Contos da Terra das Cinzas.

1 Capítulo 1-As treze Luzes de Sebbach


Notas iniciais
Esse é o um dos primeiros dos muito contos que se sucederão sobre a Terra das Cinzas. É o meu primeiro conto, espero que gostem. NOTA: Realizei algumas correções de texto para tornar mais agradável a leitura.

As Treze Luzes de Sebbach

''...e contemplei a corte diamantina. Eram incontáveis reis e rainhas, príncipes e princesas de uma época muito recuada no tempo. Flutuavam resplandecentes no negror celeste. Sim, eu os vi, mas não através de meus olhos...''

A viagem de Hoammar, o Noivo Peregrino.

O cômodo era abafado e úmido. Um baixo candelabro rústico de cobre iluminava a ampla cabine de Medheim, o capitão do Flecha Sangrenta. As paredes vestiam-se de exóticas tapeçarias vermelho grená bordadas em dourado com reis esquecidos do Continente Despedaçado de Huulsan. O capitão sentava-se numa poltrona de mogno, acolchoada com uma escamosa pele reptiliana do distante Vilarejo do Lagarto. Era um homem com o rosto já marcado pelo tempo. Mantinha na cabeça uma longa trança oleosa mordida por inúmeros anéis dourados. De porte alto e avultado, ele vestia-se com um corselete de couro sobre o peito nu pintado de arabescos. Trajava calças largas de seda enfiadas em botas couraçadas de cano alto. Na bainha entalhada em prata, descansava um enorme punhal com rubis engastados no cabo dourado adjacente a uma delgada flauta de aspeco osseo. O homem exalava um perfume doce proveniente dos exóticos extratos de Nutt-Laeg. Com o semblante sombrio e lábios untuosos, o capitão dispunha as mãos em capela fitando os improváveis visitantes.

– Oh, será que afoguei meus modos? Vamos, bebam comigo? Sangue-de-Porco? Tenho uma garrafa de Fogo Selvagem bem aqui – Medheim apontou com o queixo para uma garrafa vítrea de tom escarlate na mesa a sua frente. O reluzir das velas negras no candelabro era frenético . – Bebam, relaxem os musculos, suponho que viajaram léguas e léguas. – sugeriu o homem. – Acreditem, seria decepcionante para Medheim a fama de um capitão descortês com seus convidados.

Os enormes olhos azuis de Aya penetravam no chamejar das velas refletidas na garrafa de Fogo Selvagem. Lembranças surgiam, pois tudo começara com fogo. Veio também a lamúria das mulheres e crianças e depois os latidos dos cães. Não o ladrar dos cães do seu vilarejo a beira do rio Ohad, mas das enormes bestas peludas que acompanhavam os Tutores do Príncipe, sempre ameaçadores em suas grandiosas armaduras de ébano. Os Tutores respondiam a seus senhores, os príncipes divinos, cujo poder e soberania estendem-se pelas sete cidades-estados da Terra das Cinzas. Quando as treze luzes nas torres do mar do tormento se extinguem, os poderosos senhores vomitam de seus domínios os impiedosos guerreiros com seus chicotes para capturarem virgens nascidas com a Marca da Meretriz de Heeikal. Durante o ataque Aya perdera sua mãe, Ayana, e seu irmão, o bebe Arden, ambos devorados pelos cães cruéis dos Tutores. Seu pai, junto com todos os homens do vilarejo, queimou numa enorme pira erigida pelos cruéis caçadores de virgens. Esses dias se cristalizaram em seus pensamentos, assim como a marca de nascença em sua fronte.

– Apreciaria a companhia dessa apetitosa moça numa rodada – observou o capitão. Dessa vez apresentou-se como um predador pervertido.

Cas afagou o polegar no cabo do punhal oculto sob seu manto verde musgo. Avançou um passo e enlaçou com firmeza a mão no punhal.

