como consegue girar por tanto tempo?

– Eu não sei, basta deixar seu peso todo no chão e manter o equilíbrio... Luna continuava girando, sem nem ao menos parar para respirar.

– E como você não fica tonta? Eu provavelmente já teria desmaiado a essa hora.

– Da mesma forma como você consegue não ficar tonta ouvindo essa mesma melodia dezenas de vezes...

– Não é a mesma coisa... Parei de tocar as notas, e Luna rapidamente parou de girar, se virando para mim enquanto sentava no chão de madeira.

– Ah. Estou tonta.

– Eu te disse que você não aguentaria dez minutos disso. Olhei para o cronômetro em cima do piano, marcando cinco minutos.

– Quanto tempo eu aguentei?

– Cinco... Já está melhor do que eu.

– Preciso continuar. Luna se levantou e voltou a girar. Mas por favor... A voz de Luna parecia estar cortada por ondas de ar. Pare com essa música. Toque algo menos medonho.

– Se eu soubesse tocar alguma outra coisa, eu tocaria.

– Bem, então deixe eu te ensinar. Ela girou até o meu lado, e se jogou na cadeira de uma forma muito suave. Coloque sua mão aqui, Dó, Ré, Mi, Fá. Repita a última duas vezes.

– Dó, Ré, Dó, Ré?

– Conhece essa música?

– E quem não conhece? Acho que é a primeira coisa que se aprende na escola. Mas isso nem ao menos conta como música.

– Bem, pelo menos eu tentei. Nós rimos, e ouvimos nossa mãe nos chamando para o jantar, lasanha, com certeza um dos melhores alimentos que existe.

Após a janta, fui para o meu quarto dormir, mas algo estava me deixando inquieta na cama. Eu não sabia o motivo, mas eu não conseguia simplesmente fechar os olhos e descansar. Algo não deixava a minha mente em paz. O desconforto logo virou medo. Minha mãe apagava as luzes de casa, corredor por corredor, até chegar ao meu quarto. Boa noite, Alissa, e apagava a luz, me deixando apenas sob a iluminação da luminária próxima a minha cama. Não, não me pareceu certo. Me levantei da cama, olhei ao redor, observando o relógio dez e meia da noite. Apaguei a luminária e fui até o quarto de minha irmã, onde ela estava escrevendo em um caderno.

– Maninha... Posso dormir com você? devia ser a terceira vez naquele mês em que eu pedia para dormir com a minha irmã.

– Claro. Você sabe que pode. Deite aqui. Luna fez um gesto para que eu deitasse em seu colo, e eu o fiz, me cobrindo com a coberta dela.

– O que está escrevendo?

– Eu não sei... Um poema, talvez.

– Que tal ler para mim?

– Ainda não está pronto. Luna fechou o caderno, e o colocou na prateleira que ficava na parede, acima de sua cama.

– Eles nunca estão...

– Shiu, vá dormir, maninha.

Eu estava quase conseguindo dormir, o colo de minha irmã conseguia me deixar calma em qualquer situação, mas algo simplesmente me impediu de dormir... Uma melodia, vinda do piano no primeiro andar. Era uma música sombria, que repetia sempre as mesmas cinco notas que eu não consegui identificar. Cutuquei minha irmã, que parecia estar ouvindo a mesma melodia, e então resolvemos descer.

A cada passo dado no corredor, mais próxima ficava a melodia. Sombria como a noite, me amedrontava cada vez mais. Eu me agarrava ao braço de Luna, enquanto descíamos as escadas, e abríamos a porta do quarto onde estava o piano vazio. Um calafrio percorreu a minha coluna. Eu preferia enfrentar um invasor do que ver o quarto totalmente vazio. A música parou de tocar assim que botamos um pé no quarto. Luna andou até o piano, e eu me segurei na porta, sussurrando para que ela voltasse, com medo, mas ela me ignorou e levantou a tampa do piano. Nada. Não havia nada de diferente naquele quarto. Saltitei até o braço de Luna, me agarrando a ele novamente, e subimos de volta para o quarto dela. Me deitei novamente pensando em alguma explicação lógica para o som, mas não encontrei nenhuma. Luna estava calada, deitada, olhando para o teto estrelado.

– Lu, o que acha que foi aquela música? Eu falava o mais baixo possível, não gostava de fazer barulho á noite.

– Eu não sei, mas já acabou, vamos apenas ignorar...

– Certo. Não seria a primeira vez que ignoraríamos alguma coisa estranha, geralmente, a melhor coisa que se pode fazer morando em uma casa assombrada é ignorar.

– Mas ainda assim... Isso foi muito estranho.

– Eu sei. Mas vamos apenas... A música voltou a tocar, me impedindo de terminar a frase. Tocava em um som alto o suficiente para incomodar, mas baixo demais para acordar meus pais.

– Droga. Ela voltou.

