Contos De Uma Vilã
28 Procurando a Louise
Notas iniciais
P.O.V Sean
Eu devia ter dormido enquanto esperava Louise voltar da Academia. Só sei que acordei deitado no sofá – todo dolorido – e pude ver a luz do Sol começar a iluminar a casa.
Estranhei por não ter sido acordado quando Louise chegou, porque era isso o que ela fazia quando saía a noite e voltava bem tarde: ou ela me acordava de uma maneira bem irritante ou ela se acomodada perto de mim (porque eu geralmente acabava dormindo no sofá) e dormia também. Vendo que ela claramente não estava ao meu lado, imaginei que estivesse em seu novo quarto.
Louise ficava incrivelmente mal-humorada quando era acordada e foi exatamente isso que resolvi fazer, como uma pequena vingança por ela ter me acordado tantas vezes.
Subi as escadas silenciosamente e fui até a porta que eu achava ser a do quarto dela. Abri-a, tentando fazer o mínimo de barulho possível. No entanto, me surpreendi quando entrei no quarto, afinal, não havia ninguém ali. Os lençóis da cama sequer estavam remetidos. Franzir o venho e fui vasculhar os outros quartos e, quando não a achei em nenhum deles, fui vasculhar outros cômodos da casa. E o que eu achei foi... Nada. Absolutamente nada. As coisas dela estavam ali, mas Louise havia desaparecido.
Ela devia ter passado a noite na Academia, foi o que pensei. Por algum tempo esse pensamento me tranquilizou, até eu ligar para April e, depois de receber uma avalanche de xingamentos provenientes de uma ressaca, ser informado que Louise não estava por lá.
–Você já procurou na antiga casa? – April perguntou depois de um bocejo e antes de desligar o telefone na minha cara.
Foi o que eu fiz em seguida, mas, após uma busca infrutífera por toda a Francis I, também não a encontrei. Eu só comecei a ficar realmente preocupado quando fui para a Academia e encontrei Isac, que disse que o carro dela estava na garagem subterrânea e que o sistema da Academia tinha sido invadido à noite, no mesmo horário em que Louise estava lá. Inevitavelmente, tudo estava interligado.
De tarde me juntei a Emily, Damien, April e o resto do povo para procurá-la pela cidade, mas eu tinha o pressentimento de que não iríamos encontrar Louise, porque ela não tinha apenas fugido ou desaparecido. Alguém tinha levado ela.
E eu iria descobrir quem era esse alguém. Eu iria atrás dessa pessoa e encontraria Louise e, se ela estivesse machucada, essa pessoa que a levou iria pagar.
P.O.V. Louise
Fiquei de pé com um salto quando a pesada porta de metal se abriu e por ela entraram três homens: dois que pareciam ser guarda costas e, entre eles, o meu sequestrador, que parecia ser o líder do grupo.
Eu estava indignada em como alguém tão jovem (e tão bonito) quanto aquele garoto parecia ser tão respeitado por homens com o dobro do seu tamanho e de sua idade.
Os homens observaram a figura caída no chão – um funcionário que tinha sido designado para me trazer comida e que eu havia ‘acidentalmente’ nocauteado – o líder sorriu de lado, divertido.
–Que recepção calorosa. – Ele disse, com um sarcasmo implícito em sua voz tão polida quanto mármore.
Encarei-o, sem responder, e sentei-me no colchão puído que atualmente era minha cama. O Sr. Polido sustentou meu olhar e fez um gesto de dispensa para seus guardas. Imediatamente, os dois saíram do quarto e fecharam a portanto, deixando-nos sozinhos.
Resolvi, então, retribuir seu tratamento cordial, uma vez que eu não conseguia resistir a um sarcasmo.
–Bem-vindo à minha humilde residência – Falei com a voz rouca de desuso e porque eu havia acordado a pouco tempo. Lancei lhe um sorriso de escárnio e ele rebateu com um sorriso cético.
–Muito obrigado, senhorita... – Ele esperou que eu dissesse meu nome, mas eu não disse nada, apenas fingi não ter escutado o tom questionador na sua voz.
Ele pigarreou e sua expressão se tornou mais séria. Percebi então por que ele era respeitado pelos seus subordinados: ele exalava confiança em si próprio e seu olhar sério era capaz de congelar um oceano inteiro. Ele parecia alguém que devia ser temido. E, nesse piscar de olhos, o Sr. Polido passou a ter meu respeito também.
–Poderia me dizer o seu nome? – Sua pergunta parecia mais uma ordem, e deum tom de voz havia se tornado impaciente.
–Só se você me disser o seu. – Rebati com um sorriso afável.
