Contos De Gaveta
19 O Natal.
Notas iniciais
É chegado o dia. A árvore, vistosa, enfeitada, deve se desenfeitar, em função do luto pelo já passado Natal. Em todo o mundo mães pedem ajuda a seus filhos, para que juntos possam fazer o serviço que ninguém gostaria de ter que fazer. Janelas banhadas de nostalgia permitem que tudo seja visto. Em uma dessas casas, uma mulher, agachada junto a uma caixa, chama pela filha:
– Venha, querida! Vamos desmontar a árvore...
A criança, num estado choroso, encara a mãe, e sussurra:
–Mas, mamãe... Eu quero que seja Natal de novo!
Rindo um pouco do biquinho da filha, a mais velha responde, acalentadora:
– Eu sei, filha, mas a graça dos natais está justamente em serem eles eventos anuais! Agora desça deste balcão e pegue aquela caixa ao lado do sofá, por favor.
Num piscar de olhos, a outra se estica ao chão, aponta o dedo, e com os olhos semicerrados, acusa:
– Mas ai você vai encaixar o Papai Noel!
Fazendo então um gesto de aproximação, a mãe pega a criança e a senta sobre os próprios joelhos, encarando o fundo dos olhos castanhos gigantescos e inocentes, para dizer:
– Meu amor, eu jamais poderia encaixotar o Papai Noel! A gente só vai guardar esses enfeites aqui, pra usar de novo no ano que vem. Não é como se o Natal fosse para dentro da caixa também. O Natal é maior que isso, filha. Mas, se quiser, pode escolher um enfeite e guardá-lo sobre o baú, perto da cama, para se lembrar de guardar o Natal no coração.
A pequena então sorri por um instante, e escolhe o enfeite em formato de boneco de neve, com um meio sorriso de botões verdes. Em seguida esquece-se do que fazia para encarar a mãe com olhos inquisidores, iniciando a fala, em tom de aceitação:
– Tá legal... Mas, mamãe, se o Natal é maior que essa caixona, como é que vai caber aqui, no meu coração?
Com isso, a mulher não consegue conter a gargalhada que lhe escapa por entre os lábios, fazendo com que o pai, até então mero espectador, pronuncie-se:
– Ei, querida, pode ir brincar. Deixe que eu ajudo sua mãe a terminar aqui. Afinal, creio que terminaremos mais rápido sem as suas inacreditáveis perguntas.
A criança então retira-se, saltitante, para um canto qualquer que lhe ofereça conforto. E os pais iniciam a árdua tarefa de desmontar a árvore. Algo lhes diz que, encarando pela janela, um grupo de pessoas saberá da sua história, e advertirá, através da nostalgia, a certeza de que não há ninguém mais certo do que a jovenzinha que brinca sozinha de não “encaixar” o Natal.
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