Contos

2 Um amor impossível


Notas iniciais
Nesse capítulo, temos a aparição da morte. Ela é muito presente em meu modo de escrever, sempre descrita de mesmo modo.

Odeio segundas-feiras. Odeio esse dia mais do que tudo porque, depois de dois dias de folga, eu tenho que entrar no colégio, sentar ao lado do meu melhor amigo e o ver trocando mensagens o dia inteiro com a namorada dele. Odeio mais ainda quando ela vem até o meu lugar lá pelo 4º período e pede pra sentar no meu lugar, já que o professor de Geografia não se importa com alunos fora do lugar. Detesto ver o quanto ele gosta dela.

E detesto ver que ele me ignora quando está perto dela.

Já foi diferente. Muito diferente. Dias em que o “bom dia” era para mim, em que as ligações no meio da noite pra falar de uma discussão com o irmão mais velho eram para o meu celular, em que os trabalhos em dupla ele fazia e eu apresentava. Entenda, eu não tenho amigos além dele, apenas alguns conhecidos.

O que me acalma sobre as segundas-feiras é o fato de que ela sempre chega atrasada, e, por um período ou dois, eu sinto como se ainda fôssemos aqueles dois amigos, em que eu fico com sono e deito no ombro dele, em que ele fica entediado e por baixo da mesa brincamos de pedra-papel-tesoura e que quando o professor se vira, um de nós se levanta para imitá-lo.

Foi esse o garoto que eu conheci. Foi por esse garoto que me apaixonei.

Resumidamente, eu estava perdidamente apaixonada pelo meu melhor amigo que namorava uma menina que – veja só! – não gostava de mim. Lindo isso, não?

Então, nessa linda manha de segunda-feira de novembro, começo da semana de provas eu caminhava em direção à escola quando uma chuva começou de modo repentino.

–Nem precisa de guarda chuva, os pingos não costumam acertar coisas pequenas! – Tiago disse correndo na minha direção.

–RÁ. Nem sou tão baixinha. Tenho 1,60 e sou só 19 centímetros mais baixa. – Disse enquanto pegava o guarda chuva — Vossa senhoria está encantador essa manha. Vai encontrar a monstrinha antes da aula?

–Clara, não chame ela assim. Você sabe o quanto ela é pra mim. – Ele se coloca ao meu lado, pegando o guarda chuva da minha mão. Naquela manhã, eu tinha decidido que contaria pra ele o que eu sentia uma vez que eu e ele não teríamos chances de conversar durante as aulas, muito menos depois visto que as provas começavam hoje e eu precisava estudar. Ele não, claro, Tiago era inteligente, uma das coisas que me atraía nele.

–É, é, sei. – Digo quando paro na calçada ao ver o sinal fechado.

–Clara, vamos? Não tem nenhum carro passando. – Ele continua a andar e sou obrigada a segui-lo já que ele está com meu guarda chuva. Quando chegamos no meio da rua paro.

–Eu não quero ir para lá hoje. – Digo apenas isso. Ele da um ou dois passos antes de se virar para falar comigo e a chuva se intensifica.

–Nem eu, mas temos prova hoje. Você sabe como você está. Isso é importante Clara, é o nosso último ano aqui! Tens que passar, entrar na faculdade e vamos morar juntos, eu e você.

– E ela? – digo, as lágrimas chegando aos meus olhos.

–O que...

–E ela, não é? Você colocou ela nos nossos planos sem me consultar, Tiago. Já parou pra pensar que talvez eu não queira ela? Que eu não goste dela? Porque eu não gosto. Ela te roubou de mim! – Fecho minha mão em punho, a raiva e algo mais crescendo dentro de mim. – Ela te roubou de mim e você nem viu, não é? Você nunca notou que eu te amo! Nunca!

–Clara...

–Não, Tiago. Eu não quero entrar lá pra ver tudo acontecer como sempre acontece! Pra ver você me deixando de novo! Eu não quero! – Dou um passo pra trás, balançando a cabeça.

–Clara! – Ele da um passo em minha direção, mas não vejo nada em seguida. Apenas o negro. Não sinto dor, apenas o limbo. Vejo-me sonhando com minha infância, logo depois, vejo meu filme favorito passando em cenas na minha mente. Vejo a cena se misturando, o ator principal saindo da tela e brincando com meu eu menor. Sei que sonho, mas por quê?

Quando finalmente acordo, me encontro em uma sala de hospital. Sei que faz mais de um dia que estive desacordada, talvez uma semana. Olho para os lados e vejo Tiago sentado na poltrona ao meu lado, dormindo, a bolsa da minha mãe no seu colo. Tinha algo em minha boca, incapacitando-me de falar e procurei o –famoso- botão para chamar a enfermeira.

BÉÉÉ

“Caramba. Isso não tinha como ser um pouco mais barulhento?” penso, revirando os olhos.

–Isso não tinha como ser mais barulhento? Droga. – Tiago diz com a voz ainda grogue quando acorda de surpresa. Ao me ver, ele se levanta rapidamente, derrubando a bolsa. – Clara?

Olho pra ele com uma cara irônica.

–Claro que é você. – As enfermeiras aparecem, cochicham algumas coisas e voltam para chamar o médico. – Eu preciso te dizer que eu terminei com ela. Depois de quase te perder. De quase perder a minha melhor amiga, eu notei a coisa mais óbvia de todas.

“Por favor não.” O monitor cardíaco acelerou e começou a apitar de modo mais agitado, não ritmado. Meu peito começou a doer e notei que aquela coisa na minha boca fazia com que eu respirava, e eu agradeço por isso, pois agora eu não estava em condições.

As enfermeiras entram correndo com algum médico que não conheço e minha mãe, mas uma delas já a empurrava para fora, com Tiago na outra mão. Ela afastava as duas pessoas mais importantes para mim justo nessa hora?

A dor foi aumentando enquanto sentia minha consciência caia aos poucos. Sabia que a audição é a última a se ir quando alguém morre? Li isso uma vez, sempre achei gozado isso. Eu sabia que meu coração estava parado. Sabia de todos ao meu redor. Com os olhos ainda abertos, vi uma mulher parada ao lado de Tiago. Ela era branca, pálida e com cabelos negros. Era linda e tinha uma mão no ombro dele. Ela olhava para ele de modo apaixonado, com um sorriso malandro nos lábios vermelhos. Seu vestido negro caindo em camadas pelo seu corpo. Quando tudo se tornou negro, o som do monitor cardíaco apenas um som ininterrupto, eu o escutei.

–Eu te amo, Clara.

Notas finais
Muito obrigada aos que leram. Semana que vem tem mais :*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.