Contos Perdidos
9 Sacrifício
Notas iniciais
Escrevia em minha mesa quando parei para ler meus versos, eles agora eram como papel atirado ao fogo, eram como varrer a areia do deserto, meus versos melancólicos e depressivos:
De que me adianta agora.
Se o mar venceu o barco.
Se a luz foi derrotada pelo pecado.
Se minhas esperanças...
Reles esperanças.
Que agora ardiam como lenha.
Esperando o fim.
Nós éramos como carne e unha.
Planta e água.
Lua e estrelas.
Mas no fim,
Será que a carne putrificou,
Será que lenha fez o fogo cessar,
Será que Lua e estrelas foram encobertas pelas nuvens de outrora?
Realmente fomos lindos.
E Belos.
Mas no fim.
Fomos.
Apenas.
Caveira e Flor.
Estes que se consolam.
Toda a tristeza.
Encarnei.
Mas e o amor?
A paixão?
O fogo que queimava por entre nossos lábios?
Este tu encarnastes.
És agora.
Essência da paixão.
Mas a ti que agora percorre.
Letras e frases apressado.
Sedento por mais.
O que tu és?
Resolvi por mim mesmo a visitar Louise, ao pensar nela senti minhas lágrimas percorrerem um sinuoso trajeto pelo meu rosto, sequei as lágrimas e andei até a enfermaria. Lá estava A Curandeira, passava ervas no corpo de minha amada, fazia cantos ritualísticos, então uma luz irrompeu minha mente, ordenei que parasse, ela atônita, obedeceu mesmo que relutante.
fui a beira do leito e chorei em suas mãos, estas que antes me trouxeram tamanha paz, agora traziam pesar e destruição para meu coração, só queria salva-la. Se teria que dar minha vida em troca, não me importava. Então, como o orvalho que recai sobre as flores pela manhã, como a fuligem que paira sobre os mineiros e a lenha da realeza, como o acalento da mãe para seu filho. Cantei:
Ah.
Será.
Que em teu coração.
Ainda arde aquela chama.
Minha ultima esperança.
Sua vida tão importante.
Por que com ela fostes brincar?
Não percebes que eu te amo.
E nem nunca vou parar.
Balança da vida.
Pesos da justiça.
Ouçam ao meu clamor.
Tragam.
Para os meus braços.
A amada que me deixou
Subitamente uma voz em minha mente respondeu: “E quanto me pagas?” Respondi ainda cantando:
Será que até tu.
O mais nobre dos espíritos.
Ainda clama por riqueza.
Conquistada pelos vivos.
Até tu.
Barqueiro.
Cai na mesma desgraça.
É vilão da nossa vida.
Mas subordinado da nossa raça.
Me responda.
Oh Ceifador.
Mesmo depois de te desvendar.
Inda me cobras com fervor.
A voz me respondeu um pouco angustiada:” Me desvendastes, mas ainda será cobrado um preço, mesmo que este não seja material, eu preciso equilibrar a balança.”.
Desmaiei, vi de relance Louise tossindo e abrindo os olhos, “Funcionou! Ela está viva, me sinto tão cansado, A Morte falou em equilíbrio, não me importo se minha vida for a moeda.”
Subitamente dormi.
Acordei no leito, Assim que abri os olhos Louise me beijou e abraçou.
– Fiquei tão preocupada! – Disse ela com lágrimas nos olhos. -
– Eu sei, também te amo – Enxuguei seu rosto e me levantei.-
– Você cometeu um grande erro, barganhou com o pior dos comerciantes, mas vamos esperar.- ela riu e voltou aos aposentos.
Mais tarde, no pôr-do-sol. Eu lia em meu quarto. Ouvi batidas na porta
–Entre! – gritei e a curandeira entrou no quarto-
– Você causou uma perturbação no equilíbrio, eu vou ter de fazer uma prece em seu nome, Rikkey pediu para eu pegar um desses pergaminhos. Assenti com a cabeça e ela começou a cantarolar em várias vozes:
Os campos abençoam a todos.
Fartura é o que nos aguarda.
Trabalhamos em nome da nação.
Não te preocupa conosco.
Sabemos nosso jeito.
Somos o alimento que chega em tua mesa.
A bebida que aprecias.
A nação sobrevive as nossas custas.
Porém há outro.
Este ganancioso e vil.
Tão malévolo que não ouso pronunciar seu nome.
Se recusa a entregar terras para o bem da nação.
Não confiais em alimento dele.
Não aprecie sua bebida.
Pois nele repousam males inumeráveis.
Confia em nós que te servimos com fervor.
Mas a ti pergunto.
Meu caro consumidor.
Quem pensas que somos nós?
E quanto a Ele?
Senti uma aura emanar da Curandeira para mim, me senti muito cansado e me deitei, Acordei de madrugada com alguém se deitando na minha cama, abri os olhos, Logo notei que aquele par de olhos flamejantes só poderia pertencer a uma pessoa, Ela se deitou de conchinha comigo e cantarolei um verso em seu ouvido:
Que teu amor por mim seja tão grande e infinito como o meu amor por você.
Ela riu e se aninhou no meu peito. Então adormecemos juntos.
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