Notas iniciais
Finalmente Jessy deixa Sete Fazenda rumo à Cidade Central. Mas o caminho é cheio de surpresas e pessoas interessantíssimas!

Sair da fazenda para mim sempre foi algo que me deixava ansiosa: mesmo que fosse para a vila apenas para vender os produtos do nosso cultivo. Como o espaço da vila era pequeno, todos me conheciam. Os “bons dias” iam me saudando por onde quer que eu passasse. Na frente da taverna/bordel onde o Tio costumava vir beber e conseguir companhia, o dono (e algumas moças familiares a mim) acenaram e gritavam um “boa sorte” e outras um “volte logo”. No armazém, onde o Tio comprava nossos produtos de higiene, o dono que costumava comprar de nós leite de cabra e ovos veio em minha direção:

– Dia, Jessy. Bão?

– Dia, Harry. Bão i ocê?

– Bão tamém. Vai mêmo?

– Tô indo já!

– Sei. Mais logo ocê vorta. A vida lá é difício. E seu tio mimou demais ocê. Ocê num vai sabe se virá lá fora.

Eu sorri e respondi de forma áspera:

– Eu fui criada por um lutador, intão sou uma lutadora tamém. Passe bem, Harry.

Esporei a Véia e segui viagem. A Cidade Central, como é chamada a Capital do Reino fica a 5 dias de cavalgada. Mas contando que eu não tinha como fazer paradas em estalagem e muito menos trocar de cavalo, eu sabia que levaria no mínimo uma semana. Eu tinha suprimentos básicos, um saco de dormir quase novo, água e aveia para a alimentação da Véia... Enfim, eu estava pronta e determinada a chegar na capital.

Os três primeiros dias de viagem seguiram sem grandes rumores. Exceto a noite, quando eu via o movimento de coisas pequenas perambulando por aí, que eu não sabia muito bem o que era. Essas criaturinhas barulhentas sempre fugiam ao raiar do dia, sem deixar rastros de que estiveram lá. Na terceira noite de viagem, eu avistei uma daquelas caravanas mercantes que o Tio havia comentado comigo antes da minha partida. Não sei se foi devido a minha criação sem muito contato com outras pessoas, ou o fato de eu não ser muito boa em socializar, mas não fui capaz de chegar até a caravana. Montei meu acampamento numa certa distância deles. Podia ouvir gritos, risadas e sentir um cheiro maravilhoso de ensopado de frango com legumes que vinha de uma das maiores tendas. Acendi minha pequena fogueira, esquentei meu pão, derreti o queijo e quando estava quase pronto, me dei conta de que estava sendo observada. Quatro rapazes, aparentando mais ou menos a minha idade, estavam descaradamente me olhando e cochichando entre eles. Senti meu rosto corar e fingi, com todas as minhas forças que não era comigo. Parei de dar atenção aos meu observadores quando meu queijo já estava no ponto e eu havia acabado de começar a comer, percebi um deles sentando-se ao meu lado. Era o mais alto, e provavelmente o mais velho dos quatro. Tinha o corpo largo e forte e cabelos cor de trigo maduro e os olhos negros como noite sem lua. Ele abriu um sorriso largo de dentes amarelos e disse:

– Noite, moça!

Eu o olhei apreensiva e voltei a encarar com muito interesse o queijo derretido do meu pão que estava borrachento por ter esfriado. Mas ele não desistiu:

– Qual é a sua graça? – Como vi que não ia desistir, respondi:

– Jessy...

– Óia só! Ela fala! – Disse ela numa estrondosa gargalhada de trovão – Eu sou o Beau! A sinhorita tá indo assim, sozinha, prá onde?

– Vou prá Cidade Central. – Eu respondi, mordendo meu pão já frio.

– Mais sozinha? Ocê é de lá? – Perguntou ele, confuso.

– Não, é minha primera veiz fora de casa. Vou tentá uma coisa mió por lá.

– Bom, nossa caravana vai prá lá, tamém. Vem com a gente! Assim ocê pode comê cum nóis tamém. A Mãe tá fazendo ensopado de frango!

– Não, brigada. Tô bem aqui. – Eu disse de forma mecânica.

– Pare! Vamo lá! Nóis trata da sua égua tamém!

