Contos Diversos Volume 1.

28 Terceiro Conto - Arthur e sua epifania


Terceiro conto – A epifania de Arthur.

Capítulo Oito – Um adendo ao passado parte final — Consertando o passado.

Sete da manhã eu sou despertado pela campainha de minha casa, logo entro em choque, pois começo a acreditar que dormir demais e perdi a hora, corro para a porta e pelo olho mágico eu olho para Helena no outro lado da porta, eu abro e percebo que ela de alguma forma está preparada para sair para algum lugar.

– Helena, que horas são? Ainda está cedo...

– Desculpa por ti acordar Arthur, mas preciso de um favor seu...

Não faz muito tempo que ela se recuperou por completo e apesar do vexame que aconteceu comigo ao queimar o diário dela dentro do hospital e logo notei a porcaria que eu havia feito, eu nem sequer “salvei” as fotos dela, mas parecia que ela tinha aceitado aquele fato de bom grato.

– Aconteceu alguma coisa?

– Não, é que pretendo ir hoje para minha cidade natal e gostaria que você me acompanhasse.

Comecei a estranhar suas atitudes, antes eu estava interessado em sua história e agora eu iria finalmente conhecer o palco daquela historia, ou melhor, dizendo, vamos supor que você assista a um filme que você goste muito e logo depois disso você é convidado a visitar o set de filmagens desse filme, é como eu estou me sentindo, apesar de que a história de Helena foi um pouco chocante do que “divertido”.

Oito e meia e estávamos nós dois pegando um trem para o interior, ela me disse que era mais fácil ir por trem do que de carro e eu nem sequer reclamei, pois estava acostumado a utilizar o transporte público então para mim tanto faz.

O que me incomodou foi que ela passou a viagem inteira calada, isso não era normal nem em seus atributos, ela permanecia com o mesmo olhar distante e vazio encarando a paisagem e eu me sentia com o direito de perguntar o que estava havendo. Ela logo notou minha preocupação e logo demonstrou que estava tudo bem pelo sorriso fraco dela, eu me lembro de ter dito que a doença deixava qualquer um vulnerável, erro meu, as pessoas encararem seu passado trágico também os deixavam vulneráveis.

O maquinista anunciava a última estação, Helena logo se levantou e então eu entendi que aquela era a estação e logo percebi que realmente ela morava bem perto, se eu vivesse a vida dela eu tentaria ir o mais longe possível.

A cidade era pequena, uma cidade do interior eu até tentei puxar assunto com ela mas seu rosto demonstrava que não era um ótimo momento para conversar.

Nós nos aproximamos em um cemitério e ela logo se aproximou em uma tenda onde comprou um buque de flores então ela olhou para mim o que fez eu gelar a espinha.

– Você pode esperar por um momento? Eu preciso consertar as coisas.

O que eu poderia dizer? Ela estava em luto.

– Pode levar o tempo que quiser.

Outro sorriso fraco e ela logo se aproximou daquele cara que havia deixado ela mal, como eu queria socar ele, ele não sabe o martírio que ela carrega deste aquele incidente.

Mesmo de longe eu pude ouvir suas conversas.

– Pelo jeito você cansou de correr de seu passado. – Disse aquele rapaz.

Ela olhou para ele e logo passou por ele se aproximando do túmulo, assim ela se agachou e colocou o buque de flores em cima da lápide.

– Nunca fugi de meu passado. – Disse Helena enquanto se levantava. – Apenas dei um tempo para mim mesmo.

– Não tente fugir da culpa, você é a responsável, pois tirou ela de mim.

– Sim, sou culpada, eu me arrependo todo dia de não ter interpretado bem os sentimentos dela.

Eu logo abaixei a cabeça, então aquela conversa que tivemos no hospital foi em vão.

– Mas seria um desrespeito a memória dela se eu me martirizasse para sempre, as pessoas erram e é por isso que estou aqui, para consertar as coisas.

– E você acha que um simples buque de flores irá consertar seu passado?

– Mas é claro que não, mas irá amenizar a dor em mim e é isso que importa.

Ela encarou o rapaz que se sentia desconfortável com a situação.

– Para que eu me concentre em criar a sequência de minha história melhor do que o inicio.

Quando a vi a primeira vez eu sempre pensei que ela seria uma mulher segura dentro de si, mas o que via era apenas uma prova de que eu estava certo, viver tanto tempo com o peso da morte de seu melhor amigo nas costas e mesmo assim continuar andando, isso só demonstra que ela é forte, até demais.

– Desculpa pela demora... – Ela disse se aproximando.

