Contos Fragmentados
19 Lágrimas de Ricardo
Notas iniciais
–Você estará aqui amanhã, mas afinal, quem será você amanhã? E como será este local amanhã?- disse Carlos com seus olhos castanhos vidrados naquele mar de automóveis.
–Carlos, eu não estou tão bêbada. — Ana ria daquela situação enquanto acariciava o rosto do rapaz.
–Nada é constante. Tudo está sempre mudando. — dizia Carlos um tanto quanto melancólico.
–Então vamos aproveitar enquanto eu ainda sou a Ana e você é o Carlos. — disse a moça erguendo seus lábios para Carlos.
–Espero que o ‘você’ de amanhã ainda me ame. — disse o rapaz sorrindo.
–Vamos fazer isso acontecer.
Naquela noite, uma explosão do outro lado do país matou 15 pessoas, dentro dessas, a garota que Ricardo gostava em segredo. Mas quem era Ricardo? Ricardo era apenas mais um chorando em sua varanda pela morte de tal garota.
E o mundo continuava a mudar.
O amanhã chegou e Ana ainda amava Carlos, Carlos ainda amava Ana, e eu ainda era apenas um narrador melancólico. Os músicos ainda cantavam sobre as estrelas, os poetas ainda escreviam sobre o céu e o mar, os bêbados ainda choravam no final da noite e o mundo ainda era o mundo.
Mas Heráclito continuava certo.
As estrelas já eram outras estrelas, agora tinham um brilho mais intenso.
O céu era outro, com uma cor mais rosa.
O mar já era totalmente diferente, com novos peixes e ondas maiores.
Os copos de bebida estavam mais cheios.
O amor de Ana e Carlos estava mais intenso.
O narrador menos melancólico, pois encontrou um amor.
E as lágrimas de Ricardo já se secaram, pois encontrou o narrador.
No hoje podemos estar bem, ou podemos estar mal. Ou os dois ao mesmo tempo. E mesmo assim, nada será constante, tudo se transformará.
Aguente firme, Ricardo.
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