Notas iniciais
Não postarei os próximos capítulos. Interessados na história, entrem em contato: matheus66696@gmail.com

Ignorando as advertências do cocheiro, Elyetus desceu da carruagem com o intuito de prosseguir a pé. O começo da Estrada do Vale ficava a dois dias de viagem de Crádia, mas a essa altura já haviam percorrido toda a extensão plana que ficava entre as Velhas, gigantescas montanhas que se elevavam dos dois lados da Estrada do Vale que, neste ponto, era ladeada apenas por arbustos. Há muito se dizia que no topo das Velhas vivia um antigo povo que jamais visitara o solo, vivendo apenas no alto das montanhas, se transportando, de alguma forma, entre elas. Entretanto, as histórias sobre eles nunca passaram de lendas ou relatos de pessoas não muito confiáveis.

Já haviam descido a encosta que serpenteava numa descida até o Vale ao qual o nome da estrada se referia. A depressão se estendia ao longe para leste, onde não se podia ver nada além da copa das árvores balançando perante os ventos noturnos, e para oeste, onde partes do rio ficavam visíveis entre a vegetação devido o reflexo da lua sobre a água. A comitiva pretendia seguir em direção ao local onde as limírias e as veletrizes eram menos numerosas. Seria mais prudente levantar acampamento num lugar onde visitantes indesejados fossem mais facilmente avistados.

Formada por sete dos melhores soldados da guarda real de Crádia, além de seu próprio comandante, o grupo designado para a proteção do príncipe na viagem seria indistinto em meio à escuridão, não fossem as tochas alocadas nas laterais da carruagem, e nas mãos de quatro dos cavaleiros. O comandante chamava-se Prácelus, e era considerado o braço direito do rei no que se referia à violência que era exercida por este braço. As cicatrizes que possuía na cabeça agora chamavam a atenção, destacadas pela escuridão, em meio aos seus curtos cabelos negros.

—Sugiro que paremos aqui hoje. O príncipe concorda com o local escolhido? — Disse Prácelus se referindo ao príncipe, que caminhava ao lado da carruagem.

—O lugar parece seguro, e já estou mesmo cansado. Amanhã talvez alcancemos o povoado, e aí teremos um teto sobre nossas cabeças durante a noite. Pretendo ficar o menor tempo possível em Leferídia. Não fosse a distância que a separa do povoado, passaria todas as noites em uma estalagem. — O desprezo era alarmante na voz de Lyetus, e Prácelus conhecia o príncipe o suficiente para saber que ele não tardaria a demonstrar o que sentia pelos Leferidianos. Lyetus, um sujeito intolerante por natureza, nascera num período também intolerante em Crádia, e crescera ouvindo histórias sobre como os homens eram os seres mais corajosos criados pelos deuses, e predestinados ao domínio sobre todos os outros povos. E, sendo Leferídia uma cidade onde todas as criaturas existentes eram bem-vindas, para Lyetus seu ódio era justificado.

Levantaram acampamento ao redor de uma fogueira, e Elyetus se acocorou próximo a ela para afastar o frio que chegara com o anoitecer. O soldado Wervis, que ficaria no segundo turno da vigília, também se aproximou da fogueira. Prácelos estaria no mesmo turno, porém, decidiu recuperar as energias com algumas horas de sono. Os quatro soldados designados para montarem guarda primeiro, se posicionaram em quatro pontos opostos e distantes entre eles. E um dos vãos deixados por eles, que aparentava dar em uma trilha para a floresta, despertou temor em Elyetus. Os dezoito invernos presenciados por ele não conseguiram amadurecê-lo o suficiente para os perigos que residiam nas florestas, e a vida no palácio não favorecera o desenvolvimento de habilidades necessárias para a sua própria proteção. Tentando afastar os pensamentos das ameaças que poderiam existir no negrume que era o interior da floresta, Elyetus se dirigiu a Wervis com o primeiro assunto que lhe veio à mente.

—Qual o seu nome, soldado? — Perguntou o príncipe, com um interesse repentino que assustou Wervis.

—Wervis, senhor, filho de Petrervis. — Respondeu, tentando soar natural, mas falhando miseravelmente.

—Está na guarda há quanto tempo? — O príncipe o interrogou novamente.

—Pouco tempo, na verdade. Venho da última seleção. — Respondeu o mais novo cavaleiro do grupo.

—E como já o mandaram para uma missão de tal importância? Fui informado de que só os melhores da guarda seriam enviados comigo. — Apesar de também soar arrogante, a principal característica do tom com que o príncipe disse aquilo era o medo.

—O número de soldados ingressantes diminuiu drasticamente nas últimas seleções, senhor. Já não precisam mais de tantos soldados. E, na vez em que fui selecionado, só eu e mais dois rapazes ingressaram. Com todo o respeito, senhor, não é nem justo me comparar a eles. Sendo assim, acreditaram que eu estava apto para minha primeira missão. — Disse Wervis cheio de orgulho nas palavras.

—Entendo. — Comentou Elyetus. — Espero mesmo que esteja. — Terminou, deixando o jovem cavaleiro próximo à fogueira, e se dirigiu para o interior da carruagem.

A noite de sono foi mais tranqüila do que Elyetus esperava. Só acordou quando o sol já iluminava o horizonte, expulsando a escuridão do céu. Ao acordar, tornou a se vestir, colocando seus largos calções e um capuz sobre a capa de viagem. Após o desjejum, partiram imediatamente em direção ao leste, onde, sobre o rio que teriam que atravessar, havia uma larga ponte de madeira construída pelos nômades das florestas, que, de tempos em tempos, retornavam e faziam uso dela. O dia passou rápido, e quando já podiam enxergar o povoado ao qual Elyetus se referira, houve um acontecimento inesperado, e Wervis teve a chance de mostrar a perícia que ele jurava ter em batalha.

Para ele, foi uma pena o príncipe ter corrido para dentro da carruagem e não ter presenciado a sua vitória sobre um gigante que fazia parte de um grupo de saqueadores, formado por mais dois homens e dois vleníres. O combate não levou muito tempo, e enquanto os outros componentes do grupo ficavam atrás do gigante, este veio na direção da comitiva, que no momento era encabeçada por Wervis. O soldado notou que o gigante, em sua corrida desenfreada, mirava em seu cavalo, e então, no último segundo, saltou. Foi então em direção ao emaranhado que era o cavalo e o gigante no chão, e rapidamente desembainhou sua espada para fincá-la na nuca do descomunal ser. Após a morte do gigante, obviamente o trunfo dos saqueadores, apenas os vleníres conseguiram fugir, favorecidos por sua exímia velocidade. Prácelos, então, lidara com os homens, que logo estavam no chão.

—É uma pena os vleníres terem conseguido fugir. São eles quem guardam o ouro. — Disse Prácelos, limpando a espada na grama.

Elyetus continuou na carruagem durante todo o percurso. O sol se pôs, e a chegada da comitiva ao povoado atraiu muitos olhares curiosos. Quando Prácelos perguntou a um velho onde havia uma estalagem, ele deu de ombros e se afastou rapidamente.

—Este estandarte não irá atrair muitas amizades. Sigam-me. Mostro onde há um lugar para ficarem. — Disse uma voz que Prácelos não ouvia há muito tempo, mas que não trazia lembranças muito agradáveis.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.