Olhei para a Véia, coitada, tão cansada. E me decidi:

– Tá bão. Eu vô co’cê.

Juntei minhas coisas, apaguei a fogueira e, enquanto isso, Beau foi trazendo a Véia, com um cuidado de quem já é acostumado a lidar com animais. Quando fomos nos aproximando, vi que os outros três rapazes que me observavam ainda estavam lá. Dois deles eram gêmeos: cabelos castanhos cor de mel e olhos esverdeados. Idênticos até nos caninos pontudos dos sorrisos fáceis. Ambos vestiam camisas simples xadrez: um azul o outro, vermelho e calças marrons de brim resistente. O terceiro rapaz, era mais baixo que os gêmeos e mais forte, tinha os cabelos num tom de loiro cinzento e olhos castanhos claros quase da mesma cor da terra da lavoura quando chove. Usava um macacão sem camisa por baixo, exibindo peito largo e braços fortes e cruzados de quem trabalha pesado. Ele não sorria, mas olhava atentamente para cada detalhe da égua, das minhas coisas e de mim. O gêmeo da direita, vestindo o xadrez vermelho, se adiantou, fazendo uma reverência desnecessária e exagerada:

– Boa noite, moça! Eu sou o Hugo! E foi minha ideia mandá chamá ocê! – Imediatamente o outro gêmeo se adiantou:

– Sai prá lá, Hugo! A ideia foi minha! Prazer, moça! Eu sô o José. – Disse ele, beijando minha mão de forma desajeitada.

– José?! – Ironizou Hugo. – Nem a Mãe te chama assim! Ele é o Zéca, moça! – Não pude evitar de sorrir. Enquanto isso, o terceiro rapaz se aproximou e estendeu a mão grande e forte:

– Eu me chamo Luiz e ocê? – Ele disse, apertando firme a minha mão.

– Jessy. – Eu respondi ainda rindo das graças dos gêmeos.

– Descurpe a farta de educação e jeito dos meus irmãos mais novo. Eles são meio pancada das ideia.

– Num tem nada não. Eles são uns paiaço! – E pela primeira vez, ele sorriu, enquanto concordava com a cabeça.

– Vem comê, Jessy! – Chamou Beau, saindo da tenda com uma panela enorme de ensopado da tenda, seguido por um senhor de estatura pequena, magro e de faces marcadas pela idade. Ele trazia cumbucas e talheres para oito pessoas.

– Não, brigada. Já jantei. – A resposta foi automática.

– Ara! Ocê nem terminô de comê aquele bagaço de pão que ocê feiz! – Beau virou-se para trás enquanto depositava o panelão numa mesa de madeira. – Ôh Mãããããeee! A moça disse que não vai jantá com nóis! – Quase no mesmo instante saiu da tenda a maior mulher que eu já vira na vida. Maior até que o próprio Beua, mais larga que ele e com mais barba e pelos pulando do decote caído, ela trazia uma colher de pau na mão que a fazia muito mais ameaçadora do que se fosse uma arma.

– Noite, fia. – Ela rugiu com voz de trovão, e antes de esperar resposta, completou – Num vai comê cum nóis por que somo pobre?

– Não, sinhora, é que eu já jantei. – A Mãe a estudou com um dos olhos fechados. – Janto, é? E comeu o quê??

– Pão com quejo de cabra derretido... – Eu estava começando a me sentir envergonhada.

– Pão com quejo derretido?! E isso lá é janta?! Ôh Pai! Vem cá e fala com essa minina aqui! – Ela entrou na tenda novamente e eu vi aquele senhorzinho que ajudou o Beau a por a mesa, se aproximando.

– Oi fia. Pode me chama de Pai. Ocê num vai come cum nóis? – Ele perguntou com uma gentileza que faltava à sua mulher.

– Não, Pai. Eu já jantei. Brigada. – Estava começando a me cansar de repetir a mesma coisa.

– Quanto tempo faiz que ocê num come direito? Uns dois dia?

– Trêis... – Outra resposta automática. Ele sorriu satisfeito. – Intão senta aqui e come uma refeição da boa com mais boa companhia!

– Tá bom, Pai. Discurpa.