–Sim. Eu aceito, por favor – a voz de Aya saiu tímida e assustada. Cas parou e olhou de soslaio para Aya.

–Você não vai beber — determinou Cas. O capitão encarou Cas com um sorriso fechado.

–A moça é quem decide, seu afeminado – intrometeu-se o capitão.

–Vou beber, Cas – retrucou Aya. – O capitão está sendo muito gentil conosco, é justo agirmos com humildade. – Aya tinha razão. Medheim era o mais vaidoso do porto da cidade-estado de Kianlidis, empreendeu viagens desde Ezdair à Distante Ardandt e até a Montanha-Lua segundo os boatos que correm pelas tavernas de todo o Mar do Tormento. Fora uma façanha marcar uma negociação com o pomposo capitão, visto a situação deteriorada dos visitantes. A visão de dois viajantes maltrapilhos com rostos sujos de cinzas seria repugnante para o capitão, digna de menosprezo. Um de seus homens, o mestre Aldur, relatou para o capitão sobre a moça com formosos olhos azul cristalino. A luxuria de Medheim apressou-se em vencer sua soberba, pois tratando-se de saudáveis beldades, sejam moças, sejam rapazes, o capitão não limita-se à sua pompa.

– Delicie-se, é uma bebida rara, embora forte para uma moçoila de beleza singular. – atacou Medheim. Ele despejou o conteúdo da garrafa numa taça prateada.

– Nos disseram que uma vez viajou até a Montanha-Lua. – interrompeu Cas. – Queremos chegar lá. – O pálido e franzino rapaz mostrava-se resoluto.

– Oh, sim, claro que quer, meu belo rapaz. – o capitão inclinou o corpo pra frente da poltrona e encarou Cas com um sorrisso, os dentes amarelados à amostra. – Cada rato imundo, prostituta e cão falam da minha fabulosa ida até a espetacular Montanha-Lua. O que dois mendigos iriam fazer na Montanha-Lua?

– Precisamos apenas ir. É tudo que deve saber. Qual seu preço? — inquiriu Cas.

–Não existe um preço, seu rato arrogante. Não um que se possa pagar com ouro ou água–boa. – O capitão levantou-se bruscamente e caminhou até Cas. Repentinamente segurou em seu pescoço com força, estrangulando-o. A destreza de Cas falhou em se esquivar dos nodosos dedos do capitão.

–Rato petulante! Tomam-me por tolo ? O navio é um templo sagrado para um homem do mar, sabia cachorrinho? – Cas tentava se desvencilhar das mãos pesadas de Medheim sem sucesso. –Vêm até aqui com a pretensão de chegar a uma montanha mágica às minhas custas? Pois eu te digo seu verme, só permiti a graça de minha presença por conta da sua bela putinha de olhos azuis. – Medheim jogou Cas contra a parede com força e pressionou forçosamente seus grossos lábios aos do franzino rapaz.

– Já esteve com um homem, menino? – perguntou Medheim. – Primeiro ela, depois você. – determinou o homem. Em seguida, voltou-se para a moça. Ela testemunhava tudo como um animal acuado. Seus divinais olhos marejavam como se um mar azul cristalino estivesse rompendo por eles. Medheim desceu seu rosto até o de Aya, ficou próximo a ponto da moça sentir o estertor repugnante do capitão.

–Ah, minha querida. De quem são esses olhos? Sua mãe fodeu com algum deus? Já naveguei por todos os mares antes de Huulsan, atraquei em todas as cidades costeiras dessa terra maldita. Ezdair, Zofir, Distante Ardant, até naquela ilha imunda de Nutt-Laeg. Nunca forniquei com moça ou rapaz com esses olhos tão celestiais... Seria delicioso fornicar com você...

– Por favor... – sua voz era pânico; seu corpo, tremor. Sentia horror àquele homem cujo agir alternava entre a vulgaridade e perspicácia. Medheim tocou seu ombro, apertando-o. Em seguida, com a outra mão tocou no seu capuz, o jogou para traz revelando um lenço preto envolto em sua cabeça.

