Conto de Guerra
1 Único
Notas iniciais
\"I will never let you fall I\'ll stand up with you forever I\'ll be there for you through it all Even if saving you it sends me to heaven\"
(Nunca deixarei você cair Eu enfrentarei tudo por você pra sempre Eu estarei lá por você do começo ao fim de tudo Mesmo que salvar você me mande para o céu)
-Your Guardian Angel — The Red Jumpsuit Apparatus
Acordei-me com uma dor de cabeça terrível. Olhei ao redor. Onde eu estava? Então uma onda de lembranças golpeou-me, e a realidade me atingiu. Fiquei de pé com dificuldade, a Praça da Bandeira estava irreconhecível, a única coisa que a entregou fora a estátua de Getúlio Vargas, caída ao chão à poucos metros de mim. O hotel ficava em frente à praça, procurei por ele, mas só haviam destroços onde antes ele ficava. Destroços, era tudo o que eu via. Casas e apartamentos como entulhos, as árvores da praça caídas, a fonte destruída. E corpos. Corpos de pessoas mortas por toda a parte, homens, mulheres, crianças, idosos, soldados...
Lembrei-me de ter saído do hotel pra comprar pão, o dinheiro ainda estava no bolso do meu vestido. Onde estariam meus pais? Debaixo daqueles entulhos? Ou haviam conseguido fugir? A tristeza e o desespero tomaram conta de mim. Comecei a andar rapidamente em direção aos destroços do hotel onde eu estava morando, percebi que minhas pernas doíam muito e estavam machucadas, e que algo devia ter cortado minha cabeça, pois havia sangue já seco escorrido da minha testa até a bochecha. Mas algo me fez parar. Vi no fim de uma das ruas que iam de encontro à praça um tanque de guerra se aproximando. Deitei-me novamente e me fingi de morta.
-Levante garota – ouvi alguém falando muito próximo. Era realmente comigo? Tremi de medo.
-Anda, não precisa se fingir de morta – a pessoa continuou – Não vou te matar. Preciso de sua ajuda.
Abri lentamente os olhos. Notei então a idiotice que havia cometido, ele podia estar mentindo, é claro.
-Pode me ajudar a encontrar esse moço? – perguntou-me a mesma voz. A pessoa olhava para mim, era um general, pelas roupas.
Ele estendeu a mão e me entregou uma foto. Reconheci facilmente o garoto da foto, mas resolvi não desmontar isso. Em uma situação normal eu teria suspirado ao ver aquele rosto, aqueles traços tão finos, a mandíbula sempre rígida, as sobrancelhas quase inexistentes, os cachos loiros e os olhos anil. Era um rosto tão simétrico, tão fino, tão... Perfeito que parecia irreal.
Arthur estudara no meu colégio lá em Aracaju até uns dois anos atrás, esse ano estava na faculdade de Santa Catarina cursando Biologia Genética. Ele nascera em Santa Catarina, mas havia se mudado para Aracaju aos 14 anos por conta do emprego de seu pai. Havíamos nos falado poucas vezes e por algum motivo que desconheço, todas essas vezes fora ele quem comentou algo subitamente comigo, como se nos falássemos sempre. Talvez ele fosse assim com todos, mas eu gostava de acreditar que ele estava tentando se aproximar de mim. Digamos que ele era meu amor platônico de escola.
Ele sempre voltava a Aracaju e nos encontrávamos por acaso, e eu sempre ficava feliz, mas sem toda a euforia de antes. Num desses encontros imprevistos ele disse que estavam precisando de arqueólogos na USC para trabalhar numa pesquisa sobre o genis de uma espécie de macacos que haviam desaparecido há muito tempo, e que quando eu concluísse o curso de arqueologia devia entrar em contato com ele. Eu assenti e ri. Mas lógico que sabia que ele encontraria algum arqueólogo pós-graduado, com doutorado e tudo antes de eu concluir o curso.
-Quem é este? – indaguei falsamente, ainda mirando a foto.
-Um de nossos soldados, ele está por aqui, e vivo espero. Precisamos muito dele.
Doeu muito saber que ele poderia estar morto, assim como meus pais, minha família e meus amigos. Mas de alguma forma eu sabia que estava meio entorpecida, e doeria muito mais quando o torpor passasse. Era como se eu simplesmente estivesse esperando acordar.
-E porque não manda seus soldados o procurarem? – me arrependi de ter perguntado isso assim que terminei de falar. Ele tinha autoridade suficiente pra me mandar procurar qualquer coisa.
