Contos Diversos Volume 1.

24 Terceiro Conto - Arthur e sua epifania


Terceiro Conto – Arthur e sua Epifania.

Capítulo Quatro — O essencial para ser o melhor.

Livro de autoajuda não me agrada, quer dizer, se eu tivesse tudo que o cara que escreve esses livros tem eu estaria feliz pelo fato de ter passado por todas as dificuldades e não passar os meus erros para as próximas pessoas, acredito eu que erros é a maneira individual da pessoa encarar a vida e vamos cair na real, quando você está na pior condição possível, a última coisa que você quer ouvir são conselhos de pessoas que não estão na mesma condição que você.

O ser humano é surpreendente e assustador, assustador ao ponto de desejar o mal da pessoa a sua frente para se sentir bem, ou melhor, dizendo,você saber que a pessoa a sua frente está na mesma condição de você gera um ar de orgulho pessoal, somos assim, tão desumanos a ponto de deixar nosso semelhante para baixo e subirmos nas costas deles.

É irreal imaginar o fato de você reclamar que está sendo usado como escada, quando você usa as outras pessoas como escada, eu não generalizo e isso não é meu feito, mas você tem que admitir que a maioria seja assim.

– Deste quando você livro de autoajuda? — João indagou confuso.

– Ah, isso, na verdade é um presente, não queria o deixar mofando na prateleira.

– Sério? Deste quando você se importa com as pessoas?

Acredito que muitos imaginam que eu seja uma criatura sem coração.

– Como assim, não entendi sua pergunta.

– Esquece...

Ele logo sentou na cadeira ao meu lado e voltou a falar.

– Arrumei alguns ingressos para um jogo, vamos nessa?

– Ah, foi mal, hoje eu vou escalar.

– Pare de mentir, você nunca escalou na vida além de não ser capaz desse feito.

– Eu hipoteticamente posso começar a escalar, porque não?

– Qual é, se não quiser ir ao jogo é só falar, não precisa inventar desculpas.

– Quer saber. – Fechei o livro, ele começou a falar e não pude me concentrar na leitura. – Porque você não vem com a gente?

– A gente?

– Sim, vai ser divertido...

Era uma oportunidade de apresentar Helena a ele, dois grandes amigos em minha vida escalando uma montanha...

– Certo, o que está havendo? Você parece mais vivo esses dias.

– É que eu andei correndo pelo parque, eu pretendo participar de uma maratona daqui a dois meses e preciso de resistência para isso.

– Caramba! Essa eu não esperava de ti, quando o conheci era apenas um covarde que não participava em nenhum tipo de evento e agora olha só para você... Tenho que admitir que eu sinto um pouco de inveja de você.

Tratei aquilo como elogio.

– Você também pode mudar de vida, só basta querer.

– E o livro de autoajuda está funcionando.

No instante que eu iria falar o telefone toca, ao olhar a tela de mensagem percebo que recebi uma ligação de Helena.

– Alô.

No outro lado da linha em torno de chiados ela disse.

– Daqui a trinta minutos estarei na sua faculdade para buscá-lo.

– Certo, mas está tudo bem? Está com certo chiado.

– Não é nada demais, hoje iremos iniciar uma trilha em uma floresta aqui próxima e depois escalaremos o monte mais alto, você acha que consegue?

– Eu acho que sim...

– Ótimo, até daqui a pouco.

Logo eu desligo e João me encara com várias dúvidas.

– Mudança de planos, nós iremos para uma trilha.

Helena chega à faculdade com um jipe, um modelo de carro que combina com a ideia de trilhas e escaladas, Seus óculos escuros escondiam seus olhos que podia sentir encarar nós dois (era capaz de ver nosso reflexo em seus óculos).

– As duas menininhas estão prontas para escalar? – Zombou Helena.

– Qual é o problema dessa mulher?

– Nem recrute, ela é assustadora quando está no modo competitivo.

Logo nós dois entramos no jipe, de alguma forma apresentei Helena para João e vice versa, mas João permanecia extasiado, não sei se era pelo linguajar vulgar de Helena ou por sua beleza encantadora, de certa forma ele foi ao banco da frente e até tentei iniciar uma conversa entre os dois.

O caminho era rudimentar e volumoso, o carro estremecia enquanto passava pelo caminho de terra e sentia que o carro iria se desmanchar de tanta trepidação que o pobre carro sofria, João permanecia calado, nunca vi ele ficar tímido perto de uma mulher, esta certo que Helena era diferente, ela conseguia impor sua presença que até mesmo o homem mais corajoso e confiante se tornava em um chihuahua assustado perto dela, deve ser por isso que eu sempre quis conhecê-la, que eu sempre quis entrar em sua vida, eu gostaria de ser imponente igual a sua presença e sempre andei em sua sombra, no inicio eu achava que ela era uma psicótica sociopata, mas conforme fui passando um tempo com ela, eu percebi que estava completamente enganado.

