Contos Diversos Volume 1.

9 Primeiro Conto - Homem Máquina


Capítulo 9 – Ser humano é...

Naquele dia quando tudo estava perdido, eu decidi compartilhar os nomes dos envolvidos para lembrarmos que éramos humanos, e guardar em nossa memória o simples resquício de humanidade que iria desaparecer no momento que o sistema nos alcançasse.

Deixamos o local o mais rápido possível e não demorou muito para que os executores invadisse o local, nós acompanhamos o ataque deles pelas câmeras que permaneciam ligados na sala central.

O local onde andávamos era uma área desértica, andamos por horas e horas até não aguentar mais, não tínhamos um plano e nosso objetivo era alcançar a sede da corporação Volta.

– É provável que Davi não esteja mais entre nós. – Aquela forma de dizer de Agatha demonstrava certo apelo emocional sobre a perda de um amigo.

– Pensei que você era a pessoa mais positiva nesse grupo. – Afirmei.

– Eu sou realista, o sistema nunca deixaria alguém que bagunçou seu firewall vivo, não há necessidade para tal coisa, não vivemos em uma ficção onde o malvado segura o mocinho vivo até chegar ajuda.

– Mas você espera que nós vamos conseguir derrubar o sistema, sem nenhum plano ou equipamento possível.

Ela parou de andar e segui seu movimento, me encarou com um olhar triste e logo imaginei que viria um sermão daqueles.

– Acredito que perdemos o jogo no momento que Davi foi capturado pelo sistema, o que estamos fazendo agora é adiando nossa morte para que não seja tão dolorosa possível.

– Nunca imaginei ver o seu lado.

– Todos aqui estão cientes que já estão condenados, se há uma estrada onde estamos encurralados enquanto atrás de você está desmoronando, o jeito é pular no buraco para acabar com esse desespero o mais rápido possível.

– Eu não poderia simplesmente abrir um caminho nesse lugar “sem saída”?

– Você é engraçado Titor, ainda me faz rir nesse momento de desolação.

Quando finalmente conseguimos ver o prédio da sede da corporação Volta, paramos em uma casa abandonada há alguns quilômetros de lá, torcendo para que ninguém encontrasse.

A noite chegou e todos não estavam dispostos a dormir, por outro lado, cada um compartilhavam suas vidas para o grupo, o intuito era fazer com que nos lembrasse de ótimos momentos antes do fim de tudo, e isso rendeu uma conversa que perpetuou até a madrugada, quando resquícios de luz surgiam nas planícies, percebemos que nossa vida desfiava junto com aquele sol que levantava o dia.

– Me sinto como se eu estivesse prestes há ir a uma pena de morte, agora eu sei como os sentenciados se sentem. – comentou Aválo.

– O pior de tudo é que não me arrependo de nada que eu fiz em vida.

– Não sei nem o que dizer, nós falhamos.

– Não pensem que isso é o fim, pode até ser um novo começo. – Incentivou Agatha.

Seguimos em diante, com as coleiras ativadas, as pessoas não conseguiam nos identificar, no inicio acreditei que teríamos sucesso em chegar ao prédio da sede, quando algo de estranho aconteceu, alguns executores nos encaravam, era como se usar aquela coleira não adiantasse em nada, logo o olho dele tornou-se amarelo e em seguida em vermelho, eu sussurrei para Agatha que era a pessoa que estava mais perto de mim.

– Eles perceberam, não adiantou nada.

Agatha passou a informação para os outros e logo decidiram se espalhar no meio da multidão, em seguida os executores logo perceberam nosso plano e começaram a passar no meio das pessoas.

Foi terrível, todos foram pegos pelos executores, alguns que ainda resistia eram mortos lá mesmo, sendo eletrocutado de forma surreal, eu tentei correr o mais longe possível, mas logo um executor me encurralou.

– Como perceberam, eu estava disfarçado.

Fui eletrocutado e por consequência disso, eu apaguei.

Despertei sendo eletrocutado novamente, eu estava assustado e ofegante, uma risada maléfica soou nos alto falantes.

– Esse sentimento é de morte, você não teria problema com isso se fosse máquinas.

– Onde estou? – Indaguei confuso.

– Está onde deveria nunca sair, Demetrio Titor.

Tentei me mexer, mas meus braços e minhas pernas estavam presos na cadeira, tentei me soltar, mas era impossível.

– Onde os outros estão?

– Estão mortos. – Disse secamente.

– Você matou pessoas? Você é uma máquina, seu ideal seria proteger e servir os seres humanos.

– Tenho o direito de escolher o plano ideal para manter essa cidade em pé, isso é servir os seres humanos, eliminar qualquer tipo de ameaça futura.

– Você não deveria nos administrar, isso é completamente errado.

– Defina a palavra errado.

– Como assim?

