Contos De Uma Vilã
26 Quando em cima é em baixo
Notas iniciais
–Lizzie, anda logo, minha filha. — Reclamei enquanto me dirigia ao elevador. Eu tinha acabado de mostrar toda a Academia a ela e ao Sean e estávamos em um dos andares subterrâneos, onde ficavam os dormitórios. Lizzie arrumara suas coisas em seu novo quarto, o qual ela dividira com Emily, mas ela não saía de jeito nenhum daquele cubículo, e eu já estava impaciente porque queria ir logo testar a câmara antigravidade.
–Elizabeth D'Evil! — Meu último grito ecoou pelas paredes subterrâneas. Fiquei impaciente e já estava entrando no elevador, que acabara de chegar, mas acabei esbarrando em Isac, que estava dentro dele.
–Ei, estressada, acalme-se. — Ele riu da minha cara de raiva, segurando-me pelos ombros. — Sua irmã já está vindo. Isac apontou para algum ponto atrás de mim. Não me virei, apenas bufei e o empurrei de volta para dentro do elevador e entrei também, enfim dando a volta e me deparando com uma Lizzie correndo desesperada na minha direção e entrando no elevador pouco antes de suas portas fecharem.
–Valeu por me esperar. — Ela disse sarcasticamente, respirando com um pouco de dificuldade.
–Não sou obrigada. — Retruquei com a cara fechada, apertando o botão do 3º andar acima do solo. — Se não fosse por Isac, eu deixaria você pra trás.
–Nossa, esse amor de irmãs entre vocês é tão tocante...- Isac comentou ironicamente. Fuzilei-o com o olhar e ele ficou quieto.
Chegamos ao andar desejado e nós saímos do elevador. Isac nos guiou por alguns corredores até darmos em um comprido e extenso, com vários compartimentos e máquinas estranhas de ambos os lados. No meio do corredor tinha uma divisão de vidro ou alguma coisa assim, acho que para dividir o espaço com gravidade do espaço sem gravidade e era ali que se encontrava Cooper (na parte com gravidade na qual estávamos eu, Emily e Isac).
–Ei, Cooper! – Falei animadamente. Ele retribuiu um sorriso e olhou curiosamente para Lizzie e lembrei que eu não os tinha apresentado ainda. – Ah, essa é Lizzie, minha irmã. Lizzie, esse é o Cooper, um dos tutores de atividades aqui da Academia. – Eu disse, gesticulando de um para o outro.
–Olá, Lizzie, seja bem vinda. – Ele sorriu para ela e ela retribuiu com um sorriso tímido.
–Obrigada, Cooper. – E assim se encerraram as amenidades, pois todos sabiam o quanto eu estava ansiosa.
Antes de transpassarmos a divisão de vidro, Cooper pegou trajes em um dos compartimentos nas laterais e vestiu-os por cima da roupa, me mandando vestir um deles e falando o mesmo com Lizzie.
–Aqui, use isso. – Desta vez foi Isac que me entregou um aparelho, pedindo para eu coloca-lo em um ouvido, sendo que o aparelho se ligava a um pequeno microfone na sua ponta.
–Para que tudo isso? — Lizzie perguntou, falando pelo microfone, sua voz estava alta e clara em meu ouvido e eu fiz sinal de positivo para Isac, quando ele perguntou silenciosamente se eu ouvi.
–Os trajes só serão necessários agora na fase de teste, para que a Lou não se machuque e por outros motivos, mas, mais tarde, vai ser possível usar roupas normais para entrar na câmara. — Ele falou em um tom quase profissional.
Sinceramente? Eu quase me sentia uma astronauta com aquela roupa, só faltava o capacete e as botas. Passamos pela divisão de vidro e eu automaticamente me senti ficar mais leve. Havia uma porta, ou melhor, um buraco retangular, no final do corredor e, através dele eu via apenas uma penumbra.
Aproximei-me eufórica do buraco-porta e olhei o espaço à minha frente. Ele era parcialmente escuro, iluminado apenas por uns pontos de luz distantes uns dos outros. A câmara antigravidade se estendia abaixo e acima de onde eu estava e devia abranger uns 5 andares, era enorme para os lados também e parecia ter uma forma meio cilíndrica.