– Porque o lenço, querida? – o capitão agora se aproximou do ouvido de Aya. – Você devia deixar seu cabelo livre. Aposto um dedo que eles são lindos, vamos, revele-os pra mim... – O capitão então, aos poucos, ergueu o lenço até desnudar a cabeça de Aya. E seus finos cabelos despencaram longos e escuros. E a marca também surgiu. Emitia uma pálida e azulada luz. Era como padrões de finos traços circunscritos profundamente na sedosa cútis branca de Aya.

– Por favor, por favor, por favor... Não me entregue pra eles, não me entregue pra eles... –sussurrou Aya de olhos cerrados, o tom desesperado do seu implorar atraiu um penetrante olhar de Cas em sua direção. ''Nenhum mal vai te acontecer'' – ouviu Aya no fundo de sua mente.

– Não, não. Vou foder com você, isso sim! – ameaçou o capitão. – O seu namoradinho pode assistir, até se juntar a nós, caso deseje. – Com seus braços roliços o capitão levantou a aterrorizada Aya, a jogou abruptamente na mesa e começou a despi-la com selvageria.

Cas procurava um apoio firme ao longo da parede, suas costas ardiam em dor, o baque fora violento. Encontrou a bainha do tapete preso à parede. Lembranças da distante Albra bombardearam com celeridade sua mente, a humilde choupana que compartilhava com a mãe, o pai, o avô, os tios e primos, todos que um dia amou foram brutalmente aniquilados sob aquele teto humilde. Preferia morrer a se recordar das lembranças felizes, isso o esfaqueava impiedosamente. Ele e Aya debandaram às pressas quando os Tutores caíram sobre eles, nutria ódio profundo por aqueles malditos e também por seus mestres, os príncipes tirânicos que ditara morte e depravação. Cas conseguiu firmar a perna direita no chão, ela formigava, morta. Elevou o tronco alguns centímetros. Tal como um aleijado lutando para ficar de pé pela primeira vez, exaustivamente tentava envigorar seus ombros, pernas e braços. Em pé, seu corpo tentava reestabelecer a força, o equilíbrio. O capitão despira a moça até a cintura, estraçalhara a sedosa roupa de baixo sob a túnica expondo seu sexo. O brutal homem preparava-se para desabotoar seu luxuoso cinto quando percebeu a aproximação lenta e desajeitada de Cas. O rapaz empunhava sua longa adaga a frente do peito. Andava lentamente, um passo de cada vez. Seu braço tremia. ‘’Maldição, minha perna dorme’’ pensou. As chamas das velas no candelabro dançavam no lustroso metal do rapaz. O capitão olhou por cima do ombro na direção do menino, primeiro encarou seus olhos, depois a arma.

– Você é impaciente, cachorrinho. – rosnou Medheim. – Sua vez chegará. Não vai me ferir com isso. Não pode. – Cas aproximou-se o suficiente para arriscar uma estocada. Aya estava oculta atrás do imenso homem, choramingando baixinho. A moça aprendera a emudecer seu sofrimento, sentia pavor em ser denunciada por seus próprios lamentos. ‘’Os Tutores podem estar à espreita’’, temia.

Medheim entretinha-se com sua calça, o cinto já repousava sobre a mesa. O violentador expora seu membro, forçava agora o abrir das pernas de Aya. A moça aumentou o tom de seus gemidos desesperados gradativamente. Gritou.

– Nãooo!!!!! – berrou Aya.

Cas foi corajoso. Era necessário ser.

A carne do capitão sentiu o sabor do seu punhal. A lâmina afundou até o cabo num golpe de destreza. Um som gutural e abafado ecoou. Medheim virou-se, o punhal cravado no seu ombro esquerdo, o rosto encharcado de suor. Um, dois, três passos pra frente. Cas já recuava. Um, dois, três passos pra trás. A boca de Medheim sorria; a do rapaz estremecia. A pesada bota de Medheim encontrou o estomago de Cas com força. ‘’Acabou.’’ pensou o menino. Aturdido, veio o sentimento de impotência. O capitão retirou lentamente o punhal das costas, lambeu-o e apontou para o rosto de Cas.

