Contos De Uma Vilã
17 Como acabar com seus inimigos usando um pijama
Notas iniciais
A pior maneira de acordar uma pessoa não é jogar água gelada na cara dela, ou sacudi-la até que acorde, não, a pior maneira de acordar alguém é tirando seu cobertor. E foi exatamente isso que Isabela fez.
–Vamos, Devie, já é quase meio-dia. – Ela disse enquanto atirava meu edredom para fora do meu alcance. Resmunguei qualquer coisa sem sentido e me encolhi na cama, abraçando minhas pernas e ficando em posição fetal.
Isabela bufou indignada e tentou uma nova estratégia: fazer cócegas. Golpe baixo. Por sorte eu sei umas técnicas para evitar sentir cócegas, o que anulou o efeito de seus dedos sobre meus pontos fracos.
Quando percebeu que não estava funcionando, ela desistiu de fazer isso e agarrou meus pés, arrastando-me para fora da cama.
Agarrei a ponta oposta do colchão com as duas mãos quando ela já tinha puxado metade do meu corpo para fora e, em um impulso, ela puxou meus pés com mais força, o que me fez cair no chão, levando o colchão comigo, já que ele não era exatamente “preso” à armação da cama.
–Ai – murmurei contra o chão. Aproveitei que já estava deitada e apenas fechei os olhos, tentando dormir novamente. O chão estava frio, mas era um frio aconchegante e eu quase consegui dormir novamente. Quase. Se não fosse, é claro, pela minha querida Isabela. Essa que tinha tirado o colchão de cima de mim e estava me cutucando com o pé.
–Me deixa em paz, eu morri. – Falei, na vã esperança de que ela fosse embora. Mas ela não foi, infelizmente.
–Você é imortal, Dev. – Ela me virou no chão, fazendo com que eu ficasse de barriga pra cima. – Agora levanta, sua preguiçosa.
–Me obrigue. – Cruzei meus braços ainda de olhos fechados. Não foi a melhor coisa a se dizer naquele momento.
–Com o maior prazer. – Ela respondeu. Eu podia não estar vendo sua expressão, mas tinha certeza absoluta de que Isabela estava sorrindo maldosamente. – Só espere um pouco, porque eu vou chamar a Ayesha.
Quando ouvi essas palavras abri meus olhos imediatamente, arregalando-os.
–Nem pense. – Segurei os tornozelos dela, impedindo-a de andar até a porta. Vi seu sorriso se alargar e praguejei enquanto levantava, contra minha vontade.
–Ótimo, vá se trocar então, estarei te esperando para irmos pro treino. – Ela falou antes de me empurrar em direção ao meu armário.
Cruzei meus braços e a encarei.
–Eu não recebo ordens de ninguém. – Disse em tom autoritário. Isabela suspirou, exasperada com minha teimosia.
–Tá, então não precisa trocar de roupa.
–Eu não vou trocar de roupa. – Respondi e fui em direção à porta. Virei-me e observei uma Isabela surpresa, com as sobrancelhas levantadas, vir andando em minha direção.
Ela parecia estar duvidando se eu realmente faria aquilo. Se ela duvidava era porque não me conhecia, pois eu sou bem capaz de fazer qualquer coisa quando quero.
–Vamos, então. – Eu disse e ela pareceu sair de um transe, passando por mim e me puxando para fora do quarto.
Fomos andando pelos corredores do Instituto enquanto todos me encaravam. Sinceramente? Meu pijama não era tão indecente assim. Eu estava usando uma blusa preta enorme com o símbolo da banda Fall Out Boy, minha favorita, e um short azul escuro talvez um pouco curto e colado demais.
De qualquer maneira, ignorei o olhar de todos e atravessei o gramado, indo em direção à arena de treinamento. Miki e Bianca estavam praticando arco e flecha do lado de fora, inseparáveis como sempre.
–Olá. – Falei, observando as flechas cruzarem o ar assobiando e atingirem seus respectivos alvos.
As duas abaixaram seus arcos e se voltaram de frente para mim. Os cabelos negros de Miki caíam em seu rosto, mas percebi que ela estava me analisando, assim como Bianca.
–Por que você está de pijama? – Miki inclinou a cabeça pro lado, curiosa.
–Porque sim. – Dei de ombros, sorrindo de lado.
–Porque ela é muito teimosa. – Retrucou Isabela, revirando os olhos.
–O que é FOB? – Bianca fitava minha blusa com o cenho franzido.
Olhei para baixo, para minha camisa, involuntariamente.
–É a sigla de Fall Out Boy, uma banda que eu gosto. – Respondi, entrelaçando meus dedos descalços na grama.
Miki olhou para mim maliciosamente.
–Tenho certeza que o Sean vai gostar de te ver assim. – Ela piscou os olhos como se tivesse acabado de dizer algo inocente como “Eu gosto de borboletas”.
