Contos Sobre a Mesa

3 Copo Americano


Josué sempre teve um fraco para vícios. Quando tinha 12 anos, descobriu o que era a pornografia, e usufruía disso, pelo menos três vezes ao dia. Ao acordar, quando chegava da escola, e ao anoitecer, antes de dormir.

Certa vez, Dona Darci, tia avó de Josué, o pegou no flagra. Foram no mínimo dois natais sem nem ao menos olhar Nos olhos da tia. Depois de uma franca conversa com o pai, que o explicou que era normal, se usado com moderação, Josué parou de se martirizar.

Até chegou a pedir a mãe para o levar ao Padre Lucas, quando, aos 13 anos, percebeu que vivia apenas para e por masturbação. Apesar de não acreditar que acabaria morrendo e indo para o inferno, Josué se impedia de fazer aquilo que considerava... imoral, vamos assim dizer. Na verdade, me lembro o por que ele fez esse pedido.

Em uma tarde, enquanto assistia mais um dos muitos vídeos onde uma bela moça esfregava seus seios numa tela, afim apenas de produzir endorfina no jovem do outro lado da tela, Josué acabou num artigo com o seguinte título:

“COMO A MASTURBAÇÃO TE LEVARÁ AO INFERNO?”

Pobre garoto de 13 anos, se viu condenado a encontrar Belzebu. Foi quando, pediu para se confessar.

Como já afirmei, Josué sempre teve um fraco para vícios. Aos 15 começou a beber, e aos 16 a fumar. Era descolado no começo andar com um cigarro de por detrás da orelha. E o álcool o fazia esquecer.

Seu pai, que sempre fora um ótimo pai. Lhe ensinou sobre futebol, ensinou sobre garotas e principalmente, o ensinou a ser um homem decente. Quando já tinha o tamanho de seu progenitor, Josué viu seu herói levantar a mão para sua rainha.

Foi a primeira vez que olhou de frente para o pai, e foi a primeira vez que protegeu sua mãe. Também foi a primeira vez que apanhou de se pai. Quando bebia, esquecia as agressões, ou pelo menos fingia esquecer.

Agora, aos 23, Josué, estava encarando um copo americano a espera do garçom lhe trazer a 10ª garrafa de cerveja. Toda vez que se sentava naquele bar, sabia que uma desastrosa noite viria a seguir. Ela acabaria com ele caído pelas ruas de São Paulo, ou na cama de um sujo motel com um estranha prostituta.

— Eu odeio minha vida, a única coisa que eu tenho nesse momento, é essa merda de copo americano. – Jonathan, seu agente barra amigo, pensava no que fazer para ele parar de se embriagar, negou com a cabeça dando de ombros. – E o pior? Ele nem está cheio... – Josué riu alto, se levantando e seguindo para dentro do estabelecimento. – Marquim! Preciso de algo mais forte! Me dê um... Uma cachaça. Coloca na conta, que eu pago quando receber.

Marcos, o senhor de meia idade, dono do bar, olhou para Jonathan que estava a poucos centímetros de distância, e o questionou com o olhar. Estava claro que não era para ceder ao bêbado.

— Cachaça acabou, e eu acho que está na hora de você ir embora também Josué. – Disse enquanto limpava a bancada com um pano já sujo. – Preciso fechar o bar, tenho um compromisso está noite.

Sem entender, Josué que queria apenas esquecer sua atual situação, andou em direção a rua.

— Irmão... Vamos para a casa, sim? Tomar um banho, e terminar o que começou para o jornal, sim? – Jonathan, falava como se aquele homem feito tivesse 10 anos.

— Eu não vou terminar aquele texto. Ele fala sobre violência contra mulher, e isso... isso é ridículo. – Josué falou enquanto com o dedo indicador, rodeava a borda do copo americano.

— Você é pago para escrever textos com temáticas prontas. Não pode escolher oque vai escrever. – Jonathan falou, tentando o levar para fora do bar, com total resistência.

Josué que continuava parado olhando para o copo, ergueu o olhar rapidamente para o amigo, e com um meio sorriso, deu de ombros. Havia algo dentro do bêbado que fazia-o querer ironizar o assunto do texto que deveria escrever.

— Eu já te contei... já te contei que meu pai matou minha mãe? É, ele sempre foi incrível, até que... ele batia tanto nela, que... um dia, ela apenas não acordou mais. Eu tinha 15 anos. – Ele se calou e suspirou, virando o copo na direção de sua boca, apenas para se constatar que não havia mais nada naquele copo para tomar. Em um acesso de raiva, o bateu com tanta força no balcão, que voou estilhaços por todo bar. Josué olhou seu sangue, escorrer por dentre sua mão, e sorriu. – Eu liguei pra polícia, para falar que... – Sem nem perceber, lagrimas teimavam em sair de seus olhos. – Que ele estava a matando.

— Josué... – Jonathan disse, tentando tirar a possível imagem que pairava na mente do amigo barra agenciado.

— Eu não vou escrever um texto, glorificando a polícia, a mesma que afirmou com destreza... que eu estava fazendo um trote. – Ele disse se virando para Jonathan, porém ainda olhando para sua mão machucada. – Eu quero mais que o Jornal, que a polícia, e que você de fodam. Eu não me importo com nada mesmo.

Jonathan que só estava querendo ajudar o amigo, percebeu que nada mais poderia fazer. Ficou parado no bar, olhando Josué sair pela portinha lateral, pois o bar já estava fechado. Suspirou, tirou cinquenta reis de dentro de sua carteira, e entregou a Marcos.

Foi quando ele descobriu que não adiantaria lutar para ajudar quem não quer ajuda.

Josué é um viciado. Sempre foi um viciado, e não, ele não quer superar.