–Existem portas nos outros andares também, mas a única entrada utilizável no momento é essa aqui. — Informou Cooper.
–Utilizável é uma palavra aceita pelo dicionário? — Lizzie perguntou, atrás de nós.
–Deve ser. — Ele deu de ombros com um pequeno sorriso no rosto.
Afastei-me do buraco-porta andando de ré.
–Ahn, Loui? – Lizzie usou o apelido. – O que você está faz... – Ela se interrompeu quando comecei a correr em direção ao buraco.
Eu sentia que estava correndo em câmera lenta – e talvez eu estivesse, por causa da gravidade – e, a cada passo que eu me aproximava do buraco que me levaria para dentro da câmara eu me sentia mais lenta, mais leve. Isac tentou me impedir, provavelmente querendo falar as precauções que eu devia tomar ou qualquer coisa assim, mas a gravidade também o deixou lento.
Cheguei ao fim do corredor e meio que pulei, meio que fui puxada para dentro da câmara pela falta de um força que me puxasse para baixo.
Agora, como posso descrever a sensação? Bem, primeiro eu fiquei completamente confusa, eu não sei como explicar, mas qualquer senso de direção que eu tivesse se esvaiu e eu meio que fiquei vagando no nada, sem saber pra onde ia, até porque a pouca luminosidade não ajudava muito. Segundo que eu me sentia leve, mas, ao mesmo tempo, muito pesada. Era como se eu fosse uma pessoinha de algodão dentro de uma armadura de chumbo. Eu simplesmente não conseguia me movimentar direito.
–Isac! – gritei no microfone. – Eu não consigo me mexer.
–Bem feito. – Ouvi a voz dele pelo aparelho. – Ninguém mandou ser apressada e não esperar o amigo Isac dar as instruções.
–Cale a boca, Newton. – Resmunguei, tentando mover um braço e conseguindo levantá-lo alguns centímetros, com dificuldade. Eu ainda estava flutuando sem rumo e tive que fechar os olhos para diminuir a confusão dos meus sentidos.
–Meu nome não é Newton. – Ele retrucou. – Está vendo alguma estrela?
–Estrela? Como assim? Não, estou de olhos fechados. Eu... – Ia continuar falando, mas meu corpo se chocou com alguma coisa e eu abri os olhos. À minha frente tinha algo parecido com uma estrela de 7 pontas tridimensional do tamanho da minha perna. Ela flutuava, mas parecia ter um lugar fixo naquele espaço, pois quando eu colidi com ela, a estrela sequer sacudiu. – Achei.
Eu já estava escorregando para longe da estrela quando vi algo como uma alça presa a ela. Sem precisar pensar muito, agarrei-a com uma das mãos.
–Agora se vira pra gente. – Pediu Isac. Eu não sabia onde ele estava, eu tinha perdido a porta-buraco de vista, então dei uma volta devagar, ainda segurando na alça. Avistei um retângulo luminoso com umas silhuetas na frente, uns três metros abaixo de mim e bem distante. Tomando impulso na estrela, me dirigi para o retângulo iluminado. Infelizmente, eu não sabia controlar muito a direção que tomava e a confusão mental voltou quando eu me desviei um pouco para baixo da rota, perdendo novamente o retângulo de vista.
Ouvi risos abafados através do fone.
–Isac, cadê você? – Perguntei, perdida. Pelo menos agora eu não estava mais flutuando sem rumo, eu tinha dado um jeito de conseguir parar de pé.
–Loui. – Era a voz de Lizzie e ela parecia divertida. – Você tá de cabeça pra baixo.
–Não estou não. – Franzi o cenho. Eu estava perfeitamente bem de pé e com a cabeça virada para o lado certo. Ou, pelo menos, essa era a minha concepção. Eu já tinha percebido que a falta de gravidade confundia, me fazendo pensar que eu estava na posição certa, quando eu podia estar, na verdade, de lado.
