Conto de um escravo
1 Conto de um escravo
Sou Alib Khanur, tenho 48 anos de idade e trabalho aqui no Brasil como escravo há mais de oito anos. Oito anos suportando essa dor, oito anos sendo tratado como um cão de rua, oito anos escravizado. Sei que oito anos não é muita coisa em comparação à vida de muitos daqui, pois muitos trabalham desde criança. Ainda me lembro da minha família, dos meus amigos, dos meus filhos e da minha esposa. Ainda me lembro daquele dia, foi um terror total.
Já era tarde e o sol já se punha. Estávamos eu e minha enorme família ali, em torno da fogueira, comemorando o aniversário do líder junto com todos da tribo. Aquele momento tinha tudo para ser especial, inesquecível. Até que eles vieram.
Foi um terror, a tribo inimiga veio aliada aos portugueses com força total. Lembro-me de ver muitos corpos caídos no chão, muitos sangrando e outros já mortos. Fiz o possível para sobreviver, mas no fim, prenderam-me e me torturaram. Puseram-me dentro de um navio horrível. Era muito quente de dia e congelava à noite. Fedia muito. Pessoas ali morriam rapidamente, principalmente os idosos e crianças, pois não suportavam a travessia e sofriam por conta da má-alimentação e desidratação. Éramos obrigados a ficar enfurnados naquele calabouço infernal, onde passei meses ali, assistindo ao sofrimento e morte de muitos negros. Até hoje, ainda tenho pesadelos com isso.
Depois disso, chegamos ao Brasil. A população de negros, que antes era de quase quinhentos, foi reduzida a menos de trezentos, devido à enorme taxa de mortos. Então logo me vi num lugar totalmente diferente e desconhecido para mim, cheio de pessoas diferentes, que falavam línguas que para mim eram estranhas. Foi uma grande confusão na minha mente. Levaram-me para uma grande feira de negros no centro da cidade, onde fui vendido à preço de boi, já que por causa da minha idade e condição física, fui desvalorizado.
Já era muito tarde e cheguei a pensar que não seria vendido e sendo assim, teria de mendigar nas ruas. Isso até ele chegar e mudar tudo. Ele me dissera que tinha um lugar maravilhoso reservado para mim, que era rico e que me daria uma ótima casa para viver, o que acabou me convencendo. Fui vendido e ele me levou à sua fazenda, porém já era tarde demais quando percebi que tudo o que ele me falara era uma gigante e pura mentira, pois onde ele disse que era um paraíso de vida, era na verdade o exílio onde eu passaria a viver pelo resto da minha vida.
Agora estou aqui, trabalhando nesta fazenda igual a um condenado. Acordo todo dia às quatro da manhã para trabalhar o dia inteiro debaixo daquele sol escaldante da lavoura, sofrer de fome e sede e claro, para ser escravo. Tudo isso para depois eu receber uma comida que quase não dá nem para saciar a fome e não ter praticamente direito a nada. Na hora de dormir, ficamos eu e mais uns cinquenta escravos empoleirados no chão de uma casinha de argila fria mal-ventilada e ainda por cima, com um monte de correntes e bugigangas que nos prendem uns aos outros e ao chão. É horrível, humilhante e desumano até. Não sei por quanto mais tempo isso durará. É trabalho forçado, castigos horríveis e muito dolorosos para quem ousa protestar algo sequer. E não importando se criança, jovem, adulto ou idoso, todo mundo é obrigado e forçado a trabalhar na fazenda por mais de quase treze horas por dia, com quase nenhuma pausa e sem ao menos poder sentar para descansar. Nós não aguentamos mais isso!
Todos aqui lutam por apenas três coisas: justiça, liberdade e igualdade. Não sei o que será de nós no futuro, nem se algum dia teremos os nossos direitos e se seremos respeitados como são respeitados os brancos, mas isso para mim não depende de sorte. Eu acho que é hora de lutar, que é hora de independência ou morte!
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