Sempre achei incrível a importância que davam aos nomes. Você podia descobrir tanta coisa com apenas um deles. Na verdade, quase tudo se resumia a eles. Era como os números: estavam por toda a parte.
Eu e o Sr. Polido permanecemos nesse impasse por um longo tempo em que nenhum de nós dois falou nada. Apenas avaliamos um aou outro com o olhar, tentando arrancar a verdade à força.
–Benjamin. – Ele acabou respondendo. Devia saber que eu não iria falar tão cedo e provavelmente tinha coisas melhores com as quais se ocupar, portanto devia estar querendo acabar logo com aquilo.
–Se eu estou aqui é porque você já sabe como eu me chamo. – Falei, ficando satisfeita quando notei que minha resposta o deixou um pouco mais impaciente. – Aliás, você já deve saber até mais sobre mim do que eu mesma sei.
Benjamin sorriu, com o que eu disse, como se tivesse confirmado que eu era inteligente –algo que provavelmente leu em algum artigo sobre mim — e isso o deixasse feliz.
–Mas eu queria ouvir você dizendo. – Ele disse e se aproximou um pouco.
Cerrei os olhos, tentando prever o que ele faria a seguir e imaginando se eu deveria falar meu nome verdadeiro ou um outro qualquer.
Se, como eu havia afirmado antes, ele sabia tudo sobre mim, não faria diferença dizer a verdade. Mas eu podia estar enganada e, afinal, ele não tinha confirmado que conhecia minhas informações, e podia estar apenas blefando, logo dizer a verdade seria arriscado.
–Anne. – Optei por uma meia verdade. Esse era meu nome do meio, que eu não usava há anos, porque nunca gostei muito dele. Anne deixava meu nome com um aspecto de nome composto e eu não gostava de nomes compostos. Além do mais, muitas pessoas acabavam me chamando de ‘Louisianne’ o que, sinceramente, não é um nome tão bonito quanto apenas Louise.
Benjamin tinha um sorriso irônico no rosto. Não precisei de mais nada para entender que ele já sabia qual era o meu nome.
–Belo nome, Louise.
Dei de ombros. Eu já imaginava mesmo que ele soubesse.
–Agora me diz: o que vocês querem comigo? – Inclinei-me para a frente, nivelando meu olhar com o dele.
–Quem faz as perguntas aqui sou eu, meu bem. – Benjamin retrucou, sorrindo de lado. Revirei os olhos. Já me disseram isso tantas vezes que eu devia ter mais de 50 respostas diferentes para isso.
–Você não tem o que perguntar, sabe o suficiente sobre mim. – Aquela conversa estava começando a cansar minha beleza. Eu só queria saber o que estava fazendo ali, por que eu estava ali e quem eram eles.
–Mas nós precisamos saber mais do que apenas ‘suficiente’ para podermos fazer nosso trabalho, querida. – Benjamin rebateu e me perguntei qual seria o trabalho que eles faziam.
–Para que eu conte o que você quer saber, você vai precisar me dizer o que eu quero saber primeiro. – Falei e deixei que ele pensasse na proposta, mas não demorou muito tempo para que ele respondesse:
–Na verdade, você vai dizer o que eu quiser e quando eu quiser e vai colaborar sem reclamar, porque senão sua Academiazinha e seus amiguinhos vão pagar. – Sua voz se tornou fria e ameaçadora e eu o olhei de olhos cerrados, me controlando para não soltar um xingamento.
–A Academia não vai cair tão facilmente. – Afirmei, mas minha convicção diminuiu aos poucos quando lembrei da facilidade que foi para eles entrar na Academia, desligar a câmara antigravidade e me raptar.
Benjamin ergueu as sobrancelhas com uma expressão de escárnio.
–Mas vai cair mesmo assim – Ele fez uma pausa – Se você não colaborar. Mas aposto que você vai. – Ele completou com um sorriso e uma piscadela, que eu retribuí com uma careta de repulsa.
–É uma decisão difícil. – Comentei com um pouco de sarcasmo. – Quanto tempo eu tenho para pensar no seu caso?
Benjamin sorriu, ele devia saber que iria ganhar. Pois eu nunca, nunca, sacrificaria a Academia e nem meus amigos. No entanto, ele também precisava de mim. Eu acreditava que, nominal das contas, eu ainda conseguiria sabotar o sistema dele, ou destruí-lo, e voltar para a Academia. Levaria algum tempo, é claro, mas algo em Benjamin me dizia que eu teria bastante tempo.
