Contos da Taverna
1 Prólogo
O frio era aterrador naquela época do ano. A taverna era enorme e estava quase vazia. A lareira no canto esquerdo se encontrava acesa, provendo a maior parte da luz e um calor aconchegante. Não havia qualquer tipo de servo trabalhando naquela noite, apenas o taverneiro por trás da enorme bancada do bar. O mouro alto e careca esfregava em movimentos circulares o interior de uma caneca de cerâmica quando um estranho, encapuzado e coberto dos pés à cabeça com um manto cor de musgo, adentrou o recinto sem chamar muita atenção. Ele foi para perto da lareira e passou a esfregar as mãos junto ao fogo.
Em frente à bancada sentavam três homens em uma mesa com quatro cadeiras. Dois eram grandes e passavam um ar de experiência, ou seja, tinham pelo menos quatro manchas de cerveja na roupa cada um. O outro era claramente mais jovem e mais ouvia do que falava. Um dos mais velhos levantou a caneca no alto e falou em tom de imponência:
— E então, tendo matado o terrível Goblin Azul e seu exército de goblins, os três grandes heróis subiram a torre para derrotar o culto maligno de...
Antes que pudesse terminar, o homem estranho e encapuzado cuspiu audivelmente na direção da mesa. A gota de saliva e ranho caiu no chão logo ao lado do pé do senhor que falava. Ele então se voltou novamente para a lareira como se nada houvesse acontecido. O taverneiro, já imaginando o que aconteceria, deixou delicadamente a caneca na bancada e colocou a mão sobre a espada que mantinha escondida embaixo do balcão. Seu rosto permanecia impassível, como se não fosse nada que já não tivesse visto inúmeras vezes.
— Como ousa, seu verme? Sabe quem eu sou? – Gritou o contador de histórias, com o rosto antes branco agora enrubescido pela ira. Ele era um senhor já de idade, com o cabelo curto cheio de entradas e um enorme bigode cinzento, sujo de cerveja.
— Um beberrão inútil que vem para a taverna se embriagar no meio de um feriado religioso apenas para contar falsas histórias.
— E o que por Thrain você pensa que sabe sobre histórias? – Fala o outro homem experiente, levantando-se de sua cadeira com os punhos fechados. Este tinha quase dois metros de altura e movia-se de um jeito desajeitado e bruto. Claramente havia bebido muito mais do que seu amigo. O jovem permaneceu sentado, mais surpreso e assustado do que admitiria quando contasse aquela história.
O encapuzado então levantou vagarosamente, fogo da lareira crepitando atrás de si. O taverneiro teve um calafrio quando percebeu que a capa do homem não refletia a luz da lareira de forma alguma, quase como se fosse coisa de outro mundo. Sua testa franziu como se sua mente lhe mandasse um alerta, mas ele não conseguia lembrar o que aquilo significava.
— Sei mais sobre história do que qualquer um de vocês, porcos bêbados. – Falou o homem misterioso, com uma voz roca, masculina e baixa, mas que prendia a atenção de todos como a voz de uma fada.
“A voz de uma fada” – Pensou o taverneiro. Seus olhos se arregalaram quando ele finalmente entendeu. Pensou em gritar para que os homens se sentassem e acalmassem, mas era tarde demais. O homem alto segurou uma das cadeiras pelas costas e em um urro atirou o objeto na direção do estranho. O mesmo, no entanto, continuou parado. Por um instante, foi possível perceber o que parecia uma espécie de redoma de vidro em torno do sujeito. Ao tocar nesse estranho objeto invisível, a cadeira se desfez em dezenas de lascas de madeira.
— Feiticeiro! – Gritou o outro bêbado, mas sua voz estava tremida e sua instância mostrava mais medo do que agressividade.
— Calem-se, seus tolos! — As atenções se voltaram para a voz do taverneiro atrás do balcão, mas os olhos permaneciam grudados no sujeito de capuz. – Ele não é um feiticeiro. Ele é um fey!
— Não me ofenda, Khalid. Eu sou apenas uma de muitas vítimas dos fey. – O estranho abaixou o seu capuz, mostrando um rosto pálido e marcado. Não devia ser assim tão velho, mas algo nele além do estresse lhe dava um ar de extrema sabedoria. Seus traços eram humanos, mas suas orelhas eram pontudas e disformes como as de um goblin. Suas írises eram completamente escuras e seu cabelo era ruivo mas apresentava algumas manchas brancas e esverdeadas, como uma laranja meio embolorada.
— Mill. – Disse Khalid, o taverneiro, engolindo em seco. – Mill Fogalvo.
— Nã-não pode ser. – Falou, pela primeira vez na noite, o jovem sentado. Sua expressão mostrava completo terror. – Mill-que-fey—tocado? Aquele Mill?
O garoto passou a vida toda ouvindo histórias contadas pelos seus dois tios, os bêbados que o acompanhavam. Entre essas histórias, a maioria envolvia grandes heróis e feitos incríveis. Apenas uma delas era contada como um tipo de obrigação indesejada. Os adultos evitavam essa história perto de crianças mais do que os contos de sexo das senhoras de corte. Alguns gostavam de contá-la em torno da fogueira, como forma de assustar e impressionar os presentes. Essa era o conto do homem que aparentemente permanecia calmamente em pé na frente da lareira.