– Não há problema, ainda dá tempo para irmos ao serviço.

– Na verdade eu gostaria que você me acompanhasse para visitar o meu pai.

Que?

– Que? Como assim? Q-quer dizer, conhecer seu pai? Por quê?

Ela riu e logo voltou a dizer.

– Não é o que você está pensando.

– E como você sabe sobre o que eu estou pensando? Quer dizer, não é como se fossemos um casal ou que eu fosse pedir a autorização do seu pai, você é uma pessoa egocêntrica narcisista e eu nem sei o que narcisismo tem haver com essa conversa, nem mesmo egocêntrica.

Está bem, eu devo ter ficado um pouco nervoso.

– Acalme-se Arthur, você não vai pedir minha mão ao meu pai, apenas aproveitar a viagem.

– Não, eu prefiro tomar um café naquela cantina, dizem que aqui tem um café muito bom.

– Nada disso, você vem comigo, e relaxa, meu pai não morte, está bem que ele atirou no joelho de um cara que me incomodava, mas até hoje ele paga a consulta médica dele, então não se preocupa que ele cobre suas despesas.

– Isso não foi nada engraçado.

Coloquei minha mão no meu joelho esquerdo como se eu sentisse a dor do tiro, logo no joelho que eu desloquei tentando jogar futebol, eu disse tentando porque sou um pereba nos esportes.

A casa do sujeito era bem modesta com um simples quintal e um bulldog já envelhecido tomando a sombra de uma arvore que cobria todo o canteiro, Helena tocou o sino e logo um sujeito careca e com barba atendeu o chamado.

– Princesa. – Disse o velho alegremente que deu um abraço em Helena – Há quanto tempo! Quando você chegou aqui?

– Acabei de chegar. – Era notável perceber que Helena mudou de expressão drasticamente, de um olhar de luto para um olhar alegre com um sorriso enorme em sua boca.

– Você deveria ter me ligado, eu ti buscava na rodoviária.

– Não era necessário papai, eu vim acompanhada.

– É mesmo? Ei, você, o que pretende com minha filha?

Meu cérebro pregou uma peça e logo imaginei um cara aleatório tomando um tiro no joelho.

– Eu? Nada!

– É mesmo? Tens muita coragem de vir ate aqui, espera aqui enquanto eu pego meu rifle de caça.

– Não, por favor, apenas sou um amigo dela, na verdade nem amigo, só colega de trabalho.

O sujeito gargalhou por conta do meu desespero.

– Para de choramingar, homem de verdade tem que enfrentar o sogro.

– PAPAI! – Advertiu Helena que começou a corar.

Logo notei que aquele senhor era gente boa, ele compartilhou inúmeras histórias para mim que eu precisaria atribuir um novo conto para contar as aventuras desse senhor, e eu logo acabei ficando até mesmo para o jantar e pude ver a alegria no rosto de Helena naquele momento.

O dia estava terminando e eu estava perto da lareira encarando uma moldura de selos antigos, coleção no qual foi citado no diário dela, ela logo se aproximou de mim e me disse.

– Vamos embora?

Olhei para ela e sua expressão havia mudado, era como se a vida toda ela carregasse um peso enorme e agora havia sentido alivio por largá-lo.

– Sim, claro, mas pensei que você iria permanecer mais um pouco aqui.

– Não podemos, esqueceu que amanhã é a maratona?

– Caramba, o tempo voou mesmo...

Helena se despediu de seu pai e madrasta, o senhor logo pediu para que ela retornasse mais vezes e ela assentiu, voltamos até o metro onde no caminho o sujeito com quem ela havia conversado trombou conosco no caminho, ele também parecia ter aliviado o peso nas costas, era como se todos levassem a culpa pela morte dela e eu os ajudei a deixar esse peso de lado.

Na volta ela parecia mais tagarela do que o normal, ela não parava de falar e eu só pude expressar um sorriso bobo no rosto ao ouvir suas histórias, me senti feliz por dentro em saber que eu tinha ajudado um amigo para variar.

Na volta para casa ela continuava a falar, eu apenas prestava atenção e ria junto com ela, mas uma das palavras que me chamou atenção foi no momento que ela parou na frente da porta de sua casa...

– Obrigada.

Aquelas palavras não eram falsas, e era leve até mesmo de se ouvir, assim ela fechou a porta e eu permaneci parado por alguns segundo olhando para o olho mágico que me fitava.

Amanhã era o dia da maratona, depois desse ocorrido eu havia realmente esquecido sobre essa promessa, pois estava tempo demais pensando sobre meus sentimentos aflorados por ela...