Contos - Aventuras Mágicas

19 Alimentando o coração


Notas iniciais
Tema: Cozinhar. Dupla: Leone e Kenshin. Boa leitura!

Outro dia...

A jovem de longos cabelos volumosos brancos estava no meio da enorme cozinha utilizada por todos na vila mordendo a ponta das unhas enquanto observava preocupada as panelas penduradas nas paredes. Ela tinha passado a maior parte do dia se perguntando se deveria estar ali só para agora acabar sem saber o que fazer ou, pelo menos, por onde começar.

Naquela manhã, quando Leone acordou abruptamente depois de mais um pesadelo, sentiu como se não estivesse ali. Não em seu quarto, mas em sua própria vida. Era como se, de alguma forma, as lembranças do passado distante a lembrassem de sua impotência e de todo o sangue que manchava suas mãos estivessem consumido seu ser por completo na tentativa de apaga-la mais uma vez.

A única coisa que conseguiu fazer foi se agarrar ao travesseiro com medo implorando para que os sentimentos fossem embora. Porém, quando fez isso, pôde ver deitados na cama ao lado da sua Hisashi e Akaji dormindo como duas crianças que acabaram caindo no sono no meio da brincadeira.

Seu coração pesado doeu novamente, mas, ao mesmo tempo, o sorriso aliviado traçou seu rosto a lembrando de quem era quando estava com eles. Por isso, quando se levantou, o desejo de faze-los se lembrar o quanto eram importantes para ela a motivou a ir até a cozinha preparar a melhor refeição que já tinham provado.

Essa série de pensamentos a levou ali para agora estar tão concentrada se fazendo perguntas que não percebeu quando homem de aparência translucida adentrou a ala. Ele, entretanto, notou a forma distraída que olhava para os lados como se estivesse sozinha em sua própria mente e por isso tomou cuidado para não assusta-la quando se aproximou. Afinal, a última coisa que alguém iria querer ver em uma situação dessas seria um espírito.

No meio do caminho Kenshin até pensou em ir embora e voltar mais tarde, não estava com pressa para o que ia fazer, porém a ver andando com aquele olhar distante de solidão o impediu momentaneamente fazendo se questionar qual era o problema.

— Ah... – calmamente procurou chamar sua atenção sem muitos exageros e saber se precisava de ajuda. — Você está bem?

Seus grandes olhos verdes seguiram a direção da voz mostrando estar tão surpresa quanto envergonhada quando encontrou os azuis dele. A jovem parecia mais perdida do que assustada e acabou levando alguns instantes para perceber que ele realmente estava ali.

— Sim, estou. – Sorriu como sempre fazia para todos sem dar certeza para a honestidade.

— Está ocupada?

— Ah... – a dúvida se mostrou mais clara por trás dos lábios sorridentes. Era óbvio que não haveria problemas em contar sobre seus planos, mas estava tão deslocada que nem sabia se a resposta que tinha soaria como queria.

Seus olhos desceram ao chão e depois para o balcão com armários como se procurasse por palavras escondidas nos vãos. Um suspiro desajeitado lhe cortou os lábios enquanto ele aguardava pacientemente pensando se não deveria ter perguntado.

— Eu queria fazer algo. – Começou timidamente enquanto entrelaçava os dedos procurando por apoio. — Para a Akaji e o Hisashi. Eles estão sempre fazendo de tudo por nós e carregam um peso desnecessário por isso... Eu realmente queria animar um pouco eles. – Enquanto contava ele se aproximou com seus passos suaves que o fazia parecer que flutuava. — Mas eu não sei o que fazer. Sei que vão gostar de tudo, mas quero mostrar que me importo.

— Sabe do que gostam?

— Hisashi prefere salgados e a Akaji – levantou o rosto sendo surpreendida pela presença próxima — de tudo.

— Nesse caso, fica mais fácil se focar nisso. – Com o mesmo tom calmo, sugeriu vendo seus olhos atentos o encarar. — Posso te ajudar se quiser.

— Eu não quero te incomodar. – Não estava recusando, mas o receio em aceitar a oferta foi quase instantânea a fazendo erguer as mãos como se tivesse medo de ter a presença de mais alguém por perto.

