Contos De Gaveta
30 De carro na estrada.
Notas iniciais
A ponta do nariz ardia, e as bochechas ardiam, e o sol ardia, a areia de beira de estrada grudava na panturrilha quando o sapato a jogava para trás. O asfalto ardia, e ardiam os olhos. O sol ardia, o tempo todo, sempre, e a estrada não tinha fim. Vinha a curva, e eu me curvava procurando na mochila o protetor solar. Lá atrás tinha um carro, eu pedi carona, e ele já estava lá na frente, mas diminuiu a velocidade, eu corri, ele parou, e me deixou entrar, então eu entrei.
Era uma moça, e ela sorriu, me ofereceu água, e perguntou meu nome. Eu aceitei a água, minha garganta ardia, e disse meu nome porque era educado dizer. Prazer, ela disse, eu também. “Pra onde você vai?”, ela perguntou, e eu não sabia, só ia indo, indo, até onde tivesse estrada, e sempre tinha, e eu nunca parava, então disse: “Pra onde você for.” Ela me olhou, apenas me olhou, os olhos iguais aos de minha mãe, ou não, já não me lembro.
O carro ia longe, o sol ardia, e eu tinha achado meu protetor. Íamos mudas, eu e ela, talvez o rádio estivesse ligado, eu não ouvia, não queria ouvir, já não me lembrava o que era música, mas ela girou o botão, eu ensurdeci, gritei, e ela não se assustou, ela nunca parecia se assustar, só pisava no acelerador, não tinham mais curvas.
O sol ardia, mas já não queimava a ponta do meu nariz, porque eu tinha passado fator 50, e porque lá dentro estava frio, uns 15 graus, no marcador, e meu corpo esfriava, aquietando os pensamentos, então resolvi falar, mas não soube o que, as palavras morrendo na língua. Foi ela quem disse, ia longe, não pararia, eu não me importava, nem ela, íamos juntas, não sei para onde, nem ela sabe, não importa, vamos indo.
Ela encostou o carro, sem desligar, só desceu, remexeu o porta-malas, me trouxe uma blusa, bolachas, perguntou quando foi a última vez que comi, que dormi. Eu não lembrava, mas comi as bolachas, e perguntei a data, para que pudesse responder quando me perguntassem “Quando foi que comeu?”.
Meus olhos ardiam, não mais pelo sol, mas pelo sono, então encostei no vidro, e questionei se ela se importaria, mas não, ela não ligava, eu poderia adormecer. Quando acordei não sei se era dia, nem noite, não sei, tinha uma luz voltada para o meu rosto, e eu olhei para o lado, a moça assustada, pisou no freio, girou o volante, ela tinha medo, pela primeira vez, então temi, e o carro bateu. Capotamos.
Lembro-me de ter pensado que o sol não ardia, e que a areia ainda estava grudada em minha panturrilha, e que de carro eu chegaria mais rápido. De carro, na estrada, até a morte chegava mais rápido.
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