– Insistência é seu forte, não? Quem sou eu para recusá-lo? Isso vai ser bonito, cachorrinho... Muito bonito... – Violentamente, o rude capitão levantou Cas e o pressionou à parede, virou-o de costas. – Vou te foder, cachorrinho. Vou te foder enquanto morre. – Escutava a maligna ameaça atrás de si. A mão direita de Medheim alcançou a corrente de aço no fino pescoço de Cas. O homem brutal puxava. Puxava e puxava até minar sangue do pescoço do menino. ‘’Vovô’’, pensou. Aquele colar fora dado pelo avô durante uma caçada. Lágrimas escorregavam pelas bochechas do rapaz. A outra mão do capitão encontrou o cinto de Cas, com o punhal, o rasgou. No momento seguinte as calças do garoto estavam no chão. ‘’Acabou.’’ pensou novamente. ‘’Acabou.’’– Me beije, menino. – Ouviu o som sussurrante em seu ouvido. Medheim deslocou a cabeça de Cas para mirar sua boca à dele. – Me beije, putinha. – ordenou. Cas o beijou, mas o beijo era temperado com sangue.

Um urro violento reverberou no ar.

A boca de Medheim era uma ruína sangrenta, seu lábio inferior pendia apenas por um fio de carne. Aya gritava.

– Aaaaaaaaaargghh! Maldito! – rugia o capitão tapando a boca destroçada com as mãos. Nascia ali uma abundante fonte de sangue. A dor pungente o cegou, fazendo-o abalroar com as costas na mesa onde se encontrava Aya. Cas parcialmente reestabeleceu a vontade de continuar vivo, de revidar. Notou que o capitão abandonara seu punhal no chão. Enquanto Medheim ensandecidamente dançava com a dor, o rapaz investiu pela segunda vez a lamina contra o capitão. O golpe somente relou a costela do alvo, erro suficiente para Medheim revidar. O furioso capitão sorria novamente. Um gorgolejante sorriso macabro.

– Foi um erro vir aqui, cachorrinho. – Sangue minava e minava dos lábios arruínados. A mão grossa e sangrenta atracou no braço armado de Cas. Lentamente o torceu, até aproximar a ponta do punhal até a barriga do garoto. ‘’Amo você’’ – o salvador de Aya encarou a moça antes de ser devorado suavemente por sua própria lâmina.

A garota entrou em pânico profundo. Seus gritos pareciam destroçar sua garganta. Os pesados passos do capitão agora se aproximavam dela.

– Shhh, shhh. Acabou, querida. Vai ficar tudo bem. – O homem afagava os dedos encharcados em sangue nos escuros cabelos de Aya. – Sabe? Há cinco anos, compramos uma prostituta em Zofir. Ela não quis me beijar enquanto a fodia. O que fiz? Bem, eu terminei de fode-la, é claro. – gargalhou o homem. – Mas não fiquei satisfeito, eu precisava beijá-la. – Aya encolhia-se sob seu manto, inutilmente buscando abrigo. A boca do homem era um horror. – A cadela não me beijou, então a prendi nua no mastro principal. Ordenei para meus homens se satisfazerem com ela diariamente até a vadia definhar de fome e sede. Quando ela apodreceu, continuaram fodendo ela – Medheim projetou a lingua banhada em sangue em direção ao ouvido de Aya. Em seguida, resvalou o que restara dos lábios na bochecha da garota. – E você, menina? Vai me beijar? – uma mão do capitão apoderou-se do queixo da garota, apertando-o. Encostou os lábios destruídos na cerrada boca de Aya. ‘’Não’’. Aya desejava gritar de pavor, mas não podia abrir os lábios. Seu estomago revirou-se, prestes a despejar sua ultima refeição. No momento do beijo infernal os olhos dela, transbordando em lágrimas e medo, confrontaram os do capitão. No ultimo instante, o asco venceu o medo. Sob o manto de uma Aya encurralada, estava sua salvação.