Nos levantamos novamente, e dessa vez fomos no quarto dos meus pais. Estavam dormindo, e assim que eu entrei no quarto para acordá-los, a melodia cessou, e após alguns segundos de silêncio, uma nota muito aguda começou a tocar, como um sinal de alerta, apenas parando quando eu deixei o quarto.

Luna e eu nos encaramos por alguns segundos, e então a melodia voltou a tocar, com mais intensidade, e ainda mais sombria.

– Vamos voltar para a cama...

– Não, a música não vai parar se voltarmos. Eu tinha medo que Luna dissesse isso.

– E o que pretende fazer?

– Descobrir quem está fazendo isso e pedir para parar...

– Mas... O quarto estava vazio...

– Não espero que seja alguém vivo. Olha, Alissa, se quiser ficar aqui em cima, pode ficar, mas eu vou...

– Não, eu vou com você.

Chegamos no quarto, e assim que entramos, a melodia parou novamente. Eu percebi naquele momento que o que quer que fosse aquilo, queria que a gente ficasse no quarto. Luna sentou no chão, e eu sentei ao seu lado. Ela então fechou os olhos e perguntou quem está aí?. O local ficou em silêncio por algum tempo, e Luna se deitou no chão, olhando para mim e dizendo que não devia ser nada demais. Então o piano voltou a tocar, uma melodia calma, e em um tom bem baixo, como uma canção para fazer uma criança adormecer... E estava fazendo efeito. Me deitei no colo de minha irmã e fechei os olhos, só abrindo novamente com minha mão nos acordando. Olhei ao redor, estava claro, nós havíamos passado a noite inteira ali, no chão. Minha mãe perguntou por que estávamos ali, mas eu não queria dizer o motivo, aparentemente, seja lá o que estivesse criando a canção não queria que meus pais soubessem.

O restante do dia foi normal, era um domingo meio parado, como sempre. Durante a tarde, fiquei assistindo filmes com Luna, enquanto ela escrevia alguma coisa, que não queria me mostrar. De noite, eu estava deitada em minha cama, tentando me livrar dos pensamentos sombrios que invadiam a minha mente, quando voltei a ouvir a melodia. Fui até o quarto de Luna, e ela não estava lá, o que me deixou um pouco preocupada. Resolvi descer, e cheguei no quarto do piano, onde a porta estava fechada. Respirei fundo e abri a porta, vendo minha irmã tocando a melodia. Eu tentei chama-la, mas ela me ignorou, então caminhei até ela e a cutuquei, mas ela continuou me ignorando. Ela olhava para o piano como se estivesse enfeitiçada, e não parava de tocar aquela música. Tentei chama-la várias vezes, em vão. Então resolvi puxá-la para longe do piano, preocupada, mas ela continuava encarando o objeto, ignorando totalmente a situação, enquanto o piano continuava tocando a melodia.

– Luna! Acorde!

– Não acho que ela queira acordar... Uma voz sombria vindo do fundo do quarto me fez entrar em pânico. Eu senti cada parte do meu corpo congelando com medo.

– Quem é você?

– Por que não se junta a nós para tocar? O rapaz que saía das sombras usava um terno preto, e tinha um sorriso estranho. Ele tentou se aproximar de mim, mas eu me afastei.

– O que está fazendo na minha casa?

– Ela é tão linda, não? Ele passava a mão no rosto de minha irmã, que continuava tocando o piano. E toca muito bem, não acha?

– Fique longe de minha irmã!

– Sabe, vocês possuem algo meu, nada mais justo do que me pagarem por isso.

– Não pegamos nada de você. Vá embora. Luna parou de tocar o piano, e colocou as mãos no colo, olhando para baixo, como uma boneca de pano.

– Meu piano. Vocês o trouxeram para cá, então tornaram esse quarto a minha casa. Vocês aceitaram dormir comigo, na minha casa, por que ir embora agora?

– Essa casa é minha, não sua! O que fez com a minha irmã?

– Eu apenas toquei uma música para ela dormir. Sabe, se você quer ter alguma energia, precisa tirá-la de algum lugar. E a sua irmã está me dando bastante energia.

– Você é algum tipo de vampiro?

– Vampiro? Não acredita mesmo nessas coisas, não é? Eu sou uma pessoa normal, mas a minha energia acabou... E então eu morri, tocando este piano, essa mesma melodia, que nunca terminei...

– E o que nós temos com isso? Se você morreu, o problema é seu.

– ...Mas sua irmã está tocando tão bem. Assim que ela terminar essa melodia para mim, eu terei toda a energia dela, e estarei mais vivo do que nunca. Uma pena que ela não terá mais nenhuma para acordar após isso. O rapaz estalou os dedos, e Luna se levantou, voltando a tocar a melodia.

– Faça ela parar! Você está fazendo mal a ela!

– Vocês me colocaram aqui dentro e me ofereceram esse banquete, e agora quer que eu vá embora?

– Leve seu maldito piano com você! Apenas nos deixe em paz!

– Lamento, pequena, mas isso não vai acontecer. Apenas aprecie a música...

