Contos Diversos Volume 1.

3 Primeiro Conto - Homem Máquina


Capítulo 3 – O constante Goldman.

Não imaginava existir tantos aficionados por Goldman naquele lugar, um grupo de mais ou menos trinta pessoas permaneciam escondidos, longe dos olhos do sistema, e dessa forma eles eram adeptos a criar uma resistência contra o sistema, é uma pena que seria inútil. Visitei todos os campos disponíveis e os maus olhares me encaravam de maneira hostil, posso até entender eles, dias atrás eu servia o sistema e parece que fui salvo por conhecer um simples livro, um livro que passava por censuras e que muitas pessoas lá fora o queimavam por achar fantasioso demais.

– O que está havendo? Quem são vocês?

– Somos aqueles que pretende mudar esse país. – Respondeu um sujeito mal encarado.

– Como o livro de Doutor Goldman mencionou, não devemos aceitar nós sermos subjulgados por uma máquina, assim pretendemos derrubar o sistema.

– Primeiro, eu não esperava que vocês acreditassem em um livro de fantasia e segundo, é impossível derrubar o sistema, ele tem a certa habilidade de se adaptar a qualquer dificuldade, eles irão ti interceptar e ti matar.

– Isso não é fantasia seu idiota, não me diga que em todos esses anos você não sabia que estava sendo controlado por um mero sistema de computador?

– Mas que absurdo, uma prova disso é que fui interrogado por uma pessoa “humana”, eu pude ver seu vulto naquela vez.

– Designer, transfira o vídeo de vigilância de uma das salas de interrogatórios para a tela principal.

– Ok. – Após digitar algumas teclas, o telão principal que estava na sala acendeu em um instante, mostrando um interrogatório de um sujeito que não conhecia.

Depois de analisar profundamente o vídeo eu fiquei surpreso, aquela pessoa que o interrogava não se mexia, estava estática, logo imaginei que era um erro na tela, mas o interrogado gesticulava em sua defesa, olhando profundamente eu não quis acreditar naquilo que eu havia visto.

– Viu só? Apenas um manequim, essa questão é tudo controlado, eles lhe aplicaram uma substancia que reduzia o foco de suas retinas, logo ao ver um vulto acreditou que estava sendo interrogado por uma pessoa.

– Há quantos anos eu vivo essa mentira?

– Uns 30 anos, quando o último promotor foi substituído por uma máquina.

– Isso não pode ser verdade.

Não queria acreditar neles, queria acreditar que ainda existia uma interface entre homem máquina, que ainda haveria uma pessoa viva comandando todo o sistema atrás das cortinas, mas logo essa duvida tornou-se uma incerteza e aos poucos fui aceitando a verdade.

Um sistema de Rank que avalia todos do país.

Os primeiros colocados podem fazer um teste no qual se passar, é recompensado por uma vida de luxo e prazer.

Os últimos colocados são eliminados do sistema.

O sistema de advertência onde de acordo com as notas obtidas, pode ser tratados como uma engrenagem defeituosa.

Toda filosofia do relógio era apenas uma fachada para o real significado de ser subjulgado.

Todas essas afirmações borbulhavam em minha cabeça e naquele momento eu não queria mais fazer parte daquele sistema, de alguma forma eles sabiam como provocar uma lavagem cerebral, eles sabiam fazer você largar seus dogmas e suas crenças com meia palavra. Certo homem já disse uma vez que a ideia nunca morre, sempre viverá para sempre, no entanto, aquelas pessoas tinham a capacidade de “matar” uma ideia, uma crença.

– Enquanto ao rank, os últimos colocados, o sistema de advertência, eu sempre acreditei que os primeiros colocados eram os mais adeptos a administrar o país.

– Os últimos colocados eram eliminados fisicamente e psicologicamente do sistema, mais tarde ninguém mais se lembrava das engrenagens defeituosas, o sistema de rank nada mais é do sistema catalogar as melhores engrenagens do país.

– Funciona como um abatedouro, onde você escolhe os melhores animais para ser abatido – explicou um sujeito de óculos.

– No fim, os primeiros colocados não são abatidos, o sistema os julga como sendo útil para o país e logo os transformam em máquinas, tecnicamente o sistema de rank nada mais é que um selo de qualidade para saber quais pessoas são mais adeptos a se tornar ciborgues.

– Esse sistema está enraizado nesse país, mas eles pretendem alcançar ramo mundial, criando assim relações comerciais e incentivando a esses países a adotar o sistema, lógico que isso requer tempo...

Eu o interrompi, era muita bobagem que eu escutava naquele instante.

– Quem pretende fazer isso?

– Ora, o sistema, eu não acabei de dizer.

– Sistema? É só uma máquina, eles não querem nada!

Um grito sufocante silenciou todos na sala, logo olhares sérios me encaravam.

– Lembra quando eu disse que Doutor Goldman criou um aplicativo de livre arbítrio? Isso faz com que eles queiram algo, o sistema é capaz de escolher funcionalidades que possam o beneficiar.

– Isso não faz nenhum sentido, antes de meu perfil sumir eu tinha uma vida, mesmo sendo básica, eu tinha, eu não seria perseguido pelo sistema se eu andasse na linha, se eu permanecia no meio termo do rank, e logo vocês que não tiveram a capacidade de se manter na linha culpa o sistema, hilário, simplesmente hilário!