Mais sangue brotou. Dessa vez não houve um berro furioso, somente um gorgolejar macabro. A garganta do capitão era um furioso chafariz escarlate. Medheim fora negligente, abandonara o cinto sobre a mesa. A garota se apossou da Flauta de Osso e a manteve sob o manto. O objeto com uma das extremidades mortalmente afiada, trespassou o pescoço do capitão quase na altura do maxilar. Aya deitou as costas na mesa, seminua, banhada em sangue, aos prantos. Desmaiou.

O capitão sufocou em seu próprio sangue até morrer, ali mesmo, em pé, com olhos esbugalhados fitando Aya. Depois desmoronou no chão amadeirado.

Risadas. De homens e mulheres. ‘’Estão festejando’’ pensou Aya. ‘’O que celebram nesse mundo? ‘’ . O batuque de um tambor. ‘’Aya’’ – um chamado dissonante e distante. ‘’Aya, acorde.’’ o som ecoava de todas as direções, confundia-se a outros sons grosseiros e musicais. ‘’Aya!’’ Os olhos azuis foram descortinados.

As mãos de Cas , empapadas em sangue, pressionava seu estomago. O semblante exaurido. Aparentava ter perdido uma fração da vida, da alma. Entregou-se aos braços de Aya. A visão do companheiro fez brotar um sutil sorriso em meio a soluços.

– Vai ficar tudo bem – Cas a segurava com força. Quase tinha perdido a ultima pessoa importante da sua vida. Em seguida a colocou de pé. – Recomponha-se, vou pegar a flauta. – Cas agachou diante do corpo tombado e arrancou a flauta fincada no grosso pescoço do homem. Ele a examinou por alguns instantes acariciando toda sua anatomia. Sua constituição assemelhava-se a algo animal, ósseo.

– Os homens de Medheim festejam bêbados com suas prostitutas. – disse Cas. O ardiloso rapaz ergueu o queixo até o candelabro logo acima de sua cabeça. Esticou o braço e retirou uma das velas negras acessas.

– O porão do navio está abarrotado de Fogo Selvagem. Descobri um alçapão sob a poltrona. Conduzirá-nos até embaixo. Tome uma vela também. – Aya desceu da mesa e pegou uma vela do candelabro. Por trás da mesa do capitão, havia uma abertura no chão. Cas abrira a passagem durante o tempo em que Aya ficara desacordada. Custou-lhe força e dor, pois despertou o impiedoso ferimento. A entrada era só escuridão. O interior exalava um bafo bolorento. O garoto pegou a garrafa de Fogo Selvagem sobre mesa e despejou o liquido nos tapetes da parede, no chão e na mesa. Retirou a vela negra das mãos de Aya e lançou no chão. O lamber das chamas iniciou tímido até se alastrar fulminantemente em todas as direções. Já tinham descido a escada de madeira que acessava o porão quando um manto de fogo cobria a abertura acima. O porão cheirava a madeira e merda de rato. O fundo do recinto lúgubre , era iluminado por um delgado raio luminoso. Centenas de barris preenchiam o vasto espaço. Com passos bamboleantes, o jovem ferido tomou a frente. Aya o seguiu. Chegaram até a fonte de luz — uma escotilha de aproximadamente noventa centímetros de diâmetro. Uma caixa de madeira estava logo abaixo da janela. – Essa é nossa saída – falou Cas. Aya foi primeiro. O porte da moça era raquítico e esguio, logo atravessou com facilidade. Cas escutou o som do espalhar da água depois de Aya despencar. Chegou a vez dele. Apoiou o pé direito na caixa e subiu. ‘’Inferno, aquele porco me pegou’’ lembrou.A dor era sua companheira fiel. Tortuoso para ele foi atravessar a passagem. Quando o fez a dor era absoluta. Desmaiou.