“não julgue o livro pela carta.”

Dizia meu falecido Avô. A cachoeira logo denunciava o local, na nascente da água uma neblina se formava por conta da queda d´água, João permaneceu calado o que incomodou Helena.

– Tem medo de mim por acaso? Ficou a viagem inteira em silêncio, eu esperava mais de você depois que Arthur disse de ti.

Eu nunca disse nada sobre o João para ela, porque ela mentiria dessa forma?

– O que ele disse sobre mim?

– Você fala? Fascinante...

Saquei a ideia, Helena conseguiu ver que ele tinha certa reputação a defender, e ela acertou logo em seu ponto fraco, que mulher maligna.

– Nada demais, mas pode-se dizer que você é bem diferente do que ele dizia de ti.

– O que você disse Arthur?

– Não cai nessa, ela está brincando contigo.

Ele não percebia a forma que Helena trabalhava, para despertar o interior das pessoas ela usaria qualquer tipo de golpe sujo, para ela, todas as pessoas são como um diamante bruto que precisa ser lapidado, mas ela esqueceu de que há diamantes que nunca desejou ser lapidado e a forma de como ela dirigi a conversa pode se tornar uma ofensa para uns e acredito que João não gostaria de receber esse tratamento de choque dela.

– Pois bem, espero que vocês consigam me acompanhar.

Ela desceu do carro e iniciou um aquecimento, esticando as pernas e utilizando o capo do carro como base, João permanecia com um olhar incrédulo, pegou alguns equipamentos de escalada e desceu do carro.

– Vamos com tudo pessoal.

Ela seguiu a frente, passando por debaixo da cachoeira e adentrando um caminho rochoso em direção a montanha que era visível daquela distância.

– Escuta João, ela não é o que parece.

– Eu entendi, conheço a jogada dela.

– Sério?

– Cara, eu sou um pegador, já tracei muitas mulheres do tipo dela.

– Cara, eu garanto, ela é completamente diferente.

Ele não conhecia a forma extrovertida de Helena e o jeito de ela tratar as pessoas como crianças da creche que necessitam de atenção, eu nunca pedi ajuda dela, mas ela estava ali, tentando criar novas histórias emocionantes para a minha lista, até agora eu nunca entendi o jeito dela.

– O essencial para ser o melhor é que você tenha que se superarem todo dia, só assim às pessoas o notará.

Ela nem sequer notou a gente atrás sem ar, ela era insuperável.

– Vamos logo menininhas, ou não aguentarão a escalada.

– Qual. É... O... Problema dessa... Mulher? – indagou João ofegante por conta da corrida.

– Eu... Não... Disse que... Ela era... Diferente! – Respondi também ofegante.

Quando finalmente a alcançamos ela estava sentada em uma pedra solta lendo um livro que não pude identificar por conta da proteção de capa.

– Pensei que vocês desmaiaram no caminho. – Disse Helena guardando o livro, mesmo prosseguindo todo aquele caminho(que é mais ou menos uns seis ou sete quilômetros) ela não demonstrava nenhum cansaço, mas seu corpo brilhava por conta do suor.

– Azar o seu, apesar de que eu quase desmaiei lá atrás.

– É mesmo? Ótimo, vamos para o mais importante. – Assim ela começou a escalar.

– Espera um pouco, sem tempo para descansar? – Indaguei assustado.

– Descansar?Eu já descansei bastante esperando vocês dois. – E subiu mais um pouco na montanha. – Vamos logo, vão ficar para trás mesmo?

Ela só pode está de brincadeira?

João a seguiu ao subir a montanha, e eu decidi subir aquela montanha também.

Não sei o que foi pior, a trilha de seis quilômetros ou escalar aquela montanha íngreme e escorregadia, as rochas estavam quase impossíveis de se segurar pelo fato de que aquela área foi abençoada pela chuva ontem e por conta da umidade dificultou a subida, mas tenho que admitir que ao chegar ao topo daquela montanha, a visão valia a pena todo aquele esforço.

– Bonito não? Sempre quando me sinto insegura eu venho aqui pensar um pouco.

– Um pouco extremo de sua parte. – Comentei ofegante.

– Isso explica porque você tem tanta facilidade para subir por aqui.

– Exatamente, pelo fato de que estou sempre insegura com a vida.

Realmente, aquela paisagem nos fazia esquecer-se de todos os problemas, enquanto nós três olhávamos o por do sol eu pensava relutante sobre minha vida e minhas histórias, aquela cena era mais um capítulo para meu enredo emocionante...