Contos da Fenda D'água
2 Capítulo 2 - O Despertar da Fênix
A noite era fria e o cheiro forte do vinho já não lhe fazia sentir-se melhor. Brand viu sua mulher e filho sorrindo envolta da mesa, não sentia vontade de se aproximar, então retornou ao quarto.
Brand sequer piscou os olhos naquela noite. Após todos irem dormir lá estava ele sentado no parapeito da sacada bebendo. Quatro metros o separavam do solo, realmente ficou tentado. Seu casamento era um desastre, brigavam todos os dias, ganhava pouco como pescador e a maior parte gastava com bebida. Estava infeliz.
O cheiro de trigo cortado era agridoce. Naquela manhã seu filho o acompanhava, Brand o alertara que o caminho era longo, mesmo assim decidiu-se por acompanhá-lo. Ele observava seu filho todo instante, raramente faziam algo juntos, sabia que o menino não tinha culpa, mesmo assim não conseguia olhar para ele sem associá-lo à mãe.
A Fenda D'água no nascer do sol, era um privilégio que poucos terão na vida. Desceu e ajudou o a também fazê-lo. A pesca não ia bem.
– Pai, porque você grita tanto com a mamãe? — quebrou o silêncio de alguns minutos.
– Isso não é da sua conta, Ruffert — seus olhos não se moveram, nem sequer mostrou o mínimo de afeto — se você não fosse tão estúpido e ficasse quieto, talvez tivéssemos pego algo.
Seu filho segurava as lágrimas nos olhos, quando sua varinha finalmente fisgou algo.
– Consegui! Me ajuda a puxar pai.
Brand não demonstrou nenhuma reação, era como se não estivesse ali, não obstante conseguia ouvir os gritos intercalados do filho, que acabara sendo puxado para água. Quando saiu permaneceu deitado por alguns instantes, e depois correu como se um animal o perseguisse.
No final da tarde, Brand vira suas coisas jogadas na frente de sua casa e um pequeno bilhete com uma caligrafia horrível, "Seu maldito psicopata, suma da minha vida e da de meu filho". Recolhera as roupas calmamente e seguiu, foi naquela exato momento que Brand teve felicidade. Sorriu.
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