-Porque o único que está comigo foi ferido nos olhos. Pedi reforços, mas, não temos mais reforços. Vou procurá-lo também, só me ajude, por favor – ele não pareceu ter se ofendido com minha pergunta, fiquei aliviada.
-E como sabe que ele está vivo e que está aqui? – indaguei já de pé, olhando os rostos ensangüentados das pessoas caídas ao chão. Algo horrível e assustador de se ver.
-Ele pediu socorro pelo walk-talk, meu capitão mandou-me vir atrás dele. É um soldado muito inteligente, precisamos dele ao nosso lado.
-Acho que encontrei – falei, olhando um rosto levemente parecido com o de Arthur, embora estivesse machucado de mais para ter certeza.
O general, tenente, ou sei lá o quê se aproximou de Arthur, tirou um espelho do bolso e o colocou em na boca de Arthur entreaberta. O espelho ficou embaçado.
-Está vivo – ele disse parecendo aliviado. Eu também fiquei.
O homem pegou Arthur no colo e o levou até o tanque.
-Volto para te pegar, não há mais lugar aqui dentro. Finja-se de morta se alguém aparecer – e dizendo isso ele sumiu dentro do tanque
Comecei a andar pela praça destruída e vi alguém não muito longe sentar-se. Limpei o sangue de meu rosto enquanto corria até lá. Quantas daquelas pessoas ainda estavam vivas?
Demorei um pouco a reconhecer, sem os cachos, com o rosto sujo e machucado. Mas se aquele era Arthur então quem...?
-Brenda? – ele perguntou, me olhando confuso.
-Arthur! – me ajoelhei ao seu lado – O que você...? O que aconteceu com seu cabelo? – então olhei suas roupas, era a farda do exército, isso explicava a cabeça meio raspada. Ainda assim, sujo, ferido e sem os cachos, estava lindo. O fato de ter cortado o cabelo o deixava mais forte, mais másculo.
-Eu vim por causa da guerra. Não sei quanto tempo temos então... – mas ele não concluiu. Ele me beijou. Sem mais nem menos, completamente do nada.
-Me entregou o garoto errado – uma voz nos interrompeu. Era aquele general que havia levado o Arthur errado.
-Percebi – falei, feliz porque Arthur seria provavelmente levado a algum médico e ficaria melhor.
Mas então o general tirou uma arma do cinto e apontou para Arthur.
-O quê...? – olhei dele pra Arthur, sem entender.
-Entre no tanque, agora – ele ordenou.
Arthur se levantou e me levantei também.
-Não... Você disse que era um dos nossos... Você... – tentei explicar, como se quisesse lembrá-lo que Arthur era um dos nossos soldados e não um inimigo.
O general soltou uma gargalhada horrível e Arthur me lançou um último olhar encorajador, como se quisesse me acalmar, mas eu sabia que no fundo ele estava com medo. Muito medo.
Só então notei que haviam saído três soldados do tanque. Havia sido tudo uma armação, uma mentira.
-Nós o capturamos, ele contará onde estão os outros, por bem ou por mal. Câmbio – o general falou no walk-talk. Ele enfatizara tanto a palavra “mal” que só uma coisa me veio à cabeça: tortura. Eles iriam torturar Arthur até que este entregasse os outros soldados. Arthur devia ser muito importante, alguém que sabia todos os esconderijos e por isso era essencial para que... Espere, de que lado aquele general estava afinal? Ele era do norte, como eu, ou do sul? E Arthur, de que lado estava lutando? Do oposto que o general, eu tinha certeza, mas não sabia qual. Norte ou sul?
Eu tentei impedir que levassem Arthur, segurando ele, então todos os soldados apontaram as armas para mim. O general me empurrou com tanta força que cambaleei um metro pra trás e caí no chão.
-Não quero ter que te matar – ele disse entrando no tanque.
Tentei ficar de pé e correr, mas fiquei tonta. O tanque já estava longe. O que eu havia feito? Senti-me culpada e burra. Incompetente, incapaz, imponente, estúpida. Culpada de novo.
Uma cena cortou minha linha de raciocínio. O tanque com Arthur já havia se afastado e lá longe um outro tanque parou em sua frente, impedindo-o de passar. Aparentemente ou os dois tanques estavam sem bombas ou eram aliados, pois nenhum atirou contra o outro.