— Não vai. – Kenshin notou a relutância, mas não soube quais eram os motivos por isso respondeu honestamente mostrando um curto sorriso amigável.

Não era como se Leone não o quisesse ali, porém, depois de passar tanto tempo implorando para que os outros não se aproximassem dela era automático que sua reação fosse tentar afastar quando sugeriam ficar. Entretanto, o conforto no sorriso dele acalmou seu coração perturbado a fazendo querer não estar sozinha.

— Então, eu agradeço se puder. – Sem jeito aceitou mostrando seu mesmo sorriso o vendo assentir antes de se virar para os armários.

— Eu conheço alguns pratos que são rápidos de fazer e são saborosos. Coisas que eu costumava comer há muito tempo.

Como se estivesse vendo alguma memória passada, o homem caminhou até o balcão onde pegou alguns pratos decorados colocando-os lado a lado. A jovem não sabia do que se tratava, mas seus movimentos que pareciam acostumado a fazer isso a fez o seguir parando a sua frente.

— Na minha cidade, nos costumávamos fazer de tudo um pouco. – Sua voz ainda tinha o tom calmo, mas, dessa vez, parecia carregar uma lembrança que ela não podia ver. — Os doces normalmente vinham de frutas locais. Fazíamos a massa utilizando a fruta depois moldávamos em formatos de flores, corações, animais... Alguns recheavam com chocolate, outros não. Normalmente se comia crua, mas tinha quem gostava de assar. – Eram tantas as lembranças que ainda guardava que naquele momento pareceu estar vivo de novo. — Era muito colorido e... doce.

— Devia ser lindo.

— E era. Na verdade, ainda é. – Sem jeito sorriu lembrando de onde estava agora sem mostrar qualquer sentimento negativo.

— A Akaji iria gostar. – Percebendo a situação, Leone se calou por alguns instantes como se respeitasse seu infortuno antes de se lembrar do porquê estavam conversando ali. — Ela não sente sabor ou cheiro, mas ama doces porque são bonitos.

— Cada um se alimenta de um jeito. – Pegando talheres, os espalhou pelos pratos elegantemente atraindo o olhar dela para sua delicadeza. — Observar algo que se gosta, alimenta o coração. – Sorriu fazendo a jovem concordar. — Já para os salgados me lembro que aves e peixes eram muito típicos.

— Oh.

— Sopa de Scruk era famosa no inverno e as frituras no verão. – Com uma mão no queixo parou por alguns instantes refletindo sobre o que mais poderia oferecer de seu passado. — Nós temos peixes aqui e acho que é mais fácil fazer algo frito para levar do que tigelas de sopa.

— Concordo. E acho que isso é mais a cara do Hisashi.

— Certo, então faremos nuvens de Larg. – Kenshin falou com determinação como se fosse algo comum para a ocasião, porém a expressão confusa dela o fez parar antes de começar a separar os ingredientes. — É uma receita simples de peixe e massa de milho. Ganhou esse nome porque não importa a forma que a massa seja moldada. Quando termina de fritar, eles sempre parecem nuvens. Acontece por causa do peixe. – Explicou a vendo encantada como uma criança fazendo alguma descoberta. — São de um cardume de nuvens.

— Incrível.

— E também é muito macio.

— Toda essa conversa... Está me deixando com fome também. – Confessou mostrando seu interesse e gratidão por ter ele para guia-la. O homem assentiu entendendo que o plano estava feito e agora só restava iniciar.

— Pra começar, eu quero que você pegue a farinha e os ovos que estão ali. Vou pegar o peixe.

Vendo os armários onde ele apontou a jovem assentiu o assistindo sair em direção a sala ao lado onde carnes eram estocadas. Ela não tinha muita certeza em como poderia trabalhar junto com ele quando não sabia nem o que estava fazendo, mas mesmo assim juntou toda a determinação que tinha e foi até a direção informada.

Infelizmente sua animação durou somente até abrir a porta e ver os vários grandes pacotes empilhados nas divisórias sem nenhuma etiqueta ou informação que a ajudasse.

