Contos Diversos Volume 1.
30 Terceiro Conto - Arthur e sua epifania - Capítulo final.
Terceiro Conto – Epifania de Arthur.
Capítulo Final – Arthur e sua epifania...
Epifania é uma súbita sensação de entendimento ou compreensão da essência de algo e isso explica todo meu convívio com Helena deste então e após perceber que eu posso criar histórias de acordo com minhas experiências de vida eu praticamente mudei de vida.
Faz quase quatro anos que eu havia conhecido Helena quando ela decidiu trabalhar naquele escritório e tudo girou em torno da capacidade de se aproveitar o máximo da vida.
Ela me tratou como diamante bruto e utilizou de várias formas a minha curiosidade sobre sua vida e demorei um bom tempo em saber que ela havia deixado de me usar por muito tempo.
Acabei jogando boliche com os amigos dela e sofri repressão por minha insegurança, pude treinar por uma maratona que eu tinha total certeza que não chegaria a primeiro e ainda escalei uma montanha após percorrer uma trilha perigosa em uma reserva florestal.
Conheci o passado dela e percebi o quão inseguro ela era e logo percebi que as pessoas são inseguras e que eu também poderia superar essa insegurança em minha vida.
Todavia eu notei que não era necessário me interessar nas historias de outras pessoas se eu posso criar histórias interessantes em minha vida.
E aqui está um breve resumo dos meus quatro anos após Helena partir para Europa, eu terminei meu MBA além de aprender inglês e alemão e até mesmo viajei por alguns cantos do país, cursei música e agora eu me tornei um representante de uma empresa grande, viajo pelo mundo apresentando os produtos dessa empresa, mas um lugar que me deixou ansioso por visitar era Frankfurt.
Há quatro anos eu prometi Helena que iria alcançar ela em menos de um ano, obviamente eu não pude cumprir com essa promessa, pois demorei quatro anos para chegar à Alemanha e por esse fato eu acreditava que ela havia desistido de me esperar e voltou a viver sua própria vida.
Deste o momento que ela decidiu viajar para Alemanha ela sempre me mandava e-mails me atualizando sobre sua viagem, a sua última mensagem foi mandada quatro meses atrás e deste então ela não mandou mais, a foto que ela me mandou eu a imprimi e gastei um bom tempo em achar a entrada do hotel que ela tinha tirado a foto, mas finalmente eu a encontrei.
Meu alemão não era tão bom assim e por sorte a recepcionista conhecia um pouco de inglês, eu perguntei a ela se Helena ainda estava hospedada lá, mas ela logo me respondeu que ela havia fechado a conta naquele hotel já fazia um mês.
Ouvir aquela notícia me deixou sem esperança, obviamente ela tinha desistido de me esperar e eu permaneci sentado na escadaria do hotel pensando o porque demorei tanto para vir até aqui.
– Não seja idiota Arthur, até parece que ela iria ti esperar...
Uma mulher que havia chamado minha atenção logo se aproximou de mim.
– Está perdido amigo? – A indagou em alemão.
– Mais ou menos... – Respondi. – Você sabe falar inglês? É porque meu alemão é péssimo.
Ela por outro lado riu e começou a dizer em inglês.
– Claro que sim, agora me diga qual o problema?
– É que, eu prometi para uma pessoa que iria me encontrar com ela nesse hotel, mas eu demorei demais e não pude cumprir minha promessa.
Ela respirou fundo e sentou perto de mim.
– Se ela de alguma forma conhece você ela sabe muito bem que não iria desistir de você tão fácil, o tempo pode ser cruel exceto para as amizades mais verdadeiras.
Aqueles dizeres me lembraram de um fato muito importante, só amigos verdadeiros sobrevivem com o tempo, eu conto nos dedos as pessoas que diziam ser meus amigos e continuamos nos encontrar sempre que possível, enquanto muitos que me tratavam como tal sumiram de minha vida na mesma velocidade que ganhei sua confiança.
– Tem razão. – Levantei-me e logo segui em frente, pude ouvir a risada daquela moça de longe que logo disse algo que me chamou atenção.
– Você é Arthur não é mesmo? Parece que você não cansa de surpreender ela.
Virei-me curioso pelos seus dizeres.
– Como sabe meu nome?
– Oras, eu estava esperando por você para dizer uma coisa.
– Você é Helena? Caramba, mudou tanto que eu não ti reconheci.
– Não idiota, estou aqui para dizer de que ela ainda não desistiu de esperar por você e que ela sabia que sua capacidade o faria demorar muito a alcança-la, afinal de contas você é ruim em aprender idioma.
Típico dela, me subestimar, mas hoje entendo que isso é uma forma de psicologia reserva, não há uma palavra melhor de motivação do que dizer “eu duvido”.
– Você poderia me dizer onde ela está? Se ela está nesse país?