Percebi que eram inimigos quando os soldados do segundo tanque saltaram no primeiro e tentaram invadi-lo. O segundo tanque parecia bem maior e com mais soldados. Quando conseguiram entrar tiraram alguém de lá de dentro e retornaram ao seu tanque. Depois de se afastarem ouvi uma explosão saindo do tanque grande e destruindo menor. Destruindo o tanque onde Arthur estava.
O grande tanque estava vindo na direção da praça, deitei-me e me fingi de morta, mais uma vez. Fiquei imóvel, tentando respirar o menos possível esperando que o tanque passasse, ou me encontrasse e me ajudasse, ou... Me matasse.
-Essa? – congelei ao ouvir isso e alguém me puxou pelas roupas me pondo de pé.
Havia vários soldados ao meu redor e todos olhavam de mim para um outro soldado. Reconheci Arthur. Ele estava vivo!
-Foi essa quem te entregou? – repetiu o soldado, e notei que algo estava errado.
Encarei Arthur. Sua mandíbula estava mais contraída que de costume.
-Sim – ele falou baixinho.
-Arthur? Eu não queria... Você sabe – como ele podia estar fazendo isso comigo? Só então notei o sotaque do soldado que havia perguntado a Arthur se fora eu quem o entreguei. Era um sotaque paulista. Arthur não era um dos nossos. Ele era do sul. Era meu inimigo.
Eu odiava aquela guerra. Por causa dela eu e minha família havíamos fugido para o Amapá e pensávamos que o Amapá era um estado neutro, mas vi que estávamos errados quando os aviões chegaram e começaram a lançar bombas. Estávamos em um hotel simples perto da praça na cidade de Vila Velha. O centro-oeste, o sul e o sudeste haviam se unido contra o norte e nordeste. Tudo por conta da expansão do grupo dos neo-nazistas, que haviam tomado o poder rapidamente e pretendiam acabar com os nordestinos, erradicá-los do Brasil. O norte não aceitou isso e se uniu a nós (com exceção do Amapá) formando somente dois grandes grupos: norte e sul. Inocentes tanto do sul quanto do norte eram obrigados a lutar. Tudo se encaixou rapidamente em minha cabeça. O general era do norte, por isso não me matou, por que mais haveria de ter tido piedade? Ele precisava de Arthur para descobrir onde os sulistas se escondiam aqui pelo nordeste. Ele precisava de mim pra reconhecer Arthur em meio aquilo tudo. Eles deviam estar seguindo e investigando Arthur por muito tempo e pretendiam capturá-lo, mas então ocorreu o ataque aéreo dos sulistas, bombardeando o local onde Arthur e eu estávamos. Por isso o general havia ficado aliviado ao saber que ele estava vivo. Seria muito complicado descobrir os esconderijos se Arthur estivesse morto e eles tivessem de encontrar outra pessoa que soubesse os esconderijos como Arthur.
Meu sentimento de culpa foi embora, me sentia traída. Então algo me acertou na cabeça interrompendo meus pensamentos e tudo ficou escuro de repente.
Acordei no que pareceram ter sido poucos segundos depois. Eu estava numa cama. Havia sido um sonho! Sorri e me sentei na cama.
-Graças a Deus você acordou! – Arthur falou e sentou-se na cama ao meu lado. Senti minha cabeça doer por ter sentado tão rápido. Não havia sido um sonho, fora tudo real.
Senti tanto ódio de Arthur naquele momento... Pra onde ele havia me levado? Ao exílio? Eu seria torturada? Morta em praça pública?
-Seu... – comecei a estapeá-lo com todas as forças que eu tinha (o que não era muito) e me odiei por não conseguir machucá-lo de verdade. Eu estava muito fraca – O que está fazendo comigo?! Onde eu estou?! Idiota! Traidor! Ordinário! Filho de uma...
-ESPERA! – ele falou segurando meus braços.
-O que aconteceu com você? Está mais machucado. Eu diria que parece que você estava numa guerra se não fosse uma brincadeira realista de mais. Você vai pegar mil infecções se não cuidar desses ferimentos, e espero que pegue as piores! Queria ter forças pra poder fazer machucados muito maiores que os que está agora. Eu poderia...
-Brenda! Me escute – ele pediu.
-O que vai me dizer? Vai ser a última pessoa com quem conversarei antes de ser executada?
-Me deixe explicar! – havia um tom de riso na voz dele. Do que ele estava rindo?