Seus olhos confusos passaram de embrulho a embrulho pensando se todos eram a mesma coisa ou se havia diferença. Não demorou até a insegurança voltar a atormenta-la deixando claro que não conseguia nem fazer algo simples assim.

— Achou? – Tranquilamente Kenshin questionou assim que voltou para o balcão com vários peixes pequenos e frescos nas mãos. Entretanto não ouviu resposta o deixando intrigado. — Leone? – Chamou novamente vendo as costas de ombros caídos que não fazia sentido para a ocasião.

— Ah... – envergonhada como se tivesse cometido um erro monstruoso, se virou tentando sorrir. — Qual dessas é?

A pergunta parecia vaga para ele. Apesar de não ser o tipo de pessoa que vivia na cozinha e conhecia cada armário, o homem ainda sabia onde algumas coisas básicas estavam, entretanto também sabia que outros moradores poderiam ter passado por ali e mudado as localizações.

Devagar se aproximou dela vendo o armário do mesmo jeito que se lembrava estar e logo olhou para a jovem que parecia curiosa pela resposta. Com um movimento apontou para o item mais próximo deles a assistindo pegar antes de poderem voltar para o balcão.

Leone nem precisou perguntar para saber que ele estava desconfiado de algo. Afinal, era estranho para alguém que estava parada na cozinha a manhã toda não saber onde estava algo tão comum como isso.

— Eu... – envergonhada pelo silêncio resolveu explicar suas ações enquanto deixava o pacote ao lado do peixe — nunca cozinhei antes.

A revelação tímida e quase culpada o pegou de surpresa. Kenshin tinha assumido que ela sabia fazer algumas coisas já que estava ali, mas se enganou. E ao invés de se irritar como Leone esperava, ele se sentiu mal por falar tanto sobre receitas sem nem ter perguntado antes o que ela conseguiria fazer.

— Eu só vou te atrapalhar, né? – Mesmo sem querer era claro que estava entristecida ao dizer essas palavras, porém não podia evitar de assumir suas dificuldades. — Desculpa te fazer perder tempo me explicando tudo.

— Espera aqui.

Kenshin nem deu tempo para que ela continuasse, sabia que a jovem iria acabar querendo desistir, por isso assim que viu seu semblante triste ele seguiu direto para a porta ao lado onde havia uma sala pequena fechada. Leone não sabia o que deveria fazer e nem se deveria continuar com isso, contudo se permitiu aguardar pela volta dele se perguntando se ele tinha ficado bravo.

Não demorou nem dois minutos para que estivesse de volta com um avental longo em mãos e um olhar que mostrava ainda mais determinação do que antes. De início, a jovem não entendeu, mas assim que ele esticou as mãos entregando para ela soube que não estava decepcionado.

— Nunca é tarde para aprender algo.

Apesar de estar hesitando aceitar pelo medo de causar problemas, Leone acabou sendo contagiada pela vontade de tentar ariscar que ele transmitia. Não iria se forçar, mas agora queria mais do que antes dar seu melhor para alcançar o objetivo.

No início foi complicado conseguir seguir as instruções dele sem entender do que tudo se tratava. Toda vez que pedia para pegar algo, Leone acabava ficando parada entre as coisas que achava ser e as quais tinha dúvida do que seriam. Entretanto Kenshin não a deixou sozinha em momento algum e sempre que via o olhar confuso e as mãos nervosas ele olhava o que estava fazendo e explicava aonde deveria estar.

Aos poucos o homem foi parando de dar as resposta deixando que ela procurasse por elas sozinha e quando parecia que nada fazia sentido ele soltava algumas dicas ou referências para facilitar a busca.

Demorou um tempo até Leone se acostumar com a quantidade de água que deveria usar para fazer misturas ou quantas vezes podia bater a massa. Sem falar nas vezes que acabou jogando os temperos aleatoriamente deixando o mais velho preocupado.