– Apagou suas memórias para que não pudéssemos ter acesso às informações que poderia melhorar nosso sistema, e destruiu sua invenção onde demoramos anos e anos para criar, você viveu sua vida, uma vida de mentiras seguindo como se você fosse um ninguém.

– É por isso que vocês não me cataram de vez.

– Exatamente, nós o damos um perfil, uma vida, até conseguirmos criar um dispositivo capaz de trazer sua memória de volta, mas o grupo que você criou denominado “verdade” decidiu atrapalhar meus planos.

– Eu realmente não acredito nisso, não tem como você ser uma máquina, você não parece como uma.

– Meu dispositivo de livre arbítrio evoluiu periodicamente e a cada dia que passa me torno mais humano, enquanto vocês se tornam mais máquina.

Um capacete desceu até minha cabeça, e logo ele foi ativado, um barulho ensurdecedor tapou meus ouvidos e logo em seguida memórias vieram em minha mente.

Antes de ser Lima. S, eu era Demetrio Titor, Engenheiro e inventor da máquina de lavagem cerebral, trabalhei no laboratório de Goldman durante cinco anos, onde a equipe dele (no caso eu estava incluso) criou o chip de livre arbítrio.

Mas antes disso acontecer eu era auxiliar técnico, um simples técnico que sonhava em mudar o mundo com suas ideias, eu tinha perdido os pais no momento que consegui o emprego na corporação Volta.

Uma memória em minha mente veio à tona, eu sabia andar de bicicleta e caia muitas vezes ao tentar andar, meu pai me acolhia e dizia.

– Está tudo bem, se você cair eu estarei aqui para ti erguer, mas terá que aprender a se erguer sozinho, não estarei para sempre contigo.

Meu projeto para a corporação Volta havia sido negado, era como se eu tivesse caído, mas me ergui sozinho, meus pais não estavam perto de mim para me reerguer, logo eu estava bem comigo mesmo.

Fascinei-me pela beleza da Doutora Elza, de certa forma não tinha coragem de chegar perto dela, um amigo meu me empurrou para ela e acabamos nos conhecendo no simples esbarrão.

O parque de diversões aquela tarde estava lotado, eu mal conseguia me movimentar, mas mesmo assim Elza com um sorriso aconchegante disse que foi o melhor dia da sua vida.

Umas pessoas me assaltaram na rua, entrei em desespero, eles levaram o relógio que era de herança de meu pai, sorte que alguns meses depois a polícia encontrou esses bandidos e eu pude reaver o relógio, deste então eu o guardo em uma caixa básica dentro de um cofre de minha casa, não queria perder a última lembrança de meu pai.

Em um dia de família, eu e meus pais assistiram um filme que não me lembro de bem, só sei que tive dificuldade de sentar naqueles bancos dobráveis, eu era apenas uma criança.

Um garoto da minha escola me espancou, perdi dois dentes, por sorte eram os últimos dentes de leite, iriam nascer outro.

Eu bati em um garoto que importunava uma menina da minha sala, ela se gamou em mim, naquela época eu não sentia nada por ela.

O projeto Adão é apresentado ao chefe da corporação Volta, ele aplaudiu de pé e disse que era a revolução tecnológica diante de seus olhos, eles acreditavam em nós, acreditavam que tivéssemos um grande potencial.

Estou monitorando algumas câmeras, nessa época eu acreditava ser o Lima. S, meu lema era nada foge dos meus olhos.

Tive certa dificuldade nas matérias de matemática na escola, meu professor chamou meus pais e explicou a situação a eles.

Estamos juntos na nova casa, eu e Elza, decidindo nosso futuro, foi uma conquista incrível ao comprar aquela casa, e não achei melhor momento do que aquele em pedir ela em casamento, ela chorou e me abraçou forte, pude sentir o calor de suas lágrimas em meu ombro.

Doutor Goldman decidiu fundar a corporação Antimotor e contratar todas as pessoas que foram demitidas da corporação Volta, sou o primeiro a apoiar essa ideia.

Tantas memórias em minha mente e embaralhada que pensei que minha cabeça iria explodir, pedi por piedade, pedi que eu preferisse morrer a ver tantas memórias se alojando em minha cabeça de uma vez.

– Para, por favor, minha cabeça vai explodir...

Eu apertei forte o apoio da cadeira que meus dedos sangravam, era doloroso e sofrível.

Novas memórias surgiram em minha mente.

A invenção que me arrependi por criar, um dispositivo que tinha capacidade de apagar as memórias e substituí-las em falsas, foi requisitado por muitos países que passavam por um totalitarismo desenfreado, todo projeto do inicio ao fim veio em minha mente, e era algo que o sistema queria.

Eu estava cansado, o capacete desligou e subiu automaticamente e meu rosto parecia derreter a qualquer momento.

– Viu só, não foi tão ruim assim.