Cas despertou com o bafo quente das chamas. Aya o arrastara para a praia pedregosa. O Flecha Negra era uma pira pulsante de clamor e agonia. Carne, ossos e madeira foram vorazmente contorcidos e fulminados. As mãos de Aya pressionava o ferimento de Cas, pulsava sangue sem parar.

– Preciso cuidar disso. – disse Aya. – Está muito feio.

– Importa? Estou no fim, meu amor. Você conseguiu a flauta. O cais está a meia légua daqui, entregue para o velho.

– Jamais iria sem você, levante-se eu não consigo sem você!

Com um esforço descomunal Cas apoiou o braço no joelho e ergueu-se. Aya o apoiava ao caminhar pesarosamente. Sabia que fatalmente padeceria antes de navegar até a Montanha-Lua. Entretanto, seu coração almejava um ultimo adeus para seu amor. As chamas ficaram às suas costas. Logo a pira seria cinzas, tal como as trazidas pelo oeste.

Chegaram a um ponto distante do cais, povoado apenas com ruínas de barcaças e poucos veleiros. Era uma paragem lúgubre, sinistra e fria. Nem as Cinzas trazidas constantemente do oeste distante eram capazes de romper a densa nevoa repousante. Uma silhueta distante estava em pé ao lado de uma pequena chalupa atracada, aparentemente apta para navegar. Aya e Cas estavam apenas a algumas passadas da figura oculta no nevoeiro. Uma fala de tom grave e rouca rebentou o medonho silencio naquela remota paragem decadente.

– Minhas crianças, oh, venham, sim, venham! Já estamos sem tempo, as cinzas do oeste sussurraram pra mim, o triunfo de vocês foi profetizado! – O velho trajava uma esfarrapada túnica cinzenta de algodão com uma corda amarrada na cintura. Tinha uma revolta cabeleira rala e amarelada recheada com mechas escuras. Apenas uma coisa abismava os viajantes juvenis mais severamente do que o decrépito e sepulcral falar do homem – as horrendas orbitas vazias do ancião. A imagem invocava um profundo sentimento atemorizante em Aya. Ela o considerava uma carcaça velha de algo muito antigo e decadente, uma incongruência da vida e da morte. Cas não parecia se abalar com o homem sombrio. Afinal, aquela repugnante múmia cega era o único pilar de esperança dos dois fugitivos e o rapaz prometera amparar Aya até a Montanha-Lua, o único lugar seguro para uma virgem nascida com a Marca de Sebbach. Para tal feito, necessitavam da Flauta de Osso, um legendário instrumento pertencente a Qnar Ny, o príncipe divino de Naar. O artefato fora subtraído há trezentos e cinquenta anos durante o festival da Meretriz – uma cerimônia de louvor a Sebbach, mãe dos príncipes divinos, também conhecida como a Prostituta de Deuses ou a Meretriz de Heeikal.

Cas sacou o alienígena objeto, parecia algo insondável, talvez esculpido por hediondos reis esquecidos nas profundezas do Abismo-Vivo. – Trouxemos o que pediu. Vamos, nos leve a Montanha-Lua. – A vida se esvaia volátil do corpo de Cas, o rosto pálido e sangrento denunciava seu fim.

– Como desejar minha criança, não posso imaginar o quão desagradável foi lidar com Medheim, um pervertido, segundo reverbera sua fama. – uma risada tosca e chiada finalizou a fala do velho.

