Contos

1 Conto 1 - Casamento


Notas iniciais
(Vou fazer das Notas do Captulo uma pequena sinopse dos contos)
Um casamento "normal" numa igreja "normal" com pessoas "normais" e acontecimentos perfeitamente "normais".

Mary se olha no espelho. Seu vestido branco justo marcando seu corpo de mulher, acentuando suas curvas. Seu cabelo preso num penteado nobre, cheio de grampo com pequenos brilhantes em cada. Sua maquiagem tão claro quanto nunca havia usado antes. Sapatos com salto, totalmente brancos e sem detalhes. E por fim um véu transparente cobrindo tudo: um pedaço maior que se encostava em suas costas nuas e ia até seus pés (tão longo que se arrastava no chão), e outro pedaço menor para cobrir seu rosto que ia até a altura dos seios.

Muitas mulheres corriam de um lado para o outro no quarto. Algumas da família, outras contratadas para o evento. Mas Mary não as via mais, via apenas vultos apressados e ansiosos. Prestou atenção em si mesma por um momento. Não pôde mais parar. Enlouqueceria se deixasse que continuassem a tentar arrumar falhas inexistentes em seu vestido, cabelo e maquiagem.

"Saiam daqui." disse finalmente, com suavidade e calma, porém com energia o bastante para que a obedecessem sem que precisasse insistir. Mas mesmo assim quis finalizar enquanto as mulheres passaram pela porta "Me deixem um pouco sozinha, por favor."

Percebeu que esteve o tempo todo sorrindo com seus lábios rosados, desde que começou os preparativos. Percebeu que ia se casar, e que em menos de duas horas seu noivo Jack passaria a ser seu marido. Sentiu o sentimento se ansiedade, felicidade e impaciência crescer, misto, em seu peito.

Logo ouviu batidas na porta, mas antes que pudesse responder a pessoa se colocou para dentro do quarto furtivamente e fechou a porta com tanta rapidez quanto adentrou no cômodo. Era Jack, belíssimo em seu terno preto e majestoso em seus cabelos negros e olhos castanhos. Pelo menos assim o via Mary.

"Saia daqui, tonto. O noivo não pode ver a noiva antes do casamento, dá azar" repreendeu-o a moça

"Azar eu teria se eu fosse cego, e não pudesse vê-la tão linda" respondeu Jack, suspirando, com olhos de apaixonado

"Você também está lindo. Eu te amo"

"Também te amo, Mary. Te vejo no altar? Não fuja de mim"

Fechou a porta. A ansiedade — dos dois — cresceu, se tornou praticamente insuportável. Mary terminou os preparativos. Jack se dirigiu para o altar.

O noivo aguardava já nervoso de impaciência no altar. Batia o pé repetidas vezes no chão. Já eram 40 minutos de atraso da noiva.

"Acalme-se, meu filho. Ela vai chegar. É usual que as noivas se atrasem" afirmou o Padre Pedro, na tentativa de reconfortá-lo.

"Mas quando eu a vi ela me parecia pronta" pensou Jack.

Até que ele ouviu o som icônico do motor do Fleetmaster 1947. Sorriu mais do que pensava ser possível. Viu-se em tamanha felicidade, extasiado pela euforia da ideia de se casar, finalmente, com a mulher que ama.

A música começou, as portas de madeira da igreja tradicional se abriram, passou por elas a mulher mais bonita do recinto (ou pelo menos assim pensou Jack) acompanhada de seu pai. Carregava rosas, que ao chegar no altar foram entregues à mãe da noiva, que se encontrava em prantos.

Tudo passou para os que casavam como pequenas memórias, encontradas soltas no ar. A única coisa concreta ali, que os dois podiam ver, era o amor de sua vida.

Mary via o belo Jack.

Jack via a bela Mary.

"Jack Campbell, você aceita se casar com Mary Elizabeth por livre e espontânea vontade, para amá-la e respeitá-la, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, sendo fiel em todos os momentos, até que morte os separe" disse Pedro

"Aceito" respondeu Jack, sorridente

Padre Pedro perguntou o mesmo à Mary, obteve a mesma resposta, porém com um sorriso três vezes maior. Eram os dois marido e mulher.

A verdade é que se casaram depois de tantos anos de namoro por pura, livre e espontânea vontade. Não havia pressão da família, nem rivalidade com as sogras. Foi perfeitamente aceito e consentido.

Saíram da igreja e foram para a festa, tiveram sua noite de núpcias, lua de mel, uma casa, filhos, bodas de vários materiais, problemas, soluções, erros, acertos.

Viveram. Não completa e unicamente felizes. Nem para sempre. Só viveram.

Aos 75 anos, morre Jack. Infarto fulminante. Deixando mulher, 3 filhos e 4 netos.

Aos 87, morre Mary. Médicos dizem que foi insuficiência respiratória. A família acha que foi de desgosto. A neta mais velha -e a preferida, como muitos suspeitavam-, Julia, engravidou aos 16.

Seu filho do meio, grande e rico empresário de uma multi-nacional, Erick, comprou do melhor mármore para o túmulo dos pais. Colocou seus nomes e frases bonitas na pedra.

Mas as memórias do casal, tanto do casamento quanto do resto de suas vidas, morriam ali. Se dissipavam no ar, como bolhas de sabão estourando.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.