Ergui uma sobrancelha, eu não sabia o que dizer. Felizmente fui poupada de ter que falar quando Isabela gritou:
–Miki! – Ela fez uma cara que parecia um misto de surpresa e assombração. Miki encolheu os ombros.
–Que foi? É verdade. – Disse isso como se fosse óbvio. – Além do mais, eles ficam muito bonitinhos juntos! – Miki apertou as próprias bochechas, fazendo uma carinha fofa.
Gargalhei alto. Tinha que ser a Miki mesmo...
De repente, ouvi gritos vindos de dentro da arena e corri para lá, sem esperar que as outras me seguissem. Chegando lá dentro encontrei Gwen segurando a gola da blusa de uma garota pouco mais nova que ela. A garota estava com alguns hematomas nos braços finos e um dos olhos estava inchado, ela se debatia nos braços de Gwen.
–Me solta! – Ela cuspiu na cara de Gwendolyn, que pareceu ficar ainda mais irritada. – Você é uma imbecil, tire suas mãos imundas de mim!
–Eu não vou te soltar sua peste, não até você demonstrar respeito comigo. – Ela estava prestes a dar mais um soco na garota, que ergueu as mãos na frente do rosto para se proteger, inutilmente. Percebi que eu tinha que entrar em ação ou a garotinha iria morrer hoje.
Bati palmas lentamente, atraindo toda a atenção para mim. Gwendolyn me olhou com desprezo, talvez nem reparando que eu estava de pijama. Ela soltou a garota, que correu mancando para o mais longe possível. Olhei Gwen com meu melhor sorriso cínico.
–Muito bem, Gwendolyn, espancar as pessoas é realmente uma ótima maneira de ganhar respeito. – Disse, dando ênfase em cada palavra. Eu estava exalando ceticismo pelos poros.
Fui me aproximando do talude central, onde Gwen estava, enquanto ela me analisava com desdém.
–E quem é você para dizer isso? Devynn, a defensora dos fracos e oprimidos? – Ela riu, me encarando. Sustentei seu olhar.
–Não. Sou Devynn, a defensora das pessoas que caem nas garras da Gwen. – “Também sou Louise, a pessoa que acabou com sua vida” completei mentalmente.
–Ah, por favor! Você está de pijama! – Ela falou, ainda me olhando como se eu fosse nada mais que um inseto insignificante.
–Sim, eu sei disso, Madame Óbvia. – revirei os olhos. – Mas não há nada contra isso nas regras.
–Que regras? – Gwen franziu o cenho, se fazendo de confusa. Sorri maldosamente em resposta.
–As minhas. – Ergui o queixo como se a desafiasse a negar. Vi a tensão crescente em seu maxilar e a base do seu pescoço estava ficando cada vez mais vermelha, embora ela tentasse conter a irritação.
–De qualquer jeito, não sou óbvia. – Ela retrucou, adquirindo uma postura arrogante.
–E você também não é nenhuma madame. – Dei de ombros, com um sorriso sarcástico no rosto. Ponto pra mim. Gwen avançou na minha direção, demonstrando claros sinais de sua impaciência.
Estávamos no meio do talude, alguns centímetros uma da outra, eu sentia como se um holofote estivesse sobre nós. Pairava um silêncio estranho sobre a arena, parecia que todos estavam prendendo a respiração.
–Qual é o seu problema? – Disse Gwendolyn enfim, quebrando um pouco a tensão. Lancei-lhe um olhar indignado.
–Como assim, qual é o meu problema? Era você quem estava quase matando uma garotinha! – Retruquei, vendo a vermelhidão de raiva de Gwen se espalhar por todo seu rosto.
–Ela estava me insultando, difamando minha imagem! – Ela se defendeu, gesticulando.
–Seu argumento é inválido. – Falei, colocando as mãos na cintura e fitando-a. – E, pelo que eu ouvi, ela só estava dizendo verdades. – Lancei a ela um sorriso cruel.
Pude perceber que Gwendolyn estava se segurando para não me atacar. Decidi usar isso ao meu favor e acabar com o resto de paciência e sanidade que ela tinha, para mostrar a todos como ela era um monstro.
–Aquela garotinha era uma mentirosa. Mentirosos não dizem verdades. – Eis que surge a Madame Óbvia novamente, me controlei para não revirar os olhos e dizer “Ah, não diga”. Em vez disso, me limitei a apenas revirar os olhos.
–Ela deve ter aprendido a ser mentirosa com você, porque você claramente é uma profissional em mentir. – Retruquei.
Se existisse um mostrador de impaciência, o da Gwen já estaria estourando. Ela respirou fundo para tentar recuperar o pouco controle que lhe restava e me olhou bem nos olhos.
–Olha só, querida, sou eu quem mando neste lugar. Eu digo quem é mentiroso e quem não é. Você não pode simplesmente chegar aqui com esse seu sorrisinho sarcástico e tentar mudar tudo. – Gwendolyn desabafou. Eu estava me divertindo muito com toda a situação.
–Na verdade, eu posso sim. – Respondi, meu sorriso aumentando gradativamente. – E eu vou.