Eu estava em pânico, todos os meus esforços para fazer Luna parar de tocar eram em vão, e a cada nova nota, era uma esperança a menos que eu tinha de salvar Luna. Então eu ouvi uma voz vinda da porta. Minha mãe, que entrava segurando um pote de sal, e gritava para eu me afastar de Luna. Minha mãe fez um círculo de sal ao redor de minha irmã, que parou de tocar assim que o círculo foi fechado.

– Alissa, vá para o seu quarto!

– Mãe, não posso deixar Luna aqui!

– Ela está protegida enquanto estiver no círculo. Preciso que você vá para o seu quarto e pegue um pote que está em cima do seu armário! Agora!

– Um pote? Que pote?

– Corre!

Corri para meu quarto, e me apoiei entre a parede e o armário para subir nele. Lá em cima havia uma caixa de papelão, e dentro dela estavam algumas velas e um pote com um pó marrom alaranjado, parecendo barro. Peguei o pote e levei para minha mãe, que estava refazendo o círculo de sal que estava sendo constantemente assoprado por um vento que não parecia estar vindo de lugar nenhum. Joguei o pote para ela, e ela começou a derramá-lo no chão, fazendo outro círculo ao redor de Luna, que agora estava caída no chão. O pó de barro não se movia com o vento, embora o sal estivesse todo indo embora. Minha mãe então colocou a mão em cima de Luna, e disse algumas palavras que eu não consegui entender. Minha irmã abriu os olhos, que estavam totalmente negros, e minha mãe pulou para fora do círculo, e Luna tentou segui-la, mas não conseguia passar pela linha de barro.

– Alissa, agora preciso que vá para a cozinha e pegue álcool e fósforos.

– Você vai tacar fogo em que?

– Precisamos destruir o piano!

Corri para a cozinha, pegando uma garrafa de álcool e uma caixa de fósforos, e as entreguei para a minha mãe, que me deu o pote de barro, me mandando fazer um caminho seguro para fora da casa. Fiz uma trilha saindo do círculo até a porta da casa, e arrastei Luna por ela, enquanto minha mãe incendiava o piano. Luna apagou em meus braços.

Em alguns minutos, os bombeiros chegaram na minha casa para apagar o incêndio que minha mãe formou, enquanto meu pai parecia desesperado para saber o motivo daquilo. Fui falar com a minha mãe para entender o que aconteceu, mas ela disse que não podia nos falar ainda. Eu aceitei, e sentei ao lado de Luna, na calçada. Ela olhou para mim, e pegou uma folha de papel dobrada em seu bolso.

– Eu terminei de escrever, quer ler?

– No meio de toda essa confusão, você está preocupada com isso?

– Eu já estou acostumada com essas coisas, mas entendo se você não quiser ver... Luna tentou guardar o papel de volta, mas eu o puxei de sua mão.

– Me dê isso. Abri o papel, e lá estava o texto que Luna passou um final de semana tentando escrever:

Ouvimos todo dia a mesma melodia da vida.

Todo dia, uma nova nota para a mesma canção.

Repetidamente, as notas tocam,

O som ausente da harmonia,

Compondo essa nova música que conta uma história.

Uma história com um final esperado.

Não há como muda-lo,

Não há como escapá-lo.

Apenas podemos continuar tocando em direção a ele.

Mas podemos tocar de formas diferentes.

Podemos mudar as notas nessa canção,

Faremos um dueto, um longo dueto.

Podemos prolongar essa canção,

Mas sabemos que terá um fim.

Tudo tem um fim.

Olhei para Luna, que estava encolhida, com frio, e a abracei, lhe entregando seu poema.

– Você gostou?

– Sim, é um dos melhores.

– Não é não, você está sendo gentil.

– Para quem você o escreveu? Está apaixonada de novo?

– Não mesmo. Eu escrevi para alguém que sei que sempre estará comigo, minha melhor amiga.

– E quem seria essa?

– Uma garota aí chamada Alissa, conhece? Luna deu uma risadinha, enquanto olhava para mim.

– Alissa? Não conheço não, mas para ser sua melhor amiga deve ser realmente uma pessoa legal.

Eu olhava para casa, e minha mãe nos chamava para entrar, pois o fogo já havia sido apagado, e o piano retirado de casa. Eu fui tomar banho para me livrar da sujeira deixada pelo pó de barro, e me deitei na cama de Luna, fechando os olhos, e fiquei feliz, pois a única melodia que eu ouvia era a de Luna cantando para mim.

Notas finais
Curiosidade: A mãe das irmãs se chama Amélia (embora seu nome não tenha sido citado na história). Ela é uma bruxa, mas parou de praticar feitiçaria quando era jovem, pois seus pais consideravam isso errado. Amélia quer que suas filhas pratiquem feitiçaria, mas só depois que elas estiverem um pouco mais velhas, quando tiverem "responsabilidade". Até lá, Amélia mantém em segredo o fato de as três serem bruxas.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.