Contos Diversos Volume 1.

5 Primeiro Conto - Homem Máquina


Capítulo 5 – O dia mais longo.

O transporte público nem era tão lotado naquele horário, por sinal tudo era automatizado e as pessoas permaneciam quietas na longa viagem, eu estava sentado em um dos bancos e debaixo de minhas roupas uma arma que eu havia ganhado de herança de meus parentes, aquela arma só seria usado para minha segurança, mas aquele também era o momento exato para usar. Não era fácil encarar o fato de que para eu sobreviver, era necessário se livrar de um amigo, não queria terminar daquela forma, eu repassava na minha cabeça toda a sequencia que acreditava que poderia acontecer.

Caso fosse uma conversa natural ao lado de um local abandonado eu puxaria o gatilho no momento mais desprevenido na parte dele, depois me livraria de seu corpo, jogando no mar, por exemplo, eu poderia amarrar suas pernas com algum peso para que seu corpo não boie na água (havia visto isso em um filme de gangster recentemente).

Caso fosse uma emboscada eu de alguma forma mataria ele antes de ser pego pelos executores, pelo menos ele iria se arrepender de ter me entregado.

A pior das hipóteses seria ele mesmo ser a armadilha, algum executor estaria no lugar dele e quando eu o atirasse nada surtiria efeito e eu seria preso novamente.

Essa hipótese me fez refletir muito, eu tentei simular essa ideia de alguma forma, e tudo que eu pensava era que eu iria ser capturado no final do plano, é dessa forma que você pensa quando enfrenta o sistema, não há esperanças no mundo controlado por eles, como a “verdade”, mais cedo ou mais tarde eles irão ser capturados, não importam quanto tempo demore, eles irá ser pego, o sistema tarda, mas não falha.

O tempo realmente não passava, talvez pelo nervosismo e minha tensão ao saber sobre meu destino, em minha cabeça tudo ia à câmera lenta, as paradas que o transporte fazia parecia durar uma eternidade, as pessoas entravam nesse transporte com olhar de cansaço ou simplesmente morto, e eu torcia para que eu não estivesse sendo suspeito demais.

Minha mão tremia intensamente, piorou quando comecei a alcançar meu destino, quando ele fosse eliminado tudo iria mudar novamente, tentaria deixar o país e me esconderia em algum lugar que ainda não foi corrompido pelo sistema.

Consigo imaginar as planícies verdes a minha frente, enquanto estou deitado em uma rede comum admirando o céu azulado (eu nem sequer sei a cor do céu, tudo é cinza naquele país caótico) eu apenas quero viver em paz e não ter nada com se preocupar, não precisar se esconder de alguma forma.

A morte de Johan poderia ser minha libertação ou minha condenação, era tudo imprevisível e isso me incomodava de uma forma absurda.

Aquele dia foi o dia mais estranho, não sei se foi por causa de minha paranoia em ser descoberto, ou que alguém me reconheceu a ponto de ter ideias extremistas que seria eliminar essa ameaça, não pude notar que estava pensando igual ao sistema.

Elimine todos que se tornam uma ameaça iminente, foi com essa política que o sistema cuidou de todos que atrevessem a entrar em seu caminho. O sentimento de insanidade e loucura corroia minhas entranhas, eu estava prestes a desmoronar por completo.

O transporte chegou à metade do caminho, mesmo estando frio eu suava demais, um suor acusador, algo que faria qualquer um acreditar que eu era o culpado de algo, mas pelo jeito ninguém que estava naquele transporte me notou.

Era o ponto onde eu deveria descer, dei o sinal e o fiz, o clima tornou-se mais pesado e as pessoas passavam por mim de maneira descontraída, tive a indecência de olhar para trás e vi um executor correndo em minha direção, o olho biônico brilhava com uma cor amarelada intensa, olhei para frente e parei de andar, rezei que ele passasse direto, e foi isso que houve.

Ele havia pulado em cima de outro senhor tão suspeito quanto eu, ele esperneava e resistia à captura enquanto ele resmungava em outras línguas, os executores haviam capturado um espião de verdade.

De certa forma fiquei mais aliviado, não era eu que eles queriam, por enquanto, logo imaginei que daqui a pouco eles fariam algum tipo de festival para celebrar a execução daquele espião em praça pública, um evento onde toda a sociedade desconta sua raiva e frustração do governo em um homem que eles não o conhecem, nem sabe de seus crimes, apenas sabem que ele é um espião que pretende destruir o sistema e logo é o vilão da história, isso basicamente para qualquer um é a pior humilhação, ser tratado como vilão antes de dar seu último suspiro.

Aquilo me intimidou, tinha passado pela mesma coisa que ele, mas no fim eu havia sobrevivido, por culpa de um grupo do anonimato que apagou meu perfil naquela semana fatídica, relembrar aquela sensação ao encarar outra pessoa sendo levado pelos executores era desconfortante.

O desconforto me fez dar meia volta e ir embora, eu pensei em não ir ao encontro dele, pois sabia que iria dar errado, tudo errado, eu seria pego pelos executores com toda a certeza, mas caso eu não aparecesse eu seria acusado de fugitivo e toda a cidade ficaria alerta sobre minha presença, deixaria de ser notado para se tornar um espião em potencial, o inimigo do estado.

Eu caminhei até o endereço, o tempo tornou-se pesado ao ponto de não andar mais, eu repensava a minha vida e tudo que eu havia passado deste então, de alguma maneira eu não lembrava muitas coisas de minha infância, ou antes, mesmo de trabalhar no setor de monitoramento, tudo se tornará intenso naquele dia.