– Minha gratidão seria eterna se deixarmos esse lugar, meu senhor. Os Tutores podem estar em nosso encalço. – Podemos embarcar agora? – sugeriu Aya. A exaustão corroía a alma da moça . Ao lado de Cas, viajaram milhares de léguas até Kianlidis em busca do capitão Medheim, pois soubera que era o atual portador da Flauta de Osso. Chegaram lá cortando pela Floresta da Vela, o sombrio lugar no qual se depararam com o ancião misterioso. ‘’Eu sei do fardo que carrega, moça da marca. Compartilhe comigo.’’ tinha dito o velho no momento do encontro. Naquele ínterim cabalístico era impossível discernir o real do sobrenatural, um julgamento racional era obscurecido pela circunstancia deplorável dos fugitivos. Aceitaram de bom grado alimento, água e disfarces, e logo partiram para o longínquo cais abandonado de Kianlidis. ‘’Por que nasci com essa maldição?’’ tocava Aya sua fronte antes de dormir. Ela não compreendia. Era obtusa aos arcanos tomos sagrados dos Noivos da Meretriz, onde pormenorizava os ritos de sangue necessários para repelir o Véu Negro vindo do Continente Despedaçado de Huulsan. A simplória moça não viveu para testemunhar os acontecimentos de uma era na qual o grande Pai Heeikal caiu do céu para fraturar o mundo, para confundir o dia da noite, ocultar as estrelas, o sol e as luas. O cataclisma devorador fendeu Huulsan, produzindo um colossal abismo de centenas de milhares de quilômetros de extensão. E lá é a nascente do Véu Negro, uma tempestade de proporções continentais carreada com horror, podridão e morte. Inefáveis são as pestilências trazidas por tal abominação – espectros demoníacos de reis pálidos indumentados com orgulhosas vestes pálidas fosforescentes; bestas repugnantes e cruéis cuja visão destroçaria a sanidade do mais sereno dos sábios; e a horda dos amorfos filhos abortados de Sebbach. Somente a etérea luz das almas das virgens marcadas pode amolar esse mal absoluto. Uma vez capturadas pelos Tutores, são enviadas para as quilométricas treze torres edificadas no Mar do Tormento. A partir dessas estruturas de ônix e prata os Noivos de Sebbach realizam o ritual de imolação para extrair a mais pura essência das virgens. A substancia sublime é convertida em um fulgor intenso para iluminar o mundo e afastar o mal . E assim tem sido, desde os pais de Aya, e desde antes dos pais de seus pais.

– Podemos partir, velho? – exigiu Cas. O arteiro garoto não hesitaria em cortar o enrugado pescoço daquela decrépita criatura, embora estivesse mortalmente ferido.

– Certamente, meu valente rapaz. – respondeu o velho com um sorriso escarnecedor. Sua gengiva escura cravada de dentes apodrecidos era repugnante. – A partida não será tardia, eu lhe garanto. Não percebe? O único alimento para minha humilde chalupa é esse débil sopro de cinzas do oeste. Deixe-me apenas tocar esse abençoado instrumento, conjurarei os alísios nascidos no norte. Seu sopro abençoado nos conduzirá à Montanha-Lua.

–Faça isso – a voz de Cas era débil.

E o velho soprou a Flauta de Osso. Um assombroso som sibilante atravessou o ar denso de nevoa. Aquela musica feria a espinha de Aya com garras geladas. Ela se abraçou em Cas , cuja postura era compenetrada e indômita. Aya sentia conforto na musica, pois era o inicio de um final feliz, um recomeço num lugar remoto do mundo. Não seria mais caçada como um rato, viveria em plenitude a partir dali, provavelmente se casaria com Cas, teriam filhos. Aya abraçava calorosamente Cas. A esperança sorriu pra ela.

E os alísios chegaram. Sopraram sutilmente no cais.

Cas ainda sentiu o tocar do vento no rosto antes de tombar. Não soube distinguir se primeiro veio a escuridão ou o sono.