Khalid respirou fundo. Deixou a espada oculta onde estava, pegou uma chaleira que mantinha acima do balcão naquela época e despejou seu conteúdo marrom e quente dentro da caneca que acabara de limpar. Tudo isso feito de forma extremamente ágil em apenas alguns poucos segundos. Com uma calma curiosa, o taverneiro passou pelos três conhecidos assustados, acenando para que sentassem. Enquanto os homens sentavam aterrorizados, Khalid oferecia a caneca a Mil como se fosse um velho amigo. Mil manteve seu olhar serrado, mas tomou a caneca da mão do taverneiro e virou dois goles que, para os homens que observavam, pareceram demorar uma eternidade. Ao final dos goles, esboçou o que poderia ser um sorriso de canto de boca.
— Você finalmente adicionou erva-madeira.
— Um guarda de caravana ruivo que frequentava minha antiga taverna sempre me disse que se eu colocasse erva-madeira no chocolate-quente, ele ficaria perfeito. Como está?
O ruivo em um instante abraçou o taverneiro, apertando-o em seus braços. Ele não precisava dar resposta alguma. Estava perfeito.
Demoraram alguns minutos para que todos se acalmassem e se apresentassem, mas mesmo assim havia alguma tensão no ar da taverna. O homem mais alto se chamava Jonah. Ele agora segurava uma vassoura e limpava as lascas de madeira da cadeira despedaçada. Aceitara o trabalho a mando de Khalid sem reclamar, pois era uma desculpa para ficar longe da mesa. Os outros dois, Pilbo, o contador de histórias e Parleus, o jovem mais conhecido pelo apelido Par, sentavam agora à mesa na companhia do lendário Mil. Se estivessem na mesma mesa de qualquer um dos protagonistas das Novas Lendas, teriam problemas em conter sua alegria. Mas o homem que os acompanhava era Mill-e-uma-vezes-amaldiçoado. Então, ao invés de sorrir e fazer perguntas, eles decidiram ouvir com atenção a tudo que ele dissesse e, quem sabe, sair de lá com suas vidas. Mill, por outro lado, estava bem confortável em falar.
— Sabem, eu não pretendia me mostrar tão cedo. Estou viajando para as Terras Quebradiças e não imaginava que teria minha identidade descoberta antes mesmo da Sentinela Sombria.
— Pra quem estava se escondendo você certamente deu um show e tanto... – Respondeu Khalid, que esfregava o balcão com uma disciplina inabalável.
— Bem, a culpa não é minha. Esses três falavam do que não entendem. Você sabe Khalid, quem os chamados três heróis eram de verdade. Você estava lá!
— Eu não sou ninguém para julgar. Eles salvaram a minha vida...
— E tiraram a minha e a de meu irmão! – Gritou o ruivo batendo com força o punho na mesa. O estrondo fez as cervejas dos outros dois respingarem para fora das canecas.
— Sei o que você passou, mas...
— Sabe mesmo? Sabe, Khalid? As histórias não contam nem metade. Os fey da Floresta dos Contos fizeram comigo coisas que nem mesmo os Altos Bardos teriam estômago para descrever. Tudo para que eu pudesse ter visões sobre a verdade do mundo. Me transformaram em sua bola-de-cristal pessoal, nada mais do que um escravo. Pior até, um objeto! — Todos abaixaram a cabeça menos Par, que encarava Mil com extrema curiosidade. O garoto pôs-se a falar pela primeira vez desde que se apresentara.
— Então é verdade? Você conhece a história? A verdadeira história?
Mil soltou uma risada. Foi curta e desconfortável de ouvir, mas era a primeira vez que o homem esboçava uma reação humana em relação a eles, então o garoto tomou como uma coisa boa.
— Tome um gole dessa cerveja, jovem Parleus. A verdadeira história dos três heróis é muito diferente das lendas maravilhosas que você escutou desses velhos tolos. Para começar, eles não subiram aquela torre para derrotar alguém. Mal sabiam o que estavam fazendo. Esclarecerei essa parte e então contarei tudo a vocês, palavra por palavra. Mas cuidado – Pausou Mill, tomando um gole de seu chocolate-quente. – Podem matá-lo por recontar essa história.
Mill respirou fundo. No momento seguinte, tudo naquela taverna parecia ouvi-lo falar. Não apenas os homens, mas até mesmo os objetos e elementos. Cada tábua de madeira, cada caneca de cerveja, até mesmo o fogo da lareira. Tudo parecia tornar sua atenção ao homem amaldiçoado. Era apenas esperado, pois ele era Mill-que-fey-tocado. Ele era a Voz dos Fey e aquela história era o motivo de ainda estar vivo. Estava ele para contar a dura verdade sobre as maiores lendas daquela terra. Uma verdade oculta a sangue.
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