-Não quero mais ouvir sua voz! Prefiro passar meus últimos minutos sozinha! – e então lágrimas começaram a jorrar de meus olhos. O torpor havia passado e eu estava chorando por tudo que havia ocorrido. Eu não sabia que tantas lágrimas podiam sair de apenas dois olhos em tão pouco tempo. Parecia que eu estava chorando pela primeira vez em minha vida.
-Não chora, por favor! – ele ficou sério de repente — Você não vai morrer, está tudo bem – ele enxugava minhas lágrimas e eu tentava afastar seus braços – Não chore, por favor, está acabando comigo...
-Me deixa em paz! – falei, sufocada por tantas lágrimas.
-Eu só entreguei você porque sabia que se eu dissesse que não era você a pessoa que havia me dedurado eles matariam você ali mesmo, simplesmente por ser nordestina. Dizendo que você era sim a traidora eles iriam querer levá-la para um esconderijo e torturá-la até a morte, e no trajeto até o esconderijo eu sabia que teria tempo de te salvar. Lutei com todos eles e realmente não entendo como consegui ganhar, assumi o comando do tanque e trouxe você até aqui. Estamos em Oiapoque. Você dormiu o caminho todo, cheguei a pensar que estava em coma. Oiapoque é uma cidade neutra por enquanto.
Tentei digerir tudo aquilo. Eu não estava mais soluçando e as lágrimas estavam cessando lentamente. Uma calmaria tomou conta de mim. Então ele não havia me traído! E eu estava a salvo, e ele também. Não consegui deixar de sorrir.
-Por quanto tempo eu dormi?
-Umas quatro horas, tentei te acordar mas não consegui.
-Pareceram segundos... Então não temos mais do que temer? – parecia incrível depois de tanto sufoco.
-Não exatamente – o sorriso que havia se formado em seu rosto quando me viu sorrir começou a desmanchar-se – Você está a salvo. Nesse território só morre alguém quando os sulistas e nortistas estão de acordo. Você é nordestina então está protegida, os nortistas não querem matar você. Mas eu traí os sulistas, e como sou um sulista os nortistas concordaram em me matar. Ambas as partes querem me matar, entende? Eles devem estar me procurando, é só uma questão de tempo... Tentei atravessar o rio que faz divisa com a Guiana Francesa, estaríamos salvos lá, mas há fiscalização por toda parte, a ponte está fechada. Mas você está bem, isso é o que importa.
-Não! Isso não é o que importa! Você se sacrificou por mim? Por que fez isso? Aliás, porque me beijou lá na praça?
-Por que sempre quis te beijar e pensei que ali seria minha única oportunidade. Pode parecer estranho, mas, é por que eu te amo. Sempre te amei, mas tentava não admitir isso nem pra mi mesmo porque, eu pouco te conheço como pude me apaixonar? Acredita em amor à primeira vista?
-Não. Acredito em amor de vidas passadas. Sempre fui apaixonada por você, mas achava que era só um amor platônico. Só que nunca senti isso por mais ninguém, e era muito, muito, muito mais forte que meu amor platônico por John Lennon e por Alex Turner.
Ele riu.
-Alex Turner? Que mau gosto... – ele disse quase num sussurro, se aproximando mais até que nossos lábios se encontram.
Esqueci-me de mundo por um momento que pareceu durar anos, mas um estrondo me fez sobressaltar.
-Eles vieram atrás de você! – falei assustada.
-É, mais rápido do que imaginei – ele parecia triste, mas conformado com seu aparente destino.
-Não! Esconda-se! Rápido, a janela, o... – então reconheci onde eu estava. Podia existir maior coincidência? Reconheci aquele porão, aquele quadro com uma sereia pintada e peixinhos ao seu redor, muito mal pintando e assinado por “Brenda 1996”. Era impossível.
-Ei! Eu conheço essa casa! Meus avós moram aqui! Veja, é um quadro pintado por mim há 14 anos atrás quando eu tinha 5 anos!
O barulho de portas sendo arrombadas estava se aproximando, estavam chegando mais e mais perto.
-Há uma saída, uma passagem secreta! Venha! – afastei o meu quadro da sereia, onde havia uma porta atrás, peguei a chave que ficava na gaveta secreta da escrivaninha e a abri. O barulho estava muito próximo agora.
Puxei Arthur para dentro da passagem secreta, entrei e fechei a porta no mesmo instante em que ouvi a porta do porão onde estávamos ser arrombada. Arthur seguiu direto engatinhando pelo caminho iluminado.