O despertar veio com um estridente grito. Desuniu sutilmente as pálpebras. ‘’Aya. Não. Eles a pegaram. Não.’’ pensava Cas. Estava atordoado, não entendia o que estava acontecendo. Primeiro sentiu as correntes nos pulsos e nos tornozelos. A ferida ainda pulsava viva em sua barriga. Ouviu a resposta das ondas. ‘’O mar’’, pensou. Depois sentiu o respingar de gotas no rosto. Uma tempestade arrebentava o céu. Percebeu seus movimentos muito limitados. Uma ofuscante luz abarcou seu rosto molhado. O alvor intenso difundia-se como um véu de glória a partir do topo da monstruosa torre. Cas fora acorrentado à base pedregosa da torre.

A resplandecente visão daquela luz pálida no alto da torre, sempre fora absenta aos olhos do rapaz . Era agradável olhar para a luz, transmitia calidez o seu tocar, era familiar e aconchegante. E não o cegava. Não somente o luzir da torre Cas admirou, o prisioneiro fitou no horizonte em um ponto além das nuvens da tempestade. Não era um devaneio. Era tão belo quanto virgem a seus olhos. Era puro e sem cinzas. ‘’O céu.’’

– Ah, você acordou. – uma voz ecoou. O garoto não notara a presença de uma figura em pé sobre uma rocha elevada a alguns metros dele. ‘’Desgraçado’’ pensou Cas.

– É um sonho, menino, o seu primeiro depois de intermináveis pesadelos – continuou o velho. – Contemple a corte diamantina, menino Cas. Vejam, são incontáveis reis e rainhas, príncipes e princesas de uma época há muito enterrada no tempo. Olhe como flutuam resplandecentes no negror celeste. Sim, são eles, eu os vejo. Mas não através de meus olhos. – O pescoço do ancião deslocou-se em um angulo antinatural, horrendo e asqueroso. Ouvia-se o deslocar de ossos. Cas divisou os olhos do odioso senhor. Ele reconheceu aqueles olhos. Não podia esquecê-los, confundi-los. ''Aya''.

– Nãaaaaoooo!!! – Esbravejou o jovem acorrentado. As veias do pescoço à amostra empurravam um potente berrar. A chuva chicoteava com fúria seu rosto em lagrimas – Nãaaaaoooo!!! – seus finos braços eram uma tempestade de cólera, estéreis contra as pesadas correntes.

– Eu entendo. Definitivamente, entendo. É desconcertante quando lhe roubam algo. Eu sei disso. Sim, eu sei. – o velho soltou uma repugnante gargalhada. –Roubaram meus olhos uma vez. Sim, há muito tempo.

Cas continuava gritando, ininterruptamente. – Nãaaaaoooo!!!

–Veja bem, garoto. Você foi convidado para o espetáculo, os homens nascem e morrem sem ver o céu, o verdadeiro céu. Não aquele trajado de relampejantes cinzas escuras. Perceba, é aqui que despimos o céu, no momento de redenção das treze. Eu precisava ver como era o céu, menino Cas. Eu precisava ver o céu.

Auspiciosamente o rapaz divisou no horizonte a chalupa na qual embarcaram de Kianlidis, ela seguia para leste em direção a uma sombria costa rochosa. Avistou ciclópicos tentáculos malignos no profundo horizonte onde a vista falhava, como se feitos de trevas e pesadelo, alastravam-se por toda linha do horizonte praticando uma dança mística e agourenta.

– Concentre-se na luz acima, Cas. Concentre-se na luz acima. Ela emana toda a bondade e inocência.

Cas assistiu o já distante barco se afastar paulatinamente. Sabia que o coração de Aya ainda pulsava. Os antigos narram que quando os Noivos completam a desunião, a única coisa que resta no corpo das virgens é pesadelo. Aya estava a caminho do Abismo-Vivo, se fundindo aos seus mais terríveis pesadelos. Cas ergueu a cabeça e apreciou aquela luz, as estrelas, o sol e as luas também. Não ouvia mais Aya em seus pensamentos. Apenas pesadelos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.