– Tudo bem, fia. – Ele disse enquanto me guiava até a mesa. – Sei do seu orguio e respeito isso. É muito bão numa moça.

A Mãe serviu todas as cumbucas de forma generosa e foi passando de um a um. Quando todos nós já estávamos comendo, um rapaz distinto e bem arrumado chegou apressado e foi se sentando:

– Desculpem o atraso. Estava a conversar com o boticário que acompanha a caravana de vocês sobre aquelas ervas que encontrei no caminho. – Enquanto ele falava, a Mãe já foi servindo a ele uma cumbuca igualmente cheia, mas ao invés da colher que todos usávamos, ele tirou de dentro da bolsa de couro que levava de lado, o próprio conjunto de garfo e faca. O olhar dele recaiu sobre mim, e ele instantaneamente se pôs em pé:

– Desculpe, eu não havia notado que temos uma convidada essa noite. – Ele se curvou levemente enquanto se apresentava – Eu me chamo Phillip. É uma honra.

– Que honra, o que! – Disse Zéca, puxando-o bruscamente pela casaca para se sentar. – Ela é a Jessy e vai viajá com nóis na caravana até a Cidade Central.

– Que bom! – Disse Phillip, sorrindo de forma bondosa. – Seja bem-vindo a nossa caravana, então!

– Brigada. – Eu respondi meio sem saber o que dizer. Afinal, as pessoas não costumavam a ser gentis dessa forma lá em Sete Fazenda.

Phillip era muito diferente dos outros meninos. Era muito magro, de aparência frágil. Vestido sempre de forma elegante e sempre com um livro na mão. Seus cabelos eram mais compridos do que eu estava acostumada em homens jovens e ele usava aqueles arames retorcidos com vidros: os óculos. Ele falava de forma muito correta, e era mais educado do que qualquer pessoa que eu já havia visto em minha vidinha limitada.

Durante as conversas no jantar, descobri que a caravana era, de fato, liderada pela família deles. A família plantava grãos numa região famosa pelo cultivo chamada de Moinhos. Phillip por outro lado, era nascido e criado na Cidade Central. Depois do jantar, o Pai recolheu as cumbucas e ele mesmo as lavou, junto com os talheres. Eu continuei a conversar com os meninos e responder um extenso interrogatório a respeito da minha vida:

– Quantos anos ocê tem? – Perguntou Beau.

– 16.

– De onde ocê veio? – Perguntou Luiz.

– De Sete Fazenda.

– O que a fazenda sua produzia? – Quis saber Phillip, que parecia realmente interessado.

– O Tio e eu criamos animais prá ter leite e ovo e plantamo fruta, verdura e legume na roça. – Ele pareceu surpreso com a minha resposta, mas não perguntou mais nada, mergulhando absorto em seus próprios pensamentos.

– Ocê sempre fala do seu Tio. E seu pai e sua mãe? – Quis saber Beau, intrigado.

– Num sei, nunca conheci eles.

– Ocê tem namorado? – Só podia vir dos gêmeos.

– Não.

– Tá interessada? – Eles completaram juntos.

– Não! – Respondi de forma meio ríspida.

– Você tem parentes na cidade? Seu rosto é meio familiar a mim. – Disse Phllip, depois de finalmente deixar os pensamentos prá lá.

– Num tenho, não. É a primera veiz que eu saio de Sete Fazenda.

– Joga poker? – Perguntou Luiz, trazendo um baralho velho e um saco de estopa contendo grãos de feijão velhos que eles usavam como fichas.

– Jogo sim! Aprendi com o Tio!

Nós jogamos até altas horas da madrugada, quando a mãe apareceu de camisola para mandar todo mundo ir dormir. Como os meninos também dormiam em sacos de dormir, enfileiramo-nos todos perto do fogo e lá dormimos.

E embora eu estivesse encarando um mundo totalmente novo, com eles ali, eu ainda me sentia em casa.

Notas finais
Aqui conhecemos Beau (pronuncia-se "Bou") e sua família. Pessoas extremamente humildes e de coração muito bom, sempre dispostos a ajudar. Também conhecemos Phillip, um rapaz que cresceu na Cidade Central, mas que prefere ouvir a falar de si mesmo. Espero que estejam gostando! Até o próximo capítulo! Kirimi ^v^