Por várias vezes a jovem pediu desculpas e várias vezes se sentiu envergonhada por suas confusões, contudo nenhuma dessas vezes ele perdeu a paciência ou a criticou. Levou tempo, mas foram esses erros que a fizeram perceber o que podia ou não fazer e ainda deram espaço para que tentasse ir mais além.

Kenshin a viu lentamente ganhando confiança e parando de pedir sua ajuda a cada dois minutos. Aquilo podia parecer um aprendizado simples, porém ver as expressões cabisbaixas se tornando mais determinadas o fez perceber o quanto um pequeno auxílio pode fazer.

Na parte de fritar o peixe foi ainda mais complicado sendo que ela não tinha qualquer noção de como o óleo podia subir cada vez mais quando colocava um novo item ali. No final, mesmo com todo o cuidado, ela acabou se queimando várias vezes. Nada que fosse grave, apenas algumas lembranças de um novo aprendizado.

Ambos estavam curtindo a tarefa de seu próprio modo, fosse moldando os formatos nos doces ou fazendo novas misturas para uma massa fofinha. Eram duas almas distorcidas se divertindo com uma tarefa simplesmente inesperada.

Ao final, quando tudo estava expostos em lindos pratos coloridos sobre a mesa, eles puderam sorrir aliviados apesar do cansaço aparente. Estava tudo completo como queriam e o melhor era saber que estava bem feito com um cheiro delicioso que só aumentava ainda mais o apetite da jovem.

— Ficou perfeito. – Ela comentou mostrando o sorriso mais largo que ele tinha visto desde que estava ali. Dessa vez ela parecia realmente feliz. — Eles vão adorar. Muito obrigada. – Olhando para o homem, disse mostrando os olhos brilhantes que falavam muito mais do que aquelas pequenas palavras. — Eu não ia conseguir sozinha.

— Ia, sim. – Se inclinando para trás, retrucou contente. — Seu amor por eles ia te guiar.

— Ah... eu sei que você não come, mas deveria levar para alguém também. – Pegando um prato doce e outro salgado, ela sugeriu sem o ver assentir. — É sua parte.

— Vou, sim.

Depois de agradece-lo pela terceira vez, Leone finalmente saiu da cozinha imaginando que aqueles dois talvez ainda estivessem no quarto e, quem sabe, até dormindo. Kenshin, por outro lado, ficou ali a assistindo desaparecer antes de poder se virar para olhar melhor seus feitos.

Os doces estavam coloridos e as frituras pareciam crocantes como aquelas que uma mordida faz barulhos altos atraindo atenção. Por instantes o sentimento de nostalgia tomou conta dele o fazendo se lembrar de coisas que não poderia ter novamente.

Com calma foi até uma das prateleiras pegando alguns pratos para colocar na mesa sem ignorar a bagunça de sentimentos que corria por todo seu corpo.

— Para Kiyoko. – De volta a mesa ele espalhou as porcelanas colocando doces e salgados no prato enquanto falava sozinho. — Para Satsuke, Rudy, Sunny e Sith. – Assim que terminou viu que tinha a quantidade certa para cada um deles ali se perguntando se deveria chama-los para comer ali.

Em meio a dúvida e a tentativa de acalmar sua energia seus olhos correram pela mesa encontrando um prato no canto solitário. Ele se aproximou pensando em guarda-lo quando viu o que o fez parar por alguns instantes em silêncio.

Aparentemente ele não tinha dividido a quantidade certa e ali naquele canto silencioso dois doces haviam sobrado. Uma flor rosa e outra branca apoiadas ao lado uma da outra.

A energia enlouquecida em seu corpo lentamente se acalmou o fazendo sorrir um sorriso nostálgico e cheio de carinho.

— Esse fica para depois. Quando estivermos juntos de novo.

—Fim. XVIII

Notas finais
Me senti um pouco relutante com esse capitulo por ter o mesmo tema que usei com Aliu e Astelle. Apesar do clima ser totalmente diferente ainda me deixou incomodada com a semelhança. Também gostei de trabalhar com o Kenshin dessa forma e fiquei feliz em ver eles se dando bem. Hm... O que achou? Espero que tenha gostado porque a intenção apesar dos pesares foi transmitir alegria :D Até amanhã!