Contos Urbanos

1 1: He said he would never go away. He lied.


-Você sabe que isso não te faz bem, Camile.

À porta, Rox disse em uma voz aveludada, aduladora. Eu sabia que no fundo ela alimentava uma pequena esperança que na décima quarta vez eu a escutasse.

-Sim, retruquei, por que ir naquela boate vai me fazer muito bem, mesmo. Qual é, Rox. Você sabe que eles vão estar lá. Deixe que eu passe minha noite de sexta com meu livro.

Suspirando, Roxanne Oliviée saiu. Ela era francesa, linda, teimosa e a melhor amiga de todos os tempos. Todas as sextas ela empenhava uma sangrenta batalha para tentar me tirar de casa. Ultimamente, eu tinha ganhado com mais frequência. Tinha o melhor argumento e, mais importante, nós duas lembrávamos bem o que acontecera da última vez que eu me rendera.

Por algumas horas, tudo correu bem. Eu tinha o melhor lugar do sofá, tinha um bom livro e tinha uma taça de vinho. Por algumas maravilhosas horas, isso era tudo. Porém, aproximadamente meia-noite, o vinho acabou.

-Por que o vinho sempre acaba?

Resmunguei. Vasculhei o apartamento em busca de mais, mas só encontrei meia garrafa de whisky e duas latas de cerveja. Bufando, decidi sair para comprar mais e calcei sandálias por cima das meias, por que à meia noite de sexta feira ninguém vai reparar nas sandálias de uma menina descabelada de moletom, calças frouxas e meias dispares.

Girando as chaves no indicador e murmurando uma velha canção de ninar, andei na calçada em direção à padaria mais próxima. Não tinha andado nem bem dois quarteirões quando ouvi gritos eufóricos e música alta vindos do outro lado da rua. Praguejando, abaixei a cabeça, usei uma cortina de cabelo para esconder o rosto e apressei o passo, tentando passar despercebida.

Na padaria, escolhi um vinho barato e batuquei os dedos na coxa enquanto esperava na fila para pagar, formando uma melodia conhecida e antiga. Entreguei o dinheiro ao menino espinhento no caixa e saí para a calçada rumando para casa, segurando a garrafa de vinho firmemente contra o peito como se minha vida dependesse disso e pensando comigo mesma, distraída, para matar o tempo durante a curta caminhada até em casa; O menino ruivo no caixa da padaria era muito jovem. Tinha cara de Ruffus, embora não fosse esse o nome em seu crachá. Tinha uma expressão absolutamente entediada. Talvez Ruffus odiasse seu emprego. Talvez uma menina chutada de cabelo castanho bagunçado e sandálias por cima de meias de cores diferentes atrás de vinho fosse o acontecimento mais interessante do dia. Pobre Ruffus.

Eu estava prestes a voltar e dar a Ruffus uma generosa gorjeta quando vozes animadas e música eletrônica vindas da boate atravessando a rua chamaram minha atenção. Como da última vez, abaixei a cabeça e me apressei, porém dessa vez esbarrei em algo forte que eu não estava vendo. A força do encontro quebrou o gargalo da garrafa, e apesar de não ter machucado ninguém, boa parte do vinho derramou-se no garoto em quem eu esbarrara.

Ele não podia ser muito mais velho que eu, percebi, e tinha pele morena, cabelo escuro e olhos claros.

-Sinto muito! — Exclamei, lamentando por sua arruinada camisa azul.

-Você está usando sandálias por cima das meias.

Ele falou, mas não estava olhando para sua camisa e sim para os meus pés.

-Sua camisa tem gosto de vinho barato — Devolvi. Sobressaltado, o garoto olhou para baixo e pousou a mão sobre o peito. -Algo que pode ser consertado, me apressei a acrescentar, tenho certeza que devo ter lá em casa algo que sirva em você.

Ele pareceu confuso de início. Primeiro encarou meu rosto como se tentasse absorver minhas palavras. Depois, seu olhar recaiu-se em minhas sandálias. Foi olhando para elas que ele respondeu.

-Claro. Por que não?

Eu o liderei até o apartamento. Não gostei do olhar que o porteiro me lançou ao abrir a porta, como se fosse cúmplice de um segredo. Discretamente, gesticulei para a camisa manchada dele e para garrafa em minha mão. O porteiro piscou.

Contendo a urgência de dar um tapa na minha própria testa, levei o garoto até meu apartamento.

-A propósito, meu nome é Camile. — Informei-o, pousando o vinho na mesa.

-Sou Luke, ele disse, observando a sala com curiosidade. Seus olhos pousaram no livro que eu estivera lendo.

-Posso?

Perguntou. Assenti. Quando ele estava prestes a se sentar, notei algo importante e acrescentei:

-Apenas não se sente no lugar do Ginger. No demais, sinta-se em casa.

Ele rapidamente passou para outro canto do sofá, e então me olhou torto.

-Quem é Ginger?

Bem na deixa, um enorme gato peludo e laranja pulou e se acomodou no lugar que Luke estivera prestes a sentar.

-Este — Apontei — é o Ginger.

Ele sorriu e coçou atrás da orelha do gato, enquanto eu adentrei o corredor procurando uma blusa que servisse nele. Infelizmente (ou felizmente nesse caso) eu ainda não me desfizera das roupas daquele-que-não-deve-ser-nomeado, então peguei uma de suas blusas velhas e joguei para Luke.

-Vai ficar um pouco grande, mas vai servir.

Comentei. Ele ergueu os olhos do livro relutantemente e examinou a blusa sem muito interesse. Então, caiu o olhar sobre meus pés.

-São de cores diferentes.

Ele constatou. Levei um segundo para entender, então observei minhas meias, uma azul e a outra laranja.

-Hm. — Eu fiz, constrangida. — Bem, sim.

Sem tirar os olhos dos meus e muito lentamente, ele descalçou os tênis que estivera usando. Encarei as meias dele por alguns minutos para processar. Uma era roxa berrante. A outra era verde intenso.

Legal, pensei.

-Quer tomar uma taça de vinho? — Ofereci com a voz um tanto estrangulada, gesticulando para a garrafa com o gargalo quebrado.

Seus olhos piscaram, divertidos. Luke deu um sorriso amplo.

- Seria um desperdício não tomar — Afirmou.

Afinal, ele tinha mesmo cara de quem ficava por cima.

Notas finais
Heeey. Reviews?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.