–Não se eu te impedir. – Foi a vez de Gwen sorrir. Ergui as sobrancelhas.
–Me impedir? – Ri alto. – Você não consegue nem chegar aos meus pés!
Acho que foi a gota d’água. Gwendolyn cerrou a mão em punho e tentou acertar meu rosto. Lenta demais. Segurei seu pulso antes de ele chegar perto da minha bela face.
–Ah, por favor, não me obrigue a fazer isso. – Bufei. Ela tentou me acertar com a outra mão, mas eu já havia previsto esse golpe e me desviei, segurando o outro pulso dela. Puxei-a na minha direção e, quando nossos corpos estavam prestes a se chocar, dei uma joelhada em sua barriga. Soltei seus braços enquanto Gwen arquejava e caía sentada no chão.
Observei-a se levantar com dificuldade, recuperando o fôlego. Em um movimento que eu não consegui prever, ela me deu uma rasteira, me fazendo cair em cima de meu ombro. Praguejei com a dor e rolei para trás, me levantando antes que ela pudesse me golpear novamente.
Massageei meu ombro que estava latejando e voltei a olhar para Gwendolyn, que tinha um pequeno sorriso maldoso no rosto. Eu ia acabar com aquele sorriso.
Fingi que ia dar um soco com o braço direito, o do ombro machucado, e ela se esquivou para a esquerda. Com o braço esquerdo dei o soco de verdade e a atingi em cheio no queixo, fazendo sua cabeça se inclinar para trás bruscamente.
Gwen me xingou e deu uma cotovelada nas minhas costelas, ou pelo menos tentou, mas eu repeli o golpe com o antebraço e, devo admitir, ela tem ossos muito duros, porque senti uma forte pontada de dor no local em que ela acertou o cotovelo.
Joguei meu ombro bom contra ela, como fazem aqueles jogadores de futebol americano, derrubando-a de costas no chão. Caí em cima dela, mas por sorte ela absorveu a maior parte do impacto.
Me ergui um pouco para desferir um soco em sua bochecha, e vi um filete de sangue escorrer pela boca de Gwendolyn. Ela logo inverteu as posições, ficando sobre mim e batendo minha cabeça com força contra o chão. Por um segundo minha visão ficou embaçada, mas mesmo assim consegui dar um chute em sua coxa da perna, fazendo-a rolar para o lado, gemendo de dor.
Minha visão voltou ao normal e percebi algo brilhando no canto do talude, no lado oposto a que estávamos. Tive uma ideia e rolei para longe de Gwen, sentindo fortes pontadas de dor percorrerem a área do meu ombro machucado.
Gwendolyn percebeu que eu estava me afastando e engatinhou para perto de mim, puxando meu tornozelo e me fazendo parar.
Seus olhos brilhavam com puro ódio e seu rosto estava cheio de arranhões e hematomas, fazendo com que ela parecesse uma maníaca. Eu não devia estar muito melhor e lembrar que eu estava de pijama fazia com que a situação parecesse extremamente engraçada.
Gwen me puxou pelo tornozelo e eu aproveitei para chutá-la com o pé que estava livre de suas garras. Meu chute atingiu-a no pescoço e imediatamente ela soltou meu tornozelo, ajoelhando e segurando o pescoço, com dificuldade de respirar.
Voltei a me afastar dela e peguei a “coisa brilhante” que eu tinha visto anteriormente no canto do talude. Na verdade, a “coisa brilhante” se tratava de um punhal de aço sem gume. Não cortava, mas ainda assim podia machucar.
Senti que Gwen se aproximava de mim pelas costas e virei rapidamente, segurando o punhal com a ponta virada para seu rosto. Ela recuou, engatinhando de costas, como se fosse um siri.
Levantei velozmente e a segui com passos rápidos. Num movimento rápido, ajoelhei em suas costelas com uma perna, enquanto apoiava a outra no chão, para dar equilíbrio. Gwen, que antes estava engatinhando sentada, caiu para trás quando pus meu peso sobre ela.
Ela permaneceu imóvel e eu pressionei o punhal contra seu pescoço, me inclinando sobre ela. Meus cabelos atualmente castanho claros caíam em cascatas em volta do meu rosto, mas isso não me atrapalhava em olhá-la diretamente nos olhos.
–Está vendo, Gwendolyn? – Perguntei calma e friamente. – Você não consegue me impedir, nunca conseguiu, e não vai ser agora que as coisas vão mudar. – Enquanto ela me olhava confusa eu me levantei e atirei o punhal para baixo, em sua direção, atingindo um ponto logo acima de sua orelha.
Gwen conteve um arquejo. Dei as costas a ela e me dirigi à saída da arena, com diversos olhos curiosos sobre mim. Mas, antes que eu chegasse à porta, parei.
–E, para seu bem, sugiro que não tente fazer isso novamente. – Disse, sem me virar. Deixei a ameaça pairar no ar enquanto saía triunfante.
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