Um deles me empurrou como estava fraco e desorientado acabei me chocando no chão, o sujeito estava furioso e era notável nos olhos dele.

– Estamos fazendo isso para o futuro da humanidade e não por simples competência, eu nunca aceitei você nesse grupo e mesmo sendo torturado você cegamente defende o sistema, então que se dane.

– Eles chegaram ao ponto de camuflar suas respostas, não importa o que você respondia, ele iria ti torturar até você morrer por completo, destruindo sua alma e logo em seguida seu corpo.

– Isso, não faz algum sentido, porque logo eu...

Nossa discussão foi interrompida por um alarme, a sala permeava uma cor avermelhada, como se algo errado tivesse acontecido, todos seguiram em direção à sala de operações e sem entender o que estava havendo eu os segui.

Uma tela enorme iluminava aquela sala enquanto alguém controlava o painel de controles na sala de operação, a tela mostrava claramente a visão de uma das câmeras de vigilância do prédio negro.

O prédio negro aparentemente era um imenso prédio localizado no centro da cidade, nela era construída os executores e era fortemente protegido, chegando ao ponto de fuzilar qualquer um que permanecia aos arredores daquele prédio em um tempo extenso de mais de dez minutos.

– O que está havendo?

– Um dos nossos foi cercado por executores, agora ele está na tubulação planejando como adentrar o local.

– O que vocês estão fazendo? – Eu indaguei confuso.

Um deles chiou para que eu ficasse quieto.

– Tenta desligar a central, talvez ele consiga imunidade por um tempo.

– Não será possível, já tentei antes e durou apenas cinco minutos, é por isso que estamos alerta.

– E se tentar sair pela sala principal, à vigilância é quase nulo por lá.

– O local se tornou um campo de guerra por lá, é impossível sair com vida.

Olhei atentamente eles planejando um jeito de adentrar a central, podia se notar o desespero nos olhos deles, já que se aquele cara fosse pego logo eles estariam perdidos e nunca mais eles chegariam tão longe como naquela vez.

Analisei a situação, e percebi o quão novato eles eram, eles nunca iriam despistar o sistema daquela forma, fico surpreso de eles permanecerem no anonimato por tanto tempo.

– Vocês realmente são amadores. – Eu finalmente disse.

Todos na sala me olharam com certo ódio, um deles logo dirigiu a palavra.

– Pois bem, mostre do que é capaz.

Eu segui em diante, pedi para que aquele sujeito saísse da perto do painel de controle e logo iniciei uma forma de burlar o sistema, como eu sempre fiz.

Analisando os códigos principais e criando permissões, eu pude acessar o endereço da matriz e codificar o código de uma maneira que eu fosse capaz de adentrar o sistema.

O sistema possuía inúmeras falhas, acredito que era proposital, pois caso eles pegassem alguém bisbilhotando essas falhas eles o capturariam e obrigaria a consertar essas falhas, o problema é que eu conheço a interface daquele sistema mais do que eles mesmo, não me pergunte como ou porque, mas essa é a verdade.

Consegui desligar os executores instantaneamente, os outros do grupo ordenaram o sujeito a sair da sala de tubulação e tentar invadir a central.

– Para que tudo isso?

– O sistema de pareamento e o Firewall possuem no mínimo sete sistemas de seguranças, conseguimos até agora desativar três, estamos tentando desativar manualmente o quarto firewall.

– Ele está com um cartão de memória com um vírus parasita depositado nele, dessa forma poderemos controlar uma parte da central.

Todos prestaram atenção ao telão, onde parecia que aquele sujeito corria perigo, mas por pouco tempo ele conseguiu de alguma forma despistá-lo.

Pude ver os executores caídos no chão, com seus sistemas desligados temporariamente, me perguntava se eles estavam observando mesmo com os seus sistemas desligados. A discussão recente não parava de passar na minha cabeça, como um disco antigo que repetia a mesma sentença sempre e sempre, quando olhei para aquele sujeito passando por todas as portas de segurança possível, eu comecei a duvidar que toda aquela sociedade pudesse estar controlada mesmo por uma máquina.

Não haveria humanos, apenas máquinas, um mundo comandado por elas, não tem como acreditar nessa história.

Todos comemoravam com o sucesso da missão daquele sujeito, e com razão, não é todo mundo que invade o sistema daquela maneira e ao perceber que eles chegaram tão longe sem ser notado eu comecei a duvidar se eles realmente eram “novatos”, se eles faziam de idiota só para dizer que precisavam de minha ajuda.

– Viu só, necessitamos de sua ajuda, e quando a raça humana estiver livre de novo.

– Não me venha com essa história, eu o ajudei, pois quero que vocês recuperem o meu perfil.

– Não será possível.

Estava preso em um pesadelo.

– Como não é possível?

– Você não existe mais para o sistema, logo será necessário que você tenha um novo perfil, uma nova identificação, é o mínimo que conseguimos fazer.

– Existirá para sociedade com outro nome, com outra função...

Aceitei a proposta, queria ter minha vida de volta de uma vez por todas, ignorei o fato deles existirem e eles me fizeram prometer nunca contar sobre eles para ninguém, e caso eu quisesse lutar contra o sistema eles disseram que eu saberia onde encontrar a verdade.

Mas era tarde demais, a semente da duvida havia sido plantada, e agora nem eu sabia o que era real e o que era falso...