–Você tem alguns minutos para se decidir, se é que já não o fez. – Ele notou a determinação no meu olhar e assentiu para si mesmo, como se confirmasse o que estava dizendo. – Acha que 10 minutos são suficientes? Devem ser. Volto logo, querida, não precisa sentir saudades. – Ele abriu a pesada porta de metal e rumou para fora, juntando-se a seus guardas e me deixando sozinha.
Eu queria gritar a plenos pulmões e xingar Benjamin de todas as maneiras e em todas as línguas possíveis, mas canalizei a fúria que estava sentindo para poder usá-la quando fosse necessária.
Só então notei que havia um relógio de ponteiros na parede acima da porta, o horário podia estar errado, mas ainda era útil. Resolvi aproveitar os 10 minutos que me foram dados e deitei-me no meu colchão puído, rapidamente caindo no sono.
P.O.V Sean
Depois de um dia inteiro procurando em vão por Louise, voltei para Francis II e juntei minhas coisas. Eu não estava deixando a casa de vez, mas, uma vez que Louise não estava mais lá e que eu teria que passar mais tempo com o pessoal da Academia se quisesse achá-la, seria melhor que eu me mudasse temporariamente para lá.
Peguei um dos carros da Louise e cheguei em pouco tempo ao prédio da Academia. Instalei-me em um dos quartos do dormitório e fui me encontrar com Lizzie.
Ela parecia ainda mais determinada que eu na busca pela sua irmã. Deveria ser terrível para ela perder Louise pela segunda vez em tão pouco tempo.
Encontrei Elizabeth e Damien treinando esgrima. Ambos eram bons e, apesar da diferença de idade, tamanho e gênero, Lizzie parecia ser tão boa quanto Damien. Devia ser uma coisa de família, afinal, Louise também era boa de luta, na verdade ela era quase profissional.
Sentei e aguardei enquanto lutavam. Vi Lizzie cometer um pequeno erro e abrir brecha para que Damien vencesse. O deslize não havia sido proposital, percebi. Lizzie devia estar realmente muito preocupada com a irmã para que sua mente se desviasse da luta a ponta de ela errar daquela maneira.
Os dois se cumprimentaram respeitosamente ao final e logo depois ambos vieram na minha direção, cambaleando de cansaço.
–Você já não tinha ido embora? – Lizzie foi direta, mas não rude. Sorri para ela quando se sentou ao meu lado.
–Ir embora para ficar sozinho naquela casa escura e assustadora? Nem pensar. – Falei animadamente e baguncei o cabelo dela, que fez uma careta.
–Ah, não. Isso quer dizer...
–Que você vai ficar aqui? – Damien a interrompeu, oferecendo a mão espalmada no ar para que eu batesse. – Bem-vindo, cara.
Bati na mão dele e nós comemoramos e rimos quando Lizzie nos olhou emburrada. Ela se levantou e bateu na calça como se quisesse tirar a poeira.
–Vamos logo, então. Já deve ser hora do jantar. – Ela ofereceu as mãos para que levantássemos e foi o que fizemos, quase derrubando-a no chão.
P.O.V Louise
Eu queria ter acordado antes que Benjamin voltasse, mas o sono não parecia querer o mesmo.
Ele voltou depois dos 10 minutos e, com toda sua pose galante e educada, me chutou para fora do meu colchão, e eu acordei imediatamente.
–Bom dia, flor do dia, já se decidiu?
–Como se eu tivesse alguma escolha. – Resmunguei, me sentando e encarando-o. Ele riu, concordando, e me levantou.
–Acho que isso é um sim, então. – Ele abriu a porta da cela e fez um gesto para que eu o acompanhasse até o lado de fora. Seus guardas me cercaram e nos escoltaram por vários corredores mal iluminados até um setor diferente daquele lugar.
Chegamos a um andar com portas de madeira e não de metal e aparência bem mais limpa do que o lugar onde eu estava. A cada passo a quantidade de luz aumentava e eu me vi em um corredor que mais parecia ser de um hotel.
Fui levada até um quarto grande e sem muita decoração, mas definitivamente melhor do que a cela onde eu estava antes.
Benjamin me deu umas poucas instruções e mostrou as portas que me levariam ao banheiro e a uma pequena sala com uma tv. O quarto, apesar de parecer luxuoso, estava cheio de grades nas janelas e câmeras, sem contar que não havia nada ali que eu poderia usar como arma. Eu me senti tão presa quanto naquela outra cela, nojenta e mal cuidada.
Benjamin então se encaminhou para a porta e, antes de sair e me trancar lá dentro, disse:
–Bem-vinda ao Departamento de Experimentos Científicos! – disse com falso entusiasmo. – Se preferir, chame de DEC. Os experimentos começarão amanhã cedo. – E bateu a porta.
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