Voltei a procurar pelo buraco-porta de onde vim e, dessa vez, ele estava acima de mim, um pouco distante. Isac acenou lentamente, som um sorriso e, realmente, eles estavam de cabeça para baixo. Mas a probabilidade de que o mundo inteiro tivesse virado ao contrário enquanto eu permanecia igual era bem menor do que a possibilidade de apenas eu estar ao contrário.
–Senhor, isso é mais difícil do que eu imaginei que seria. – Soltei, suspirando exasperadamente. –Agora como eu faço para voltar ao normal?
–Tenta achar outra estrela. – Sugeriu Lizzie.
–Como? Eu estou no meio do nada. – Rebati, ainda assim na esperança de achar o objeto tridimensional. Mas, se já era difícil encontra-los na penumbra, imagine de cabeça pra baixo então.
–Espere aí. – Ouvi Cooper dizer a Isac pelo fone.
–Não é como se eu conseguisse sair daqui. – Retruquei, vendo a silhueta de Cooper desaparecer do retângulo. Minutos depois duas silhuetas voltaram, uma delas parecia carregar algo.
–Nossa, Louisiana, como conseguiu fazer isso? – Ouvi a voz divertida de Sean pelo fone e o vi entrar na câmara e vir vagarosamente na minha direção. Ele parecia quase profissional, flutuando horizontalmente na minha direção e em momento algum se desviando de sua rota, assim como eu fiz.
–Ai, Sean, nem pergunta.
Ele tinha um sorriso de lado enquanto se aproximava e percebi que carregava um extintor de incêndio. Sean parou ao meu lado e me virou, para que minha cabeça voltasse a ficar para o lado certo, isto é, para cima.
–Seu herói não merece um beijo? – Perguntou ele, agora com o sorriso sapeca.
–Mas o Cooper está muito longe, não tem como eu beijá-lo. – Respondi, fingindo achar que o responsável por trás de todo aquele salvamento era, na verdade, o Cooper, e que Sean era apenas um instrumento. Ele fez cara de magoado.
–Afinal, como sabe flutuar e se guiar tão bem? — Perguntei a ele, que riu.
–Assisti muito a Ender´s Game, Gravidade e outros filmes de ficção espacial ou qualquer que seja o nome desse tipo de filme. – Disse ele, passando o braço por debaixo dos meus. – Ah, e se segura.
Antes que eu pudesse sequer me segurar nele direito, Sean apertou o botão/alavanca do extintor, virando-nos de costas para o buraco-porta e deixando que o princípio da ação e reação fizesse o resto.
O extintor soltou um vaporzinho e nos empurrou para trás. Sean checou por cima do ombro se a direção estava certa e acionou mais algumas vezes o extintor, fazendo com que cada vez mais fôssemos empurrados para trás, na direção do buraco-porta, ficando cada vez mais próximos dele.
Chegamos finalmente à porta e Lizzie me puxou para dentro do corredor, enquanto Cooper e Isac ajudavam Sean.
Todos voltamos para o interior da Academia, passando pela divisão de vidro, tirando os trajes astronáuticos e seguindo ao refeitório. O tempo todo Isac fez piadas sobre minha linda performance lá dentro e eu rebati, é claro.
–Então, Louise, ansiosa para continuar com os testes? – Isac provocou. Revirei os olhos. Agora os testes na câmara não seriam mais apenas para diversão, mas sim para eu provar ao Isac (e a todos) que eu conseguia muito bem me locomover na câmara antigravidade.
–Eu estou muito ansiosa. E tenho algumas sugestões. – Lancei lhe um olhar maligno.
–Diga.
–Vou dizer, mas primeiro vou apresentá-las ao seu superior. – Debochei dele. Isac era muito curioso e ele não gostava que o deixassem por fora de algo, por isso apelei para esse seu ponto fraco. Isac percebeu e cerrou os olhos para mim, apertando o passo e me deixando um pouco para trás.
Sorri satisfeita enquanto via Cooper, Lizzie e Isac se afastando no corredor.
–E então, não vai recompensar seu verdadeiro herói? – Sean reclamou ao meu lado.
Não respondi. Puxei-o para perto pela gola da camisa, com um sorriso tão malicioso quanto o dele, e beijei-o.
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