Estava mais próximo, a minha respiração denunciava minha localização, aquele ponto seria o fim, meu braço tremia, e como tremia me certifiquei de travar o revolver para que a tremedeira não me faça atirar em mim mesmo, mas eu deveria ser rápido quando eu encontrasse Johan, levantar um revolver e atirar, sem deixar que ele diga algo, não deixe que ele chame por reforços.

Finalmente eu cheguei ao local do encontro, meu estomago estava embrulhado e o suor de meu rosto pingava de meu queixo, era o fim, o revolver já estava destravado e pronto para um tiro certeiro na testa dele.

– Pensei que você não viria.

O silêncio tomou conta daquele lugar, eu não tive reação.

– Você é o Lima S, não é? Não se lembra de mim?

Vamos, reaja, essa é a chance, levante o revolver e puxe o gatilho.

– Você se confundiu com outra pessoa. – O que está dizendo? Ele é seu inimigo, ele irá ti entregar para os executores, quer passar por mais uma sessão de tortura?

– Sério mesmo? Você realmente parece com um amigo meu, ele desapareceu há um bom tempo e eu acreditei que fosse você. Mil perdões.

Não, não pode ser possível, não é apenas isso. Criei coragem e apontei o revolver para ele.

– Não ouse se virar.

O silêncio tomou conta daquele lugar novamente, o olhar de espanto demonstrado no rosto dele me enojava, era óbvio que sabia quem eu era e iria me entregar de qualquer maneira.

– Abaixa essa arma.

– Sim, eu sou ele, mas você nunca iria entender.

– É melhor abaixar a arma.

– Eu dito as regras, eu... – eu não conseguia apertar o gatilho, estava pesado demais.

– Eu só fiz uma pergunta, eu não sou uma ameaça, acredite em mim Lima.

– E. Eu quero que você se esqueça de mim, Lima. S está morto e foi apagado do sistema.

– Está bem! – Ele concordou prontamente.

– Nada está bem, não sei como você me reconheceu tudo ia bem se você não falasse que me reconheceu.

– Acalme-se Lima, abaixe essa arma.

– Eu não vou mais ser torturado pelo sistema!

Um disparo, eu finalmente o atingi, no rosto, seu corpo caiu sem vida no chão com um baque ensurdecedor, todos que pudesse passar naquele momento iria ouvir a batida de seu crânio sob o asfalto, recobrando a consciência eu notei algo realmente estranho, será que ele usava algum tipo de placa para segurar seus ossos em alguma parte do seu corpo? O barulho que fez não foi de um corpo caindo, foi mais um pedaço de ferro tilintando no chão.

Eu me aproximei do corpo, um líquido negro saía do buraco de sua testa, e os olhos vidrados no rosto demonstrava espanto, tive refluxo ao ver aquele olhar assustador. Toquei com o dedo anelar e indicador o seu pescoço, em busca de alguma pulsação, e logo notei que seu corpo estava frio demais, não tem como o corpo esfriar daquela forma após alguns segundos da morte, sem contar que poderia se levar em conta que um tiro na cabeça não o matou totalmente.

Percebi uma bifurcação em seu pescoço, e isso fez atiçar minha curiosidade, ou de certa forma, eu poderia identificar muito bem se a pessoa era humana ou não.

Apertei a bifurcação e com um clique, seu rosto caiu, mostrando atrás de seu rosto inúmeros circuitos complexos sendo administrados por um processador.

Johan era uma máquina deste o inicio.

Não levei em conta que o verdadeiro Johan foi substituído por uma máquina, pois eu o conhecia muito bem. Não precisei de pesos amarrados em seu calcanhar para que o corpo não boie, ele por si só era pesado como uma porta de ferro, eu tive dificuldade de jogá-lo no rio e quando consegui apenas assisti seu corpo se afundando de uma maneira acelerada.

Naquele mesmo dia eu fiz uma pesquisa sobre Johan no computador central, utilizei todas as minhas habilidades de invadir o sistema, e o resultado foi realmente assustador.

Johan foi um dos que ficaram em primeiro lugar no Rank e logo em seguida passou no teste do sistema, sendo levado para sempre em uma vida de bel prazer e luxo, aquela prova foi o suficiente para eu predizer que a “verdade” estava certa, o sistema converte todos aqueles que acreditam ser inteligentes em ciborgues para administrar por trás dos panos.

Na minha mão estava o processador de Johan, eu o havia removido para uma análise minuciosa, sem contar que a bala estava alojada nele, assim eles não teriam prova para me incriminar, apesar de que mesmo assim eles iriam descobrir que fui eu, por sorte a bala atingiu alguns fios do circuito que destruiu a gravação, os olhos dele gravavam aquele momento em que apontei a arma para ele, e isso seria transmitido para os executores caso ele fosse avariado, era como se o instinto de engenheiro me permitisse atirar no lugar certo para apagar todas as provas possíveis.

O processador era da corporação Volta uma corporação que antes mesmo de criar um sistema ditado pelo doutor Goldman, eles trabalhavam com robôs que tinham livre arbítrio, só não imaginava que esse chip de livre arbítrio na verdade era um cérebro humano, era como prender o homem dentro da máquina, ou a máquina dentro do homem.

Tudo estava perdido, o único jeito era passar de vez par ao lado da “verdade” e assim fiz algo que com certeza iria me arrepender depois, encontrar a “Verdade” no lugar correto.