– Nesse país? Ela voltou para casa há muito tempo...
Não acredito que eu tinha vindo aqui em vão.
– Mas ande logo antes que você a perca novamente.
De alguma forma isso abriu minha mente, eu agradeci a ela pela informação passada e fui para o aeroporto, por azar meu voo atrasou e esse foi o tempo necessário para eu processar todas as informações.
Talvez se eu não a conhecesse eu nunca chegaria onde estou agora, talvez vivesse minha vida simples sem expectativa de melhora ou se conformar com uma vida chata sempre procurando histórias mais interessantes que minha própria, eu nunca pensei que poderia me tornar um protagonista em minha própria história e cá estou.
Por outro lado talvez ela não largasse o peso da morte de sua melhor amiga nas costas caso não me conhecesse, eu a ajudei a criar uma historia mais interessante que seu próprio passado e ela continuaria vivendo sua vida de maneira superficial, carregando aquele fardo e sendo tratada como uma assassina.
Talvez nada disso tivesse acontecido talvez eu não sentisse essa mesma aflição de revê-la após tanto tempo de reclusão, talvez eu não me interessasse tanto na história dela quando a conhecesse...
Talvez eu não tivesse isso que as pessoas chamam de epifania, uma realização pessoal que todos nós deveríamos compreender em nossas mentes...
Após muito tempo remoendo os fatos que aconteceram eu nem sequer percebi que eu havia voltado para casa.
Ao voltar ao meu velho apartamento eu vi algumas caixas na frente da porta da antiga casa de Helena e logo imaginei que ela estaria ali, após tanto tempo eu poderia vê-la novamente.
Fui bater na porta dela mas eu gelei, será que eu estava preparado por aquele encontro? Deixei minha frescura de lado e eu o fiz.
Um sujeito que eu nunca tinha visto na vida atendeu a porta, não era Helena.
– Pois não?
Fiquei alguns instantes pensando na situação.
– A Helena está?
– Helena? Acho que você bateu na porta errado.
– Ah, sim, me desculpa...
– Sem problema.
E assim o cara fecha a porta, eu bato a cabeça na parede tentando saber onde ela poderia estar, até que uma pessoa bem vestida chama minha atenção.
– Você prometeu que iria me encontrar na Alemanha, não é mesmo?
Era Helena, estava vestida como uma empresária ou algo assim, minha mente retesou por um instante e logo fingi como que eu não me importava ou pelo menos tentava esconder minha surpresa ao vê-la diferente do que a quatro anos, afinal de contas passaram-se quatro anos.
Como o tempo passa rápido.
– Droga, você nem sequer tem paciência, eu viajei para Alemanha a toa, além de que você do nada parou de me mandar mensagens sobre sua aventura, achei que você tivesse desistido de mim.
– Você não entende que tudo que fiz foi de propósito? Eu sabia que você nunca iria me encontrar na Alemanha.
– Como pode ter tanta certeza? Você sempre me subestimou e veja onde estou, meu alemão é horrível, mas me viro muito bem com o inglês.
– Gostei de ver, parece que você não precisa ser lapidado mais, pois você fez o resto do serviço.
– Como assim?
– Sabe o que é mais difícil? O trabalho sobre si mesmo, e você completou com maestria sem minha ajuda, parabéns.
– Não é como se eu tivesse feito por você, apenas cansei de viver a cada dia por viver.
– Está dizendo que eu não tive nenhuma influência?
– É claro que não, alguma influência você teve, mas eu fiz o resto do trabalho. Espera um pouco? Porque estamos tendo essa conversa?
– Simples, queria saber o quanto você mudou durante esses anos.
– Por quê?
– Porque eu iria perceber que não perdi meu tempo em vão.
– Isso foi cruel de sua parte.
Não importa que tipo de conversa estranha nós tínhamos naquele momento eu novata uma certa confiança em seus olhos, algo como “deixei o passado para trás e decidi viver o presente”.
– Para celebrar nosso encontro, porque não saímos para algum lugar mais calmo? Assim eu e você possamos compartilhar nossas histórias...
– Como é?
– Não, não é o que você está pensando, não é como se eu quisesse dividir minha vida contigo ou algo assim.
– Não entendi...
– Não, é que, bem, sabe como é, eu gosto de ouvir histórias e eu também tenho histórias para contar, sabe, histórias que possamos compartilhar até para nossos filhos.
– Você não está sendo apressado demais?
– Ah droga, você está fazendo de propósito, você sabe muito bem que não sou bom nessas coisas...
Ela riu de maneira estranha.
– Agora só falta você trabalhar nisso.
– Nisso o que?
– Na sua Timidez.
– Eu não sou Tímido.
Chegamos naquela simples praça onde passamos algum tempo e começamos compartilhar nossas histórias nesses quatro anos, apesar de que essas histórias, histórias que talvez devam ser contadas em uma nova oportunidade.
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