Contos da Carmândia - O Levante dos Gigantes
1 Capítulo 1
As colinas ao redor da cidade estavam cobertas pelo orvalho que durava poucos momentos da manhã durante o período quente nas terras da Carmândia. O sol ainda tocava apenas o topo da muralha, já que a leste dela se encontrava a densa floresta alta, com suas árvores escondendo os raios que sem elas tocariam o chão próximo a monumental construção protetora de Crádia, a cidade real. A muralha tinha a espessura de dois troncos de limíria e a altura de três delas, porém, ainda existiam os que preferiam viver fora dela. Não simplesmente por preferirem o espaço aberto que eram os montes Guelfander nos arredores do reino, mas pelo atual líder que o comandava. Ele havia quebrado a mais antiga das leis do reino. Tal lei determinava que após a morte de um rei, necessariamente, o seu sucessor seria um homem, caso o rei falecido fosse um gigante, ou gigante, caso seu antecessor fosse um homem. A lei permitira que não apenas um povo fosse beneficiado com os reinados, e também permitira a construção da muralha, impossível sem a ajuda dos gigantes. A disputa pelo trono, ocorrida há tanto tempo que poucos envolvidos ainda remanesciam, deixara marcas na convivência entre os homens habitantes da cidade e os gigantes que agora eram predominantemente camponeses dos montes, na maioria das vezes camufladas pelo acordo de paz selado entre os antigos líderes dos dois povos. Porém, raramente se via um dos moradores de Guelfander caminhando pelo interior da cidade, assim como era raro um cavaleiro da cidade se aproximar dos montes sem um motivo específico, como era o caso nesta manhã em particular. Os soldados Yilboro e Pergnus foram ordenados para sondar a base dos montes antes que o sol nascesse, mas estavam atrasados.
— Se insistir um pouco mais com esse cavalo, Pergnus, com certeza ele morrerá enquanto cavalga. — riu Yilboro, de cima de seu próprio cavalo enquanto o colega tentava tirar o seu do estábulo aos puxões pelo arreio. — Já está tão velho quanto eu. Anda, estamos atrasados! O capitão não quer que os guelfanderianos saibam de nossa visita.
Yilboro já não era mais jovem, assim como os fios brancos em meio a sua comprida barba ruiva poderiam comprovar. Também não possuía uma mente jovem e ingênua como a de Pergnus. Sabia que essa aparente excentricidade paranóica do rei sobre os guelfanderianos era fundamentada por uma tensão que ainda residia nas relações entre ele e o líder dos camponeses.
— Lufos cavalgou com meu pai durante a caça aos godrelos da floresta. Não posso deixar que definhe neste estábulo o resto de sua vida. Isto não passará de um passeio para ele. — Disse Pergnus, que havia conseguido trazer o velho cavalo para fora do estábulo e agora montava o mesmo. E então partiram rente a muralha, deixando o estábulo para trás e rumando em direção a pequena torre de vigilância que ficava a meio caminho da base dos montes de Guelfander.
Os montes, que se elevavam a oeste dos limites da cidade real, eram o ponto mais alto que se podia enxergar no raio que os olhos dos homens são capazes de alcançar. Neles era possível enxergar as cercas em que os guelfanderianos mantinham seus rebanhos, os altos chalés de madeira em que viviam e dois ou três pontos em movimento que poderiam ser homens comuns se Yilboro, que agora estava no alto da torre de vigilância, não soubesse que tinham dois metros e meio de altura e descendiam dos gigantes.
—Já estão rondando por ali. Não devemos nos aproximar mais sem nenhum pretexto. — Gritou Yilboro da janela para o amigo que esperava na base da torre enquanto segurava os cavalos. — Vamos embora. — Disse por último e desapareceu para o interior da torre.
Ao chegar ao solo, Pergnus não parecia satisfeito com a idéia de não cumprir o que lhes fora ordenado, então disse:
—Se desconfiarem que não fomos até lá, isso chegará aos ouvidos do rei. Sabe que são ordens diretas.
—Deixe que eu me preocupe com isso. E além do mais, a principal premissa de nossa missão foi cumprida. Eles não sabem que estamos vigiando. —Disse Yilboro.
—É um tanto quanto estranho termos que vigiar sem saber exatamente o que vigiar. Podemos vir aqui seja quando for. Os guelfanderianos são pacíficos em relação a nós, não iremos ver nada além de um punhado deles arando a terra ou cuidando dos rebanhos. Também não nos serve muito poder observar somente este lado dos montes. —Disse Pergnus apontando. —A maioria deles fica do outro lado. O rei não consegue pensar em tarefas mais inúteis do que esta?
—Você fala de coisas das quais não possui conhecimento, Pergnus. O rei tem seus motivos para nos mandar aqui. O número de guelfanderianos aumentou tremendamente nos últimos tempos. Na minha juventude eles não passavam de uma pequena aldeia com a diáspora que ocorreu após a tomada do governo, mas hoje seu número representa mais da metade dos moradores da cidade. — As lembranças pareciam atormentar Yilboro enquanto falava. — Que os deuses dos gigantes nos perdoem pelo que fizemos.
O caminho de volta aos estábulos pareceu demorar mais do que a ida. Yilboro não disse uma palavra sequer, enquanto Pergnus tinha a sensação de que para ele algo faltava no quebra-cabeça que eram os acontecimentos passados relativos à conquista do direito de transmitir o poder sobre o reino apenas para os descendentes de Nyeftus, pai de Livtus o atual rei. Yilboro, que sempre fora o mais devotado dos soldados, tinha dúvidas quanto os atos de Nyeftus, logo, seria natural que qualquer outro tivesse os mesmos pensamentos. As histórias sobre a conquista de Nyeftus envolviam justificativas que ainda hoje pareciam sólidas, mas o reinado de seu filho, não tão convincente quanto o do pai, trazia pensamentos subversivos a qualquer um que se dispusesse a pensar.
Estavam agora se aproximando novamente dos estábulos, e o sol já estava bem alto no céu. De longe puderam enxergar, próximo a saída da cidade, o estandarte contendo o brasão de Livtus e uma comitiva de oito soldados que estava a frente da carruagem onde provavelmente se encontrava um dos membros da família real. Pergnus e Yilboro se entreolharam. Nos últimos anos nenhuma viagem longa fora feita pela realeza. A falta de necessidade de relações com reinos distantes era a causa do aparente isolamento temporário de Crádia, e isso se devia ao longo período de paz que reinava atualmente. Tais relações só eram reafirmadas em períodos de guerra, e até onde sabiam nenhuma guerra era iminente. Ao se aproximar da carruagem, Yilboro viu um soldado conhecido e perguntou:
—Alguma emergência exige essa comitiva, Wervis?
—Nenhuma informação nos foi passada, Yilboro. Apenas que estamos indo para o sul. Presumimos que iremos até Leferídia, mas não é nada confirmado. Só o cocheiro e o príncipe sabem para onde iremos. — Respondeu o soldado.
—E qual dos príncipes está sendo enviado? — Perguntou Pergnus na frente de Yilboro.
—Elyetus. — Disse o soldado sabendo o que iriam pensar.
O herdeiro do trono, obviamente, só estava sendo enviado devido a uma causa realmente importante. E se estivesse indo para Leferídia, a maior potência em soldados e antiga aliada de Crádia, só poderia significar uma coisa.
Fale com o autor