-Esse não! – falei segurando seu pé – Esse é o caminho falso, vai dar na porta de casa. Levantei as mãos e empurrei uma placa do teto que ficava solta. Fiquei de pé e passei por ali, Arthur veio logo atrás de mim e pedi para que ele pusesse a placa de volta no lugar.
Começamos a andar pelo corredor de pedras escuro.
-Porque escolheu essa casa? – perguntei.
-Quando vi a ponte cercada de soldados, esta era a casa mais próxima – ele respondeu um tempo depois – Coincidência absurda. Aonde vai dar essa passagem?
-Acredita mesmo em coincidências? – indaguei.
-Não sei mais no que acredito. Acredito em você.
Segurei sua mão no escuro e a apertei.
-Eu acredito em você.
Depois de muito andar, minha barriga roncou. Percebi que estava morta de fome.
Rimos do ronco de minha barriga.
-Também estou faminto, espero que chegue logo.
O túnel começou a descer desenfreadamente. Continuamos descendo por muito tempo até que o terreno se tornou íngreme e subimos. Minhas pernas doeram mais ainda naquela subida.
-Veja! – apontei para o teto um pouco adiante onde havia furos por onde a luz entrava. Fomos até lá e Arthur levantou a tampa que parecia a de um bueiro. Ele me ajudou a sair de lá. Olhei para os lados. Estávamos em uma caverna e havia uma saída a poucos metros. Quando saímos da caverna estávamos à margem de uma larga estrada aparentemente no meio do nada. Então vi uma placa velha e enferrujada.
“Bienvenue à Maripa, Guyane Français”
Arthur me abraçou.
-Inacreditável. Estamos salvos! – ele falou.
-E clandestinos...
-Não exatamente...
-Como assim? – o encarei.
-Minha família é daqui.
-Impossível... – falei sem acreditar.
-Coincidência não? – ele riu.
-Mas eu ainda sou clandestina.
-É, a menos que... – ele hesitou e me encarou profundamente com aqueles olhos azuis quase transparentes – A menos que se case comigo.
-O quê? Mas só tenho 19 anos e você 22...
-Tudo bem então, clandestina...
-Isso é um suborno? – o encarei, rindo.
-Com certeza, mas eu faria o pedido mais cedo ou mais tarde. Se você não quer...
-É claro que eu quero!
-Interesseira.
-Com certeza, mas eu aceitaria mais cedo ou mais tarde.
Rimos e então passei meus braços ao redor de seu pescoço, ele me puxou e me beijou. Pela primeira vez nada nos interrompeu. Até que ele parou de me beijar e me encarou, por um longo tempo e depois me abraçou. Senti naquele abraço acima de tudo, um grande alívio de ambas as partes. E percebi que vários caras haviam me beijado antes, mas quantos me abraçaram depois de me beijar? Daquele jeito ainda mais? Por tanto tempo e com tanta paixão? Não me lembrava de nenhum.
Fomos de táxi até a casa da família de Arthur, parando no caminho para comer com o dinheiro que estava em meu bolso. O táxi até Cayenne, a capital da Guiana onde a família dele morava, deu uma fortuna, mas eles não se incomodaram em pagar pra gente. Fomos muito bem acolhidos lá, a família dele estava feliz por saber que ele havia sobrevivido em meio a tanta guerra. Comemos o suficiente para matar a fome de umas quinze pessoas que estivessem em um nível normal de fome, pois ainda estávamos com muita fome. Depois tomamos banho, a tia dele me emprestou algumas roupas e depois cuidou de nossos ferimentos. Ela era enfermeira, pelo que entendi (meu francês é horrível). Depois dormimos e quando acordei no outro dia e me troquei desci para procurar por Arthur, mas ele não estava em parte alguma.
-Brenda? – uma voz conhecida me chamou. Vir-me-ei, Arthur entrara pela porta da frente. Aonde havia ido?, perguntei-me.
Ele tirou algo do bolso e se aproximou de mim. Era uma caixinha, e quando ele a abriu meu coração deu um salto. Era um anel, o mais lindo que eu já havia visto.
-Formalmente dessa vez... Quer se casar comigo? – ele perguntou colocando o anel de noivado em meu dedo.
-Formalmente dessa vez... Nunca quis tanto uma coisa na vida.
Embora eu chorasse todos os dias por conta de minha família e amigos, eu estava feliz. Estava feliz por estar viva, estava feliz por estar viva ao lado de Arthur. Estava feliz por ter Arthur pra me abraçar e sussurrar ‘vai passar’ toda vez que eu chorava. E estava feliz por que iria me casar.
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