Contos da Taverna

2 Capítulo 1: O cavalo, o corvo e os esquilos


Estava escuro, mas a escuridão era mais familiar a ele do que a luz jamais fora. Ainda mais agora. O drow terminou de empurrar a grande pedra, fechando completamente a passagem. Era possível ouvir os inimigos do outro lado procurando por ele e suas companheiras. Virou-se para Eretria. A meio-elfa enrolava uma bandagem no próprio braço, rasgado do ombro ao pulso pela espada enferrujada e sem fio de um dos skeleton que guardava o hall de entrada. “Poderia ser pior”, pensou, enquanto as imagens do seu antigo vilarejo invadiam sua mente. Balançou a cabeça e se virou para Pisco, a pequena garota gnomo selvagem.

Ela deitava de pernas pro ar, totalmente despreocupada enquanto brincava com a safira misteriosa que havia encontrado. O drow franziu a testa. Estava preso com as duas naquela torre, a única saída conhecida estava infestada dos encapuzados e os suprimentos iam se acabando. Olhando a escadaria de pedra que subia à sua frente, deixou escapar um suspiro:

— Como eu vim parar aqui?

As altas paredes da caverna estavam infestadas de teias de aranhas, mantidas lá pelos seus moradores. Eles nunca se incomodaram muito com a presença delas. No centro do local, um estranho laboratório dominava o cenário. Frascos e ervas se espalhavam em prateleiras toscas de madeira. Livros e cajados se encontravam jogados. Uma mesa de madeira se encontrava ao centro, unida ao chão da caverna como se tivesse nascido lá. Dos móveis nasciam pequenas folhas e ramos, como se tudo ainda estivesse bem vivo. O ambiente era iluminado por velas gastas e a luz da lua cheia, a qual entrava por um buraco convenientemente localizado no teto. Perto da parede, um homem alto mexia o conteúdo de um caldeirão, completamente focado em seu ofício.

— Boa noite, mestre. – Eretria entrou no laboratório com certa rigidez nos movimentos. Hoje era o grande dia em que receberia sua primeira verdadeira missão como druida e nem a refrescante luz da lua cheia poderia acalmá-la. Havia se arrumado especialmente bem, no limite do possível, considerando que tinha de usar a armadura de pele tradicional dos druidas da lua. Arrumara seu cabelo, prendendo-o num rabo de cavalo ruivo que deixava suas orelhas de elfo à mostra. Era mais vaidosa do que a maioria dos druidas e isso muito desagradava seu mestre.

— A lua calmamente faz sua jornada pelo céu, Eretria. Nem com pressa, nem com lentidão. – Disse o homem ao caldeirão, sem sequer olhar para a meio-elfa. – Você deve aprender a controlar sua impaciência se deseja trilhar o caminho de Selûne. Deve ser calma e ponderada como a lua.

— Sim, mestre. – Respondeu Eretria, mecanicamente. Ao longo dos anos aprendeu a se importar com os ideais dos druidas e com a vontade de Selûne, mas no fundo ainda sabia que aquele não era o caminho que escolheu, era o caminho que havia sido imposto a ela pelo bem de sua família.

— Se entendeu, pegue a insígnia que deixei em cima da mesa.

A insígnia era um pequeno círculo de madeira na qual havia sido esculpido um par de olhos envolto em sete estrelas. Era o símbolo de Selûne, deusa da lua. Eretria pegou o objeto com certa reverência, entregando delicadamente na mão de seu mestre, o qual estendia uma mão em sua direção sem olhar para ela.

— O que o senhor está fazendo? – Eretria deixou sua dúvida escapar, mas se arrependeu assim que as palavras deixaram sua boca. Seu mestre olhou para ela pela primeira vez na noite. Seu olhar ríspido deixava clara sua decepção. Sua pálpebra esquerda era caída, efeito dos tempos. Sua pele estava já velha, a barba malfeita e seu cabelo grisalho, encardido. O homem poderia bem ter uns oitenta anos, mas tinha muito, muito mais. Sem desperdiçar sequer uma palavra, fechou bruscamente a mão em torno da insígnia e a jogou no caldeirão em seguida. O líquido do caldeirão brilhou como se fosse o brilho da própria lua. Por um momento, Eretria pôde sentir a poderosa e imponente presença de Selûne. Seu mestre permaneceu completamente parado por alguns segundos, e então a luz se apagou.

— Entendo – Falou o mestre em tom de completo espanto, como se na verdade não tivesse entendido coisa alguma. Virou-se para Eretria, que mal podia aguentar de tanta antecipação. – Não sei se você está preparada para o que está por vir, minha aprendiza. – Disse o homem com um nervosismo que a meio-elfa jamais havia presenciado.

Eretria sentiu um calafrio descer pela sua espinha com a frase de seu velho mestre. Em seu treinamento, ainda criança, havia passado por diversas situações que quase a levaram a morte. Sequer podia imaginar que destino terrível a aguardava. Terrível o suficiente para fazê-lo agir de forma condescendente. Antes que pudesse sequer perguntar, seu mestre a envoltou em um quente abraço.

— Minha querida aprendiza. – Soltando-a, continuou. – Nossos caminhos aqui se separam. – E começou a juntar apressadamente vários objetos em uma sacola. — Um grande mal está para destruir tudo que é certo neste mundo. Ele entra através das mentiras e ambições de uma pessoa ingênua e mesquinha. Devo ir à capital, me preparar para o pior. Mas você... – Disse ele, com uma voz de pena que deixaria até o mais corajoso dos homens preocupado. Pior ainda, a escolha de palavras era completamente calculada. Como se estivesse se esforçando demais para não demonstrar a real urgência por trás de suas notícias – Você deve ir a Oeste. Atravesse o rio e vá para um pequeno e jovem vilarejo chamado Nova Keyrne. Lá, deve identificar esse mal e atrasá-lo como puder. Todos contamos com você.

E agarrando seu cajado, o poderoso e sábio homem encolheu ao tamanho de um corvo, seus pertences se fundindo ao seu corpo, e voou para fora da caverna pelo buraco do teto. Assim, como um evento totalmente casual, toda a vida da druidesa estava para mudar. À Eretria não sobrava nada. Nada além de mil perguntas e a missão de salvar “tudo que é certo neste mundo”. O nervosismo, porém, acabou. A meio-elfa não notou, mas estava sorrindo. Ela agora tinha um propósito e, ainda que seu destino fosse incerto, uma direção.

Mal percebeu ela que aquela era a última chance que teria de escolher outro caminho.

Pisco se espreguiçou. A luz passava pelas folhas das árvores e entrava pelos muitos furos de sua cabana, se é possível chamar um pano velho amarrado entre três árvores de cabana. Mas para Pisco, era mais do que o suficiente. Menos quando chovia. A água fria sempre deixava a pequena gnomo gripada e fraca. Ela não gostava nada disso, pois gripada não conseguia caçar sua comida, ou pegar as pequenas pedras brilhantes das quais gostava tanto. Após se espreguiçar, a ágil garota ficou em pé em um só salto. Afastou o cabelo castanho ensebado da testa e olhou em volta. Sua barriga estava doendo de tanta fome, mas entre os objetos jogados e espalhados pela sua toca, não havia sequer uma frutinha.

Eis que um maravilhoso aroma de carne assada acerta Pisco como um tapa. A gnomo imediatamente começa a farejar o ar em volta como um animal, procurando a sua futura fonte de deleite. Pegou no chão de sua toca uma pequena adaga que havia “encontrado” presa ao cinto de uma pessoa do vilarejo. Ela não gostava muito deles, isto é, das pessoas do vilarejo. Viviam fazendo barulhos que ela não entendia e a maioria era alta demais pro seu gosto. Mas eles costumavam ter comida boa e coisinhas brilhantes. Pisco adorava coisinhas brilhantes.

Saiu da toca preparada, farejando o ar enquanto corria sorrateiramente com o corpo curvado. Subiu numa alta árvore e foi pulando de galho em galho da densa floresta até avistar a fonte do maravilhoso odor de carne que sentira. Lá estava: entre três homens grandes numa clareira, uma fogueira em cima da qual assava uma deliciosa carne no espeto. Pisco lambia os beiços enquanto imaginava que carne era aquela. Seria um faisão, acertado por uma flecha enquanto ciscava? Seria um carneiro, trazido do vilarejo? As possibilidades eram infinitas.

Silenciosamente pulou da árvore para um arbusto próximo da fogueira, enquanto os homens riam e conversavam. Um deles, distraído, tirou do cinto uma espada curta e a deixou descansada em cima de uma pedra. A espada era limpa, afiada e polida. A luz da fogueira a fazia brilhar como um diamante. Pisco ficou encantada pela espada, seus pequenos olhinhos arregalados. Teve de balançar a cabeça para voltar a se concentrar, pois sua barriga roncara. Pegou uma pedra ao seu lado e atirou numa parábola quase perfeita para o outro lado da clareira, perto das árvores. Os homens, agora alertas, falaram entre si, mas Pisco estava focada demais no prêmio para entender. Dois deles desembainharam suas espadas e foram até os arbustos onde a pedra havia caído, o outro ficou encarregado de olhar a carne, mas estava despreocupado. Ele não sabia o que estava para acontecer.

Falco era bem conhecido entre os caçadores de Nova Keyrne. Bem mal conhecido, melhor dizendo. Dividia seu tempo entre beber cerveja e roubar viajantes desavisados nos arredores da cidade. Ele e seus companheiros não passavam de um bando de ladrões, assassinos e beberrões. Entretanto, Pisco não sabia disso. Pisco só sabia que ele era o homem entre ela e sua comida e, como qualquer animal selvagem, ela não precisava saber de mais nada.

Por isso, quando Falco sentiu uma dor lacerante nas costas, não foi por justiça pelas pessoas que ele matou. Quando olhou para baixo e viu sua própria espada saindo do seu peito, não foi porque ele era um péssimo homem. Foi como um acidente, um desastre natural. Foi como morrer para um raio porque ficou embaixo de uma árvore numa tempestade, ou ser atacado por um urso faminto porque decidiu assar carne no meio de uma floresta. Exceto que não era um urso nem um raio. Era apenas uma inocente e selvagem garota gnomo.

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Pisco, deitada no chão de sua toca, deu três tapinhas na barriga para comemorar a bela refeição que acabara de ter. Rolou de um lado para o outro, entediada, até decidir o que faria em seguida. Pegou do chão de sua cabana um objeto brilhante, uma espada curta que ela lavara no rio mais cedo. A pequena gnomo sorriu alegremente, pois estava bem alimentada e tinha um novo brinquedo. A carne estava deliciosamente bem preparada, mas era de esquilo, e Pisco comia esquilo com alguma frequência. Decidiu que quando houvesse luz de novo, iria ao rio próximo do vilarejo pegar alguns peixes. Entretanto, sua jornada por comida a levaria muito mais longe dessa vez.

A luz do dia fazia arder os olhos de Carric Downfall. O paladino de Sune levantou à altura dos olhos o brasão de prata da deusa do amor e da luz a qual dedicou tão grande parte de sua vida. O brasão continha a imagem de uma mulher linda e ruiva e ele o vestia no pescoço com orgulho nos seus melhores dias. Mas estes não eram seus melhores dias. Seus longos cabelos brancos agora estavam desgrenhados e escondidos atrás de um capuz. Sua pele escura estava suja e suada dos últimos três dias de viagem quase sem descanso. Ele não mais era um belo e orgulhoso paladino de Sune. Não tomava mais cuidado com sua aparência, nem sentia vontade de proteger a beleza e bondade do mundo.

Ali, ao lado daquele riacho no meio da floresta, ele estava completamente sozinho. Se houvesse alguém lá, esse alguém teria visto o olhar de tristeza no rosto o drow quando ele viu seu reflexo na água. Mas não havia ninguém. Estavam todos mortos. Rezar para Sune não os salvou. Tudo que ele pôde fazer foi vingá-los e agora era um viajante sem rumo, um assassino procurado por fazer justiça. Se houvesse alguém com ele durante a viagem, tal pessoa teria visto quando o paladino, derrotado, rezou desesperadamente por respostas e não recebeu nada. Mas não havia ninguém. Estavam todos mortos. Todos menos ele.

Se levantou lentamente do chão enquanto enxugava o rosto. Virou-se rapidamente para as árvores ao ouvir um som: eram os cascos de um cavalo. Mesmo tendo viajado tão longe ao sul, alguém estava no seu encalço.

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O homem era um meio-elfo de cabelos castanhos e muito bem armado para um caçador. Montava um cavalo malhado, carregava uma espada longa no cinto e vestia uma cota de malha. Carric havia deixado sua própria armadura para trás para aliviar o peso dois dias atrás. Um homem tão bem preparado para uma luta não podia ser um guarda procurando um criminoso, pensou Carric. O drow não queria matar um possível inocente, por isso se escondeu em uma moita e esperou que o cavaleiro passasse. Estava pronto para dar meia-volta e fugir, até que viu um símbolo desenhado na capa do homem.

Era um círculo preto com bordas roxas. O símbolo de Shar, deusa das sombras e do Subterrâneo. Era o símbolo dos homens que massacraram sua amada vila, que destruíram seu povo. Em um súbito acesso de raiva, Carric pulou dos arbustos gritando. A ira o fez agir sem pensar e seu grito assustou o cavalo que imediatamente reagiu com um coice certeiro no peito do drow. Ele voou por 4 metros até bater as costas numa árvore. O impacto o fez expelir todo o ar dos pulmões, um filete de sangue escorrendo pela boca até a ponta do queixo.

— Ora, ora. – Falou o cavaleiro, surpreso, enquanto descia de sua cela. – Quem diria. Já havia desistido de encontrar você. Vim aqui dar de beber ao meu cavalo e você me faz o favor de pular bem nas pernas dele!

O rosto passível do meio-elfo se contorceu num sorriso sádico enquanto ele sacava sua espada longa.

— É um idiota? – Disse ele, rindo. – Poderia ter fugido. Não poderia ir pra nenhuma cidade, já que seu nome será maldito até no canto mais obscuro da terra, mas poderia viver na floresta com alguma dignidade. Agora vai morrer pelas mãos de Bako de Shar! Meu nome será lembrado e serei recompensado por matar Carric, o tolo!

O rosto do drow, caído ao pé da árvore, estava abaixado. Talvez por isso Bako de Shar não tenha parado de rir. Qualquer um ficaria aterrorizado com o sorriso dos perfeitos dentes brancos do paladino de Sune. Ele então grunhiu alguma coisa, mas o sangue na sua boca abafou o som. O cavaleiro se aproximava, espada em mãos.

— Ahn? Não te ouvi. Quer que eu vá aí te fazer falar mais alto? – Grita o meio-elfo em tom de ameaça e bom humor.

— Eu disse... – Começou a repetir Carric Downfall com uma calma aterradora enquanto levantava lentamente do chão — Que você deveria ter ficado no cavalo.

E então o cavaleiro congelou. Os belos olhos roxos de Carric o encaravam como se atravessassem sua alma. Eram vazios e calmos como a superfície de um lago intocado. Não eram os olhos de um paladino bondoso de Sune. Aquele drow à sua frente era... Algo mais. Tentou falar algo. Não sabia o que. Desculpas, talvez? Não, era inútil. Morreria ali. Podia sentir.

— Eu – Começou Bako, mas foi interrompido. Em um único movimento, Carric retirou sua gigantesca espada de duas mãos das costas e acertou em cheio a cabeça do cavaleiro. O ataque foi feito com a parte cega da lâmina, mas ainda assim lançou uma dor indescritível em sua cabeça.

Mundo girando, luzes apagando e então, silêncio.

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Bako de Shar acordou tonto e com uma terrível dor de cabeça. Olhou em volta e percebeu que já era noite. Tentou mover seus braços, mas estava amarrado numa árvore. Havia sido poupado? Olhou para uma luz ao seu lado. Carric Downfall se encontrava ao lado de uma fogueira, mexendo algo no fogo.

— Então você acordou. Qual disse que era seu nome? – Disse Carric, calmamente, enquanto levantava com um objeto brilhante em mãos. Bako percebeu que ele usava sua cota de malha.

— Bako – Respondeu o cavaleiro, nervoso, forçando os olhos para tentar ver melhor – Bako de Shar.

— Errado. – Disse o drow, se aproximando. O objeto em sua mão, agora à vista, era um tipo de tocha improvisada. – Seu nome é Carric Downfall, incendiado até a morte. Bako sou eu.

O meio-elfo tentou se debater, mas foi inútil. Se houvesse alguém ali, tal pessoa ouviria seus gritos desesperados. Se qualquer pessoa viajasse pela floresta naquela noite, escutaria seus berros por ajuda, cada vez mais altos no começo e então mais baixos até cessarem. Mas não havia